Notícia

Diário do Nordeste

Incentivo à ciência

Publicado em 03 março 2000

Que o Brasil investe muito pouco em ciência e tecnologia, não é nenhuma novidade. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) não pára de reclamar da carência de verbas para o setor. A comunidade científica tem razão, pois, se não for produzida internamente, a tecnologia terá de ser comprada no exterior e esta última opção é suicida num mundo cada vez mais competitivo. O País compromete apenas 0,7% do seu Produto Interno Bruto em pesquisa, quando a média de gastos em países desenvolvidos é de 3%. Essa insuficiência de recursos agrava-se nas regiões carentes, como o Nordeste. Os esforços das universidades e fundações de pesquisa são milagrosos, mas grande parte de suas investigações acaba abortada, provocando o desestímulo profissional e o desperdício de recursos. No Congresso Nacional, repousam projetos de parlamentares ao Nordeste para a democratização de recursos para pesquisa, já que universidades e centros de tecnologia do Sudeste concentram as minguadas verbas destinadas ao setor. O projeto criando um fundo de desenvolvimento científico e tecnológico para a região, se colocado em prática, daria novo impulso às atividades dos abnegados cientistas nordestinos. Mas a falta de verbas específicas atinge também o Sudeste e, por isso, são admiráveis as recentes descobertas que colocam o Brasil em boa posição no cenário científico internacional. São projetos pontuais que recebem apoio de fundações de fomentação a pesquisas científicas. Foi o caso, por exemplo, do projeto "Genoma Xylella", financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp). Esta descoberta torna o Brasil um dos poucos países a dominar tecnologia de seqüenciamento genético. Durante dois anos, os cientistas trabalharam para seqüenciar todas as letras do código genético da Xylella fastidiosa, bactéria responsável pelo amarelinho, praga que ataca as plantas cítricas. O resultado tornou o País pioneiro no estudo genético de organismos que produzem enfermidades nas plantas. A pesquisa significa o fim próximo de um problema dos produtores nacionais de laranja, um dos principais itens de exportação nacional. No rastro desse projeto, elogiado internacionalmente, novas idéias começam a ser concebidas. Mais três planos de seqüenciamento genético serão postos em prática: o Genoma Xanchomonas, que estudará mais uma bactéria que atinge os cítricos; o Genoma Cana, sobre cana-de-açú-car, e o Genoma Câncer, que identificará e seqüenciará os tipos de câncer mais comuns. Já cientistas da Fiocruz e do Instituto Butantan estão prestes a descobrir a vacina contra a esquistossomose. A enfermidade, conhecida no Nordeste como barriga d'água, atinge oito milhões de pessoas no Brasil. Doença endêmica, ela existe em quase todos os Estados, com predominância no Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo. Desde 90, a Fiocruz isolou a proteína denominada de Sm 14, presente na membrana do verme, que nunca havia sido escrita na literatura mundial. Depois, os cientistas conseguiram cloná-la, produzindo-a em laboratório através da engenharia genética. Um convênio entre a Fiocruz e o Instituto Butantan vai proporcionar a produção da proteína em maior escala. Ainda este ano, ela será testada em seres humanos. Infelizmente, a constante falta de verbas interrompeu, por várias vezes, a produção da vacina que, só agora, chega a sua fase final. Isso demonstra a excelência dos cientistas pátrios que, mesmo enfrentando condições das mais adversas, conseguem realizar pesquisas de mérito, reconhecidas internacionalmente. O governo precisa ser mais incisivo e incentivar o potencial científico e tecnológico do País como ~ um todo. O processo de modernização certamente passa pelo maior apoio à ciência e à tecnologia.