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Unesp Ciência

Impacto profundo

Publicado em 01 fevereiro 2014

Por Fábio de Castro

O tungstato de prata – material composto de óxido de prata e tungstênio – tem comprovadas  propriedades bactericidas, fotoluminescentes e fotodegradantes, cujas origens, no  entanto, ainda não estão totalmente claras.  Um grupo de pesquisadores do Centro Multidisciplinar para o Desenvolvimento de Materiais Cerâmicos (CMDMC), sediado na Unesp em Araraquara, dedicou dois anos para tentar descobrir a origem delas e fez uma observação inusitada. Os microscópios de varredura e de transmissão usados para estudar o material terminavam por afetá-lo, pois os elétrons irradiados pelos aparelhos induziam uma reação química nas amostras, ocasionando o crescimento dos filamentos de prata metálica.

A descoberta do grupo do CMDMC, coordenado por Elson Longo, abriu uma nova rota para a síntese do material: a eletrossíntese. O ineditismo da pesquisa valeu a publicação dos seus resultados na revista Scientific Reports, do grupo Nature, em abril passado.

Mas a nova descoberta tem tudo para ir além do mundo das publicações científicas. Ela tem potencial para melhorar os métodos que dão propriedades bactericidas a materiais como polímeros, a partir da deposição de prata sobre eles.  As possíveis utilizações são várias, desde a produção de materiais bactericidas para uso em embalagens de alimentos, até aplicações para fotodegradação de compostos orgânicos, além das áreas de cerâmica, microeletrônica e química.

À primeira vista, pode parecer que os pesquisadores do CMDMC tiveram uma boa dose de sorte ao partirem de uma pesquisa básica e se depararem com uma descoberta com potencial para gerar inovação tecnológica. Mas, na verdade, este trajeto nada teve de casual. O CMDMC estava ligado ao projeto dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids), criado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e que está em andamento desde 2000.

Esse modelo de financiamento à ciência trouxe uma possibilidade que até então era incomum no Brasil: sustentar por longo prazo – no caso, mais de uma década – centros de pesquisa que se dedicassem ao mesmo tempo à ciência de ponta, à transferência de tecnologia e à difusão do conhecimento, por meio de atividades de extensão. Os primeiros Cepids, em número de 11, funcionaram por 11 anos e, graças aos bons resultados, a Fapesp resolveu lançar um novo edital. Em maio de 2012, 17 novos Cepids foram selecionados e entraram em atividade. Alguns deles já estavam entre os iniciais, mas foram remodelados. Foi o caso do CMDMC, que deu lugar ao Centro de Desenvolvimento de Materiais Funcionais (CDMF). O centro continua sediado na Unesp, sob direção de Elson Longo.

Atualmente existem 17 Cepids com áreas de atuação variadas. Ao lado de alguns temas de ciências exatas já consolidados, como “óptica e fotônica”, “engenharia computacional” e “materiais funcionais”, existem espaços bem pouco explorados, como “materiais vidrocerâmicos”, “neuromatemática” e “matemática aplicada à indústria”.

Mas o projeto não se limita às exatas.  Dois Cepids de humanidades abordam as áreas “estudos da metrópole” e “estudos da violência”. E muitos têm foco em temas de medicina e biologia: “biodiversidade e descoberta de novas drogas”, “toxinas, resposta imune e sinalização celular”, “terapia celular”, “genoma humano e células-tronco”, “neurociência e neurotecnologia”, “obesidade”, “doenças inflamatórias”, “processos redox em biomedicina” e “pesquisa em alimentos”.

Os centros viabilizaram estudos que seriam inconcebíveis sem investimento de longo prazo. “Graças ao formato do Cepid, não precisamos nos preocupar apenas com pesquisas de resultados imediatos. O financiamento perene garante que possamos nos aventurar nos desafios científicos mais complexos, explorando a multidisciplinaridade que é própria das fronteiras das ciências”, disse Longo.

Em seus 11 anos de atuação, o CMDMC produziu inovações por duas vertentes.  Uma delas consistiu no desenvolvimento de projetos junto à indústria. “É a transferência de tecnologia propriamente dita.  À medida que nossos estudos sobre um tema se aprofundam, podemos identificar problemas específicos de interesse da indústria e atacá-los”, diz Longo.

Um dos exemplos de sucesso da interação com a indústria foi a parceria estabelecida com as empresas do polo cerâmico de Santa Gertrudes, na região de Rio Claro. As pesquisas sobre as propriedades da argila, feitas no CMDMC, ajudaram a melhorar a qualidade dos produtos, dando vantagens competitivas ao conglomerado de empresas locais. Isso contribuiu diretamente para que o Estado de São Paulo passasse de 40% para 70% da produção nacional de cerâmica em uma década.

A outra vertente da inovação no Cepid, segundo ele, é o estímulo para que os alunos de graduação e pós-graduação montem suas empresas “spin-offs”, a partir de ideias que surgem de seus temas de pesquisa. “A Unesp dá todo apoio a essas firmas até que elas decolem. No CDMF temos quatro exemplos de sucesso com spin-offs”, diz.  Um deles é a Nanox, que produz e vende material formado por nanopartículas de prata – incluindo o tungstato – para dotar de propriedades bactericidas e autoesterilizantes uma série de produtos, como purificadores de água, secadores de cabelo, tintas, embalagens de alimentos, cerâmicas e instrumentos cirúrgicos.

A geração de riqueza proporcionada pela transferência de tecnologia e pelas empresas spin-off, segundo Longo, compensa os investimentos feitos pela Fapesp no centro. “Em uma década, calculamos que conseguimos gerar para as empresas, com as inovações, um valor maior que o investimento que recebemos da fundação”, avalia. Por outro lado, a universidade tem retorno também, com a formação de pessoal capaz de produzir ciência de alto impacto. “Tivemos muitas publicações e nos tornamos um dos grupos mais produtivos da nossa área.”

Esforço fenomenal

Hernan Chaimovich, coordenador dos Cepids na Fapesp, diz que os números sobre o retorno do investimento no programa ainda não foram consolidados, e que o impacto produzido pelos primeiros 11 centros ainda está sendo avaliado. Em 2013, iniciou-se uma segunda fase, que vai contemplar 17 novos centros pelos próximos 11 anos com R$ 1,4 bilhão em recursos públicos.

Segundo Chaimovich, esse esforço se justifica pelo objetivo central do programa: colocar o Brasil no mapa da ciência de alto impacto. “As pesquisas têm impacto quando curam, quando geram riqueza e quando reduzem a desigualdade, por exemplo. Mas também temos o impacto das ideias que geram novas ideias”, diz.

O coordenador destaca o esforço que o Brasil empreendeu nas últimas cinco décadas para aumentar o número de profissionais capazes de produzir ciência. Ele acredita que foram obtidos resultados importantes em alguns setores, como o agrícola, o petrolífero e o aeroespacial, por exemplo, mas o país ainda não alcançou o nível desejado de impacto científico.  “Conseguimos aumentar muito o número de pessoas que dialogam com a ciência internacional, mas os resultados, em termos de ideias que gerem ideias, não acompanharam esse crescimento. Por isso a Fapesp propôs um programa voltado para enfrentar os grandes desafios científicos”, explica Chaimovich.

Além de proporcionar financiamento de longo prazo – o que não é comum no Brasil – e de propor um formato em que pesquisadores de diferentes áreas e instituições se debrucem em conjunto sobre temas científicos complexos, o formato do Cepid tem outra característica importante:  a busca da cooperação. “Tínhamos grande dificuldade para trabalhar em colaboração. Os Cepids estimulam uma mudança cultural, no sentido de buscar uma cooperação e não a competição”.

Chaimovich faz uma ressalva, no entanto, à capacidade dos Cepids para gerar inovação. Apesar do ambiente estimulante para o pensamento inovador, os centros produzem avanços tecnológicos que só se tornam inovação quando são transformados em produtos, o que não acontece dentro do Cepid. “O Cepid é um ponto de partida. A inovação não se faz na universidade, mas no chão de fábrica, seja de uma multinacional, ou de uma spin-off “, diz.

Para Ruy Quadros, do Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os Cepids são fundamentais para desenvolver a ciência de alto impacto no Brasil, mas não podem ser considerados centros de inovação. “O nome do programa não é o mais adequado, porque os Cepids são centros de produção científica, não de inovação.  Eles podem até ter um papel decisivo no processo, mas quem faz inovação são as empresas”, diz Quadros.

Segundo Quadros, no entanto, o formato dos Cepids é adequado para seus objetivos científicos. “É um modelo que leva em conta elementos básicos da economia da ciência, como a necessidade de produzir massa crítica. Projetinhos isolados não levam a muita coisa. E a oportunidade de ter financiamento a longo prazo é muito importante para gerar massa crítica”, diz Ele acredita que os Cepids sigam a receita ideal para estimular a ciência de alto impacto: alocar recursos consideráveis, por longo tempo, para um volume grande de cientistas, que trabalham de forma articulada, multidisciplinar e colaborativa em uma convergência de temas. “Esse é certamente um bom caminho. As empresas podiam adotar um modelo parecido, investindo em centros semelhantes, em vez de pulverizar recursos”, diz.

Um dos novos Cepids é o Centro de Inovação em Biodiversidade e Fármacos (CIBFar), que é dirigido por Glaucius Oliva, presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O CIBFar tem suas pesquisas voltadas para a identificação e seleção de compostos naturais da biodiversidade brasileira com foco na descoberta de novos medicamentos e envolve cientistas da Unesp, Unicamp, USP e UFSCar. “Todos já tinham forte atuação nessa área, e juntamos forças para cooperar”, diz Maysa Furlan, professora da Unesp no Instituto de Química de Araraquara, que é a pesquisadora principal do centro.

O grupo da Unesp no CIBFar é ligado ao Núcleo de Bioensaios, Biossíntese e Eco Fisiologia de Produtos Naturais (Nubbe).  Liderado pela professora Vanderlan Bolzani, o Nubbe atua há 15 anos na química de produtos naturais. “Temos trabalhado na prospecção de moléculas e na elucidação estrutural de compostos naturais.  Identificamos e catalogamos mais de 600 moléculas, e acumulamos experiência em parceria com empresas”, diz Maysa.

Ela acha que o potencial do programa em gerar inovação é imenso, e que passa pela formação de pessoal “Esse novo paradigma de ciência vai estimular nos alunos um pensamento mais voltado à inovação, abordando temas da fronteira da ciência sem perder de vista resultados que levem a avanços tecnológicos”, diz. Dentro de alguns anos, esses jovens pesquisadores, acostumados a inovar e a trabalhar em cooperação, assumirão postos de docência e cargos de gestão científica, replicando, assim, o paradigma. “Essa mudança cultural será a principal contribuição dos Cepids”, aposta Maysa.