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Brasil Econômico

Implantes facilitados com prótese nacional

Publicado em 07 maio 2010

Por João Paulo Freitas

A estenose aórtica, um estreitamento da válvula aórtica, é uma doença cardíaca que afeta cerca de 3% a população mundial com mais de 75 anos, indicam diversos estudos acadêmicos.

A idade avançada é um dos fatores de risco quando o paciente precisa ser submetido a um implante para substituir a válvula doente. Isso porque o procedimento convencional, bastante invasivo, registra taxa de óbito superior a 20%. A boa notícia é que pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) acabaram de desenvolver uma prótese aórtica que torna possível a intervenção cirúrgica em casos delicados.

O diferencial do produto é que ele pode ser compactado e, assim, implantado no paciente por um corte de cerca de cinco centímetros, com o auxílio de um cateter (espécie de tubo). Uma vez no local adequado, a prótese é armada, fixando-se na parede cardíaca e substituindo a válvula doente. O prazo de recuperação é de 15 dias. Na técnica convencional, a abertura cirúrgica pode atingir 30 centímetros e o paciente retorna à sua rotina normal somente após dois ou três meses.

Opção Segundo o Dr. Enio Buffolo, professor titular de cirurgia cardiovascular da Unifesp e coordenador da equipe que desenvolveu o produto, como a expectativa de vida do brasileiro vem aumentando, cresce também o número de pessoas com chances de desenvolverem uma estenose aórtica.

Aproximadamente 30% do idosos com esse problema não podem ser operados. Ou por causa da idade, ou por problemas de saúde. A prótese atingirá esse grupo, que não pode ser submetido ao procedimento cirúrgico clássico por ele ser de alto risco, diz.

De acordo com Buffolo, existem no mundo apenas duas próteses desse tipo, ambas fabricadas nos Estado Unidos. Apenas uma possui a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para comercialização no Brasil.

O cirurgião cardiovascular Diego Gaia, autor da tese de doutorado que resultou no produto, diz que a versão nacional, desenvolvida em parceria com a Braile Biomédica, empresa de São José do Rio Preto que desenvolve produtos médico-hospitalares, chegará ao mercado pela metade do preço da importada, de cerca de R$ 100 mil.

Resultados Na semana passada, Gaia e seu orientador no doutorado, o Dr. José Honório de Almeida Palma, chefe da disciplina de cirurgia cardiovascular da Unifesp, estiveram na Índia para participar de um congresso médico, onde implantaram mais uma dessas próteses.

Foi a 32ª aplicação do produto. Segundo Gaia, os primeiros implantes ocorreram há cerca de um ano.

Com a cirurgia convencional é preciso abrir o peito do doente e parar seu coração. O risco é muito elevado e pode chegar a 30% ou 40%. Com essa prótese, essa taxa caiu para menos de 10%, afirma.

Tentaremos mostrar ao SUS [Sistema Único de Saúde] que o uso dessa prótese também pode ter um custo final melhor do que o procedimento convencional, diz Gaia.

É preciso levar em conta os dias de UTI e o período de internação, que consomem muito dinheiro do sistema de saúde, afirma.

Participaram do desenvolvimento do produto cerca de 50 profissionais. A Braile Biomédica prefere não se pronunciar sobre a prótese enquanto ela não for aprovada pela Anvisa.

Diz, apenas, que o produto foi protocolado na agência há cerca de um mês. A pesquisa teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que destinou R$ 100 mil a uma das fases de testes.