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Correio Popular online

Importante é estar ativo

Publicado em 20 setembro 2009

Em menos de um século, seremos um mundo de cabelos brancos. Projeções do Instituto Demográfico de Viena e da Universidade do Estado de Nova York, publicadas em 2008 pela revista científica Nature, indicam que, até 2100, a proporção de pessoas com mais de 60 anos vai passar de 10% para 32%, atingindo perto de 50% na Europa Ocidental e em países como o Japão.

No Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o índice deve triplicar já nos próximos 40 anos, passando dos atuais 9% para 29%. À parte os transtornos gerados aos sistemas públicos de saúde e previdência, o aumento da expectativa de vida não deixa de ser boa notícia.

O mérito vai, em muito, para as descobertas da medicina, traduzidas em cura, vacina ou tratamento para males que representavam sentenças de morte. E no atual estágio dessa "prorrogação" do jogo, a neurociência galga posições, avançando para desvendar o funcionamento de uma parte ainda nebulosa do corpo humano: o cérebro. O que é fundamental para que os anos extras sejam mentalmente produtivos.

A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) integra, coordena e sedia, desde 2007, um dos mais importantes grupos de estudos brasileiros na área, o Cinapce (Cooperação Interinstitucional de Apoio a Pesquisas sobre o Cérebro), programa financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). São cerca de 180 colaboradores de nove unidades da Unicamp e também da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein (IIEPAE).

Além das pesquisas, os centros têm a função de desenvolver novos métodos para processar e analisar imagens de ressonância magnética e promover treinamento multi-institucional de estudantes e pesquisadores. Um dos coordenadores do Cinapce é o professor do Departamento de Neurologia da Unicamp, Fernando Cendes, que falou à Metrópole.

Metrópole - O envelhecimento populacional é um fenômeno mundial. Como a ciência trabalha para garantir mais tempo de vida mentalmente ativa?

Fernando Cendes - A longevidade tem a ver com todos os avanços da medicina,

pois os países estão envelhecendo num contexto de melhor suporte à saúde. É um conjunto de avanços da ciência e da própria sociedade.

Há diferenças no envelhecimento cerebral de homens e mulheres?

É ligeiramente diferente, assim como o desenvolvimento, principalmente pelos hormônios. Mas a grande questão é a saúde como um todo. Um quadro infeccioso grave, uma doença cardíaca afetam o cérebro, fá alguém com bons níveis de colesterol, boa dieta e que pratique atividade física vive melhor do ponto de vista cardiovascular e vai envelhecer sem tantos problemas de memória, por exemplo.

Então, as doenças cardiovasculares são as que mais têm relação com problemas cerebrais?

Várias outras situações contribuem, mas eu diria que, em termos de frequência, é uma afirmação correta.

Um dos maiores desafios dos neurocientistas é desbravar a fronteira que separa as alterações do envelhecimento natural das provocadas por doenças degenerativas, como Alzheimer. Por que é difícil essa análise e tão importante a diferenciação?

Todos os tecidos têm "prazo de validade". Ossos, pele, cérebro, tudo envelhece. Na doença de Alzheimer vemos um estágio de envelhecimento muito avançado, que alcançaríamos se vivêssemos até os 115,120 anos. O patológico nesse mal são alterações cerebrais em uma idade precoce, aos 60, até aos 50 anos. O que causa isso é o que se procura descobrir. E a diferença entre o envelhecimento natural e um Alzheimer leve é de fundamental importância, porque os tratamentos existentes atuam somente nas formas mais discretas da doença. Quando o Alzheimer passa a ter sintomas claros, já pode ser tarde demais.

O diagnóstico precoce permitirá a cura?

Ainda não temos a cura. O mal seria adiado, o que já é um grande passo. Há pouco tempo não podíamos fazer quase nada. Os estudos nessa área estão avançados, mas ainda longe do que gostaríamos.

Há alguma forma de recuperar, mesmo parcialmente, a capacidade cerebral perdida com o envelhecimento?

No começo, alguns medicamentos podem ajudar. Mas para ter certa recuperação, ou perda mais lenta, devemos dar melhores condições ao Sistema Nervoso Central (SNC), exercitando funções que forçam a manutenção da atividade cognitiva, como pela leitura e arte. A pessoa também deve se manter dinâmica pelo convívio social e não ficar focada numa coisa só, como passar horas afio diante da televisão. Fala-se muito também de palavras cruzadas e quebra-cabeças, que podem servir, assim como o jogo de xadrez. O importante é estar ativo.

É válida a suplementação alimentar com vitaminas e plantas medicinais?

Não há comprovação científica de que estes suplementos ou ervas medicinais melhorem a capacidade cognitiva. O que se deve evitar é a falta de vitaminas, que ocorre na desnutrição, doenças do estômago, etilismo, dentre outras condições. Quando existe deficiência de vitaminas, a reposição é importante para o bom funcionamento do cérebro.

É muito propagada a propriedade dos exercícios físicos de manter a boa forma não só do corpo, mas do cérebro. Por quê?

Tudo é interconectado. O cérebro, para funcionar bem, precisa do sistema cardiovascular trabalhando direito, de um bom aporte de oxigênio, de glicose etc. Então, qualquer atividade física ajuda o SNC.

Os fatores emocionais interferem no envelhecimento cerebral?

Diretamente. Alguém deprimido, sem atividade física, vai ter perdas de memória, deixar o cérebro mais "parado". Dependendo da duração e da gravidade do estado depressivo, é deletério. Quanto mais positiva a postura, melhor para a atividade cerebral, e, de novo, para a saúde geral.

E o sono?

É fundamental para o SNC em vários aspectos, sem ele a vida não é compatível. É o repouso que o cérebro precisa. Vários outros processos acontecem quase que exclusivamente em algumas fases do sono, como a liberação do hormônio do crescimento nas crianças e a consolidação da memória, que pode ficar permanentemente prejudicada se a privação de sono perdura. Cada um tem um ritmo, mas a medida ideal varia entre seis e dez horas de sono por dia, em média oito. E isso vai mudando ao longo da vida.

Fale um pouco sobre o Cinapce.

É um programa de colaboração, um esforço em conjunto, em várias linhas de investigação: sobre mecanismos cerebrais, principalmente epilepsia, mas também memória, envelhecimento. Um dos resultados de nossos encontros foi um livro sobre epilepsia, que relata dados preliminares de vários trabalhos relacionados.