Notícia

UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas

Imagens refletem cotidiano de zona de prostituição

Publicado em 05 outubro 2009

Por Raquel do Carmo Santos

De máquina fotográfica em punho, nove pessoas, entre travestis e mulheres profissionais do sexo, saíram às ruas do Jardim Itatinga, maior zona de prostituição de Campinas, para capturar imagens do bairro e de elementos próximos à sua realidade. Depois, por seis meses, participaram de oficinas de fotografias e, novamente, foram em busca de imagens. "Houve diferença no olhar fotográfico, e pude observar uma transformação na forma de fazer fotografias. É como se elas começassem a refletir sobre o cotidiano a partir da prática", destaca o fotógrafo Luiz Carlos Sollberger Jeolás, autor da dissertação de mestrado "Vendo o corpo, vendo a imagem: a auto-representação fotográfica de travestis e mulheres profissionais do sexo do Jardim Itatinga/Campinas", apresentada no Instituto de Artes (IA) e orientada pelo professor Fernando De Tacca.

O objetivo do trabalho foi responder basicamente a duas questões iniciais. Primeiramente, se a prática fotográfica das colaboradoras apresentaria marcas de gênero. Ademais, Jeolás também queria saber se a utilização da técnica fotográfica poderia realocar as percepções do público estudado. Neste sentido, a proposta do fotógrafo foi realizar uma produção endógena, ou seja, capturar imagens a partir do olhar de pessoas pertencentes ao ambiente. "Acredito que alcançaria resultados extremamente diferentes se eu chegasse ao local para fotografar, ao invés de deixá-las livres para fazer as imagens", explica.

Foram produzidas mais de seis mil fotos, que constituem um dos maiores acervos de imagens do Jardim Itatinga, visto pelo ângulo de quem pertence ao lugar. Em pesquisa sobre as fotos produzidas no Jardim Itatinga, Jeolás esteve diante de um volume grande de imagens depreciativas do bairro.

Outro resultado importante foi a premiação máxima e menção honrosa recebidas no 8º Seminário Internacional Fazendo Gênero, organizado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em agosto de 2008. Onze fotos foram enviadas para o concurso, em uma seleção feita por Jeolás. Para apresentação do trabalho, ele pretende montar uma exposição no bairro com fotos selecionadas pelas próprias colaboradoras, assim como as imagens que compõem a dissertação também escolhidas por elas.

Durante as oficinas, eram passadas orientações sobre técnica e foram estudadas imagens de fotógrafos famosos nacionais e internacionais que já abordaram a questão do gênero e da prostituição. Os autores das imagens tiveram acesso a vídeos e debatiam, em seguida, as produções. Desta forma, Jeolás constatou uma mudança na percepção das colaboradoras. "Perceberam a foto como veículo de interrogação. Não fotografavam mais só as "coisas" bonitas, mas captavam terrenos baldios, lixos e muitos outros elementos que caracterizavam o bairro. Mais do que capturar imagens, elas passaram a refletir sobre o local em que vivem", esclarece o pesquisador, que contou com o apoio financeiro da Fapesp.

Segundo o fotógrafo, em nenhum momento o trabalho teve como finalidade estimular a mudança de vida dos travestis e profissionais do sexo. A ideia foi, segundo ele, justamente partir para a auto-representação. Além do bairro, os travestis e as mulheres profissionais do sexo puderam ainda fazer fotos no Museu da Língua Portuguesa e na Rua São Caetano - conhecida como a "rua das noivas" - ambos localizados em São Paulo. Também percorreram algumas ruas do centro de Campinas. No entanto, diz Jeolás, a noção de realizar uma memória do bairro foi bastante evidente.