Notícia

Jornal do Brasil

Inaugurada rede para estudar proteínas

Publicado em 04 julho 2001

Foi inaugurada ontem a Rede de Biologia Molecular Estrutural, reunindo 16 laboratórios paulistas com o objetivo de estudar a estrutura de 200 proteínas humanas e de bactérias até 2005. O projeto, financiado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), dará subsídios para o desenvolvimento de novas drogas para combater doenças como o câncer ou pragas agrícolas. O estudo de estruturas tão pequenas pode parecer irrelevante, mas é fundamental para o avanço da medicina. "As proteínas são responsáveis por quase tudo o que ocorre no organismo, desde o transporte de ferro no sangue à entrada de açúcar na célula", explicou Rogério Meneghini, do Laboratório Nacional de Luz Síncroton (LNLS), em Campinas, que coordenará a rede. Aids - Sem a análise de proteínas, a redução da taxa de mortalidade de 50% nos últimos cinco anos no Brasil dos infectados pela Aids jamais teria sido atingida. O inibidor de protease, classe de medicamentos que integra os coquetéis anti-HlV, foi desenvolvido a partir da identificação da estrutura de uma das proteínas do vírus - a protease. A rede dará prioridade a proteínas produzidas por genes identificados em projetos brasileiros, como o Genoma do Câncer e da Xylella fastidiosa, bactéria que ataca os laranjais. Hoje, seis proteínas vêm sendo estudadas em caráter experimental no LNLS. Uma delas é a SM 14, presente no Schistosoma mansoni, causador da esquistossomose. Ao desvendar a estrutura da SM 14, os pesquisadores darão um passo adiante no desenvolvimento de uma vacina contra a doença, endêmica na Região Nordeste. Técnicas - Duas técnicas serão usadas na análise das proteínas: a cristalografia por raio X, existente em apenas 14 países no mundo, e a ressonância magnética, cujos equipamentos foram instalados no LNLS no início do ano. Esses equipamentos fornecem imagens tridimensionais das cadeias de aminoácidos, permitindo que os pesquisadores identifiquem a ligação entre eles e desvendem a função das proteínas. "A aquisição dos novos equipamentos contribuirá para o aumento da competência brasileira no campo da biologia molecular", disse na cerimônia da inauguração da rede, em Campinas, o ministro da Ciência e Tecnologia, Ronaldo Sardenberg, que este ano destinará R$ 3,6 milhões para o projeto. A Fapesp já liberou US$ 3,5 milhões (cerca de R$ 7 milhões). A vantagem da ressonância magnética sobre a cristalografia, é que, ao contrário desta, não há necessidade de transformar as proteínas em cristais. "Apenas 20% das proteínas purificadas são cristalizadas com sucesso. A nova técnica vai possibilitar que nós decifremos mais proteínas", afirmou Meneghini. Estima-se que o ser humano tenha 100 mil proteínas e que 14 mil estruturas protéicas, entre humanas e de outros organismos, já tenham sido desvendadas no mundo. O Brasil responde por cerca de 0,2% do total. Para atingir a meta de 200 proteínas em cinco anos, a rede deverá ganhar a ajuda de ao menos mais dez laboratórios. O edital para os candidatos estará disponível a partir da próxima segunda-feira na página do LNLS em http://www.lnls.br.