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Impressão 3D avança timidamente no Brasil

Publicado em 27 julho 2018

Por Jornalista: Ediane Tiago

A impressão 3D figura entre as principais transformações da medicina digital. A evolução de materiais ? físicos e biológicos ? tem permitido a produção de próteses e tecidos. Para alguns especialistas, a fabricação 3D aliada à edição de genes vai resultar na bioimpressão de órgãos, eliminando filas de transplante e reduzindo a rejeição dos pacientes. "A manufatura aditiva traz benefícios como recuperação mais rápida e maior segurança nos procedimentos cirúrgicos", comenta Guilherme Rabello, gerente comercial e de inteligência de mercado do InovaInCor, núcleo de inovação da Fundação Zerbini ? gestora do Instituto do Coração.

Para Rabello, a impressão 3D também propiciará mudanças nas avaliações financeiras dos procedimentos. "Se analisarmos os resultados em longo prazo, veremos que o investimento compensa, sai mais barato", diz. A equação deixa de levar em consideração apenas o custo do insumo, incluindo economias com intercorrências pós-operatórias, maior qualidade de vida e retorno rápido do paciente à rotina familiar e ao trabalho. "A doença tem custo social alto e ele tem de ser levado em consideração na hora de definir o tratamento."

A pesquisadora Carolina Caliari, fundadora da In Situ, trabalha para confirmar as vantagens da bioimpressão no tratamento médico. A In Situ ? startup incubada no Supera Parque Tecnológico de Ribeirão Preto ? nasceu da pesquisa da bióloga sobre terapia celular. A técnica permite a impressão 3D de pele, com o uso de células-tronco, do próprio paciente ou de banco de células.

O resultado é um biocurativo capaz de tratar desde queimaduras até úlceras na pele. "É um curativo inteligente. Além de proteger a ferida, as células expelem substâncias anti-inflamatórias produzidas pelo organismo", comenta. O objetivo é capacitar o próprio corpo a tratar a ferida, com uso do sistema imunológico e da produção de substâncias como o colágeno. "O processo de cicatrização tem se mostrado mais eficiente", comenta a pesquisadora.

A terapia celular não é regulamentada no país. Mas é uma fronteira tecnológica que deverá ser explorada para capacitar o sistema de saúde. A pele desenvolvida pela In Situ tem potencial de ajudar diabéticos. Em muitos casos, a doença leva à amputação de membros, uma vez que o organismo tem dificuldade em cura as feridas. Em fase de testes clínicos, o projeto consumiu, até agora, recursos na casa de R$ 800 mil ? financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). "Utilizamos uma impressora fabricada no Brasil, de outra startup, a 3D Biotechnology Solutions. É uma tecnologia 100% nacional", diz Carolina.

Anderson Soares, responsável pela operação da Stratasys no Brasil, observa que, apesar da demanda latente no país, a impressão 3D tem crescido de forma tímida no setor de saúde. "É uma indústria muito tradicional e os operadores dos planos ainda calculam o custo com base no valor do insumo. Se imprimir ficar mais caro, partem para produtos tradicionais", afirma.

Ele cita como exemplo a impressão de modelos para simulação cirúrgica. A técnica permite que a equipe médica replique órgãos em diferentes materiais. A peça ? desenhada a partir dos exames de imagem ? representa o órgão do paciente, com suas dimensões reais e permite testes de técnicas cirúrgicas e aplicação de próteses.

Em um procedimento oncológico, por exemplo, os médicos enxergam na peça o tumor, todas as suas ramificações e estudam as técnicas e formas de retirá-lo. "A equipe vai mais preparada para o procedimento, que tem duração, riscos e sequelas reduzidos", explica. A economia com a utilização dos modelos pode variar entre 10% e 70%. "Depende do procedimento. De qualquer forma, o ganho para o paciente é sempre grande", completa Soares.

De acordo com Soares, o segmento de saúde no Brasil tem demandado ainda recursos de manufatura aditiva para reposição de peças em equipamentos. "Muitas vezes é mais rápido imprimir do que esperar chegar da fábrica. Em algumas horas, a máquina volta a funcionar", comenta. A área de educação também tem se beneficiado da impressão de modelos de órgãos, de membros e até de corpos humanos inteiros. "Não há a necessidade de estudar medicina em cadáveres", reforça Soares. Neste caso, a impressão é mais prática e menos burocrática.

A impressão de próteses implantáveis também não é permitida no Brasil. "A regulamentação é um dos gargalos para o avanço da técnica", explica Arnaldo Berger, CEO da TechCD. Ele ainda cita fatores como a fase do desenvolvimento de materiais e o entendimento das vantagens das próteses impressas pelos planos de saúde como entraves. "Na área de materiais, temos de avançar nos testes de desempenho e documentar os ganhos. Já na área comercial, é preciso maior engajamento dos operadores de saúde", explica. Ganhar massa crítica é vital para o Brasil que, na visão de Berger, está atrasado ? entre sete e oito anos ? na adoção da manufatura aditiva na medicina, quando comparado a outros mercados de porte equivalente.

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