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Correio Popular (Campinas, SP) online

Impacto no cinturão verde de SP

Publicado em 08 novembro 2020

Por Agência FAPESP

Pesquisadores do Instituto de Botânica vão estudar os efeitos das mudanças climáticas, da poluição e do uso do solo na vegetação nativa ainda existente na cidade de São Paulo e em mais de 70 municípios vizinhos. A ideia é desenvolver modelos capazes de prever cenários para os próximos 30 anos, a partir de dados históricos, estudos de campo e simulações em laboratório.

O estudo multidisciplinar tem por objetivo avaliar o nível de conservação da biodiversidade na Reserva da Biosfera do Cinturão Verde de São Paulo e também de seus serviços ecossistêmicos como controle da qualidade e do fluxo da água, regulação climática e estocagem de carbono. A ideia é que, com base nos resultados das pesquisas, a Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de São Paulo possa desenvolver políticas públicas e regulamentações para a área.

Reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como patrimônio da humanidade em 1993, a Reserva da Biosfera do Cinturão Verde da Cidade de São Paulo inclui remanescentes da Mata Atlântica e de Cerrado, parques naturais urbanos, reservas estaduais, estações ecológicas, áreas de proteção de água doce e da vida silvestre e também áreas urbanas. A área é considerada um hotspot para a conservação da biodiversidade e abrange 73 municípios em torno da capital paulista.

“O principal foco do projeto, estruturado em nove módulos, é a integração das áreas de pesquisa em botânica. Afinal, a reserva é um ecossistema que funciona como uma grande rede interconectada. E notamos que também estamos trabalhando mais interligados agora com a nova infraestrutura e a central de equipamentos multiusuários”, diz Luiz Mauro Barbosa , diretor do Instituto de Botânica.

Modernização

O projeto começou a ser concebido em abril de 2018, quando o Instituto, vinculado à Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de São Paulo, foi aprovado no edital do Programa de Modernização de Institutos Estaduais de Pesquisa da Fapesp. No âmbito dessa iniciativa, a Fundação destinou um total de R$ 120 milhões para a modernização da infraestrutura de pesquisa e a capacitação de pessoal para 12 instituições paulistas.

A região estudada é muito populosa, com inúmeros fragmentos de vegetação nativa. “A população que vive nos municípios do entorno já sofre com aumento de temperatura [mudanças climáticas], altos índices de poluição atmosférica e urbanização desordenada. É também uma área que se beneficia com os serviços ecossistêmicos da reserva. Vamos mensurar como será dada essa relação nos próximos anos e qual o papel da conservação da biodiversidade nos ecossistemas terrestres e aquáticos para melhoria da qualidade de vida da população”, afirma Marisa Domingos , pesquisadora do Instituto de Botânica.

O apoio da Fapesp envolve, além do financiamento de bolsas de pesquisa e do fortalecimento de parcerias internacionais, o melhoramento de laboratórios e informatização e manutenção de coleções científicas, como as do herbário do Instituto de Botânica, com mais de 500 mil exsicatas (amostra de planta prensada e seca em estufa) da flora brasileira.

O Museu Botânico Dr. João Barbosa Rodrigues – interface do Instituto com a comunidade – também está sendo modernizado e receberá uma exposição voltada às atividades de educação ambiental e comunicação da ciência. Integra o projeto ainda o desenvolvimento de sistema digital para integração de dados dos diversos setores da pesquisa científica. O Museu está instalado dentro da área do Jardim Botânico.

Os recursos para a melhoria física das instalações são provenientes da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de São Paulo. Já a compra de equipamentos para estruturação da central multiusuária e o custeio das atividades de pesquisa, como a digitalização e modelagem, são apoiados pela Fapesp.

“É um projeto amplo que passa na escala macro pelo diagnóstico da biodiversidade, análise estrutural e funcional de comunidades e restauração ecológica. Já na escala micro, buscamos identificar biomarcadores químicos, fisiológicos e biomoleculares. Tudo isso associado ao contexto da educação ambiental”, relata Emerson Alves da Silva , presidente do Núcleo de Inovação Tecnológica do Instituto de Botânica.

Três tipos de estudo orientam construção de cenários

A construção de cenários sobre o que poderá ocorrer nos próximos anos sob os impactos climáticos, de poluição e de perda de hábitat parte de três tipos de estudo. O primeiro deles são os diagnósticos observacionais realizados por pesquisa de campo. Um grupo multidisciplinar está analisando diferentes grupos taxonômicos, como algas, bromélias, epífitas, árvores pioneiras e não pioneiras que habitam a vegetação nativa remanescente na região da reserva.

“Pretendemos identificar quais espécies são mais ou menos adaptáveis a esses impactos e que efeitos a variação de suas populações podem acarretar no ecossistema e nas cidades. É uma região que sofre forte pressão antrópica e queremos descobrir, entre os diversos estressores ambientais, climáticos e poluentes, quais proporcionam mais mudanças na biodiversidade. Queremos entender também se haverá efeitos aditivos, sinérgicos ou antagônicos, pois a ideia é pensar numa perspectiva futura da conservação da biodiversidade”, diz Domingos.

O segundo tipo de estudo parte do uso de dados e de séries temporais preexistentes. “São dados históricos de temperatura e poluição obtidos em bancos de dados ou por testemunhos de sedimentos, que recontam a história da urbanização nessa região. Temos também dados, por exemplo, das condições químicas e de biodiversidade de algas. Por mais de 20 anos, os pesquisadores acompanharam as comunidades de algas de um lago e fazem associações com as condições químicas de eutrofização [crescimento excessivo de plantas aquáticas, que reduz o nível de oxigênio da água e causa a morte de espécies]”, explica Domingos.

O estudo do lago eutrofizado, que recebe cargas de esgoto, e as mudanças nas condições químicas da água e da comunidade de algas também dão pistas importantes sobre o que aconteceu nas cidades ao longo dos anos e como essas mudanças impactaram a comunidade de algas.

Por fim, a partir dos dados históricos e observacionais, os pesquisadores vão fazer simulações em laboratório e então criar os modelos preditivos. “Dentre tantos fatores, é difícil imaginar qual estaria afetando mais uma determinada população. Então no laboratório conseguimos simular as condições, por exemplo, da temperatura atual em um ambiente e comparar com o que vai acontecer daqui a 20 ou 30 anos”, diz.

O objetivo é compreender não só os efeitos da urbanização nos fragmentos de floresta, mas como a perda do Cinturão Verde pode impactar a vida nas cidades.

Silva compara a modelagem de conservação da biodiversidade a uma equação. “Essa equação tem várias incógnitas que precisam ser respondidas. No entanto, para que se consiga prever o que vai acontecer nos próximos anos, só trazendo para essa equação elementos de diversos níveis – como informações sobre plantas, algas e fungos do ecossistema aquático e terrestre, além de dados climáticos e de poluição. É o que estamos fazendo e esperamos que o volume de dados que temos e estamos produzindo torne essas predições as mais confiáveis possíveis”.