Notícia

Jornal da USP online

Imagens de uma cidade de qualidade

Publicado em 23 fevereiro 2015

Por Paulo Hebmüller

Theatro Municipal, Palácio das Indústrias, Mercado Municipal, Estádio do Pacaembu, prédio dos Correios, Pinacoteca do Estado, Palácio da Justiça: todas essas obras que marcaram a história de São Paulo – e muitas outras – estão associadas ao nome de Francisco de Paula Ramos de Azevedo (1851-1928) e aos continuadores de seu escritório. Engenheiro, arquiteto, educador, empresário, dono de grande capacidade de trabalho e também da habilidade de identificar, arregimentar e congregar talentos ao seu redor, Ramos de Azevedo foi fundamental na gestação de uma cidade que se transformava radicalmente na virada do século 19 para o 20 (leia texto abaixo).

Essa nova cidade, entretanto, não foi e nem poderia ter sido concretizada por um só indivíduo. Chamar a atenção para a dimensão coletiva desse trabalho é um dos objetivos da exposição “Escritório Ramos de Azevedo: a Arquitetura e a Cidade”, que permanece até 17 de março no Centro Cultural Correios – prédio projetado pelo escritório e inaugurado para integrar as comemorações do centenário da Independência do Brasil, em 1922. “Queremos mostrar que o grosso dessa produção gigantesca não é obra de um autor. A historiografia eternizou o nome do Ramos, mas esse trabalho é de uma equipe”, aponta a professora Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno, docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP e curadora da mostra, que tem consultoria de Nestor Goulart Reis, também professor da FAU.

Em seus 80 painéis, a exposição reúne cerca de 100 desenhos reproduzidos em suas dimensões reais, o que permite observar a qualidade e a riqueza dos detalhes dos projetos. O material selecionado tem duas fontes: as coleções públicas do Arquivo Municipal e da FAU. A ideia original era que a mostra coroasse um trabalho feito entre 2006 e 2010 com recursos de Pesquisa em Políticas Públicas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), mas a ideia só se viabilizou agora, a partir de novos recursos obtidos via Lei Rouanet e por um edital dos Correios. Durante a pesquisa, foram digitalizados 1.600 desenhos do escritório sob a guarda do Arquivo Municipal.

A professora Beatriz alerta para a necessidade de preservar melhor esse material de grande importância para a história da cidade. “Na FAU, os desenhos estão muito bem conservados, mas no Arquivo Municipal não. Alguns não puderam ser informatizados porque não aguentavam ser esticados”, revela.

A caderneta de Manoel – Duas linhas curatoriais foram concebidas pela professora Beatriz Bueno: de um lado, mostrar a equipe e os procedimentos modernos que organizavam o escritório; de outro, retratar as duas cidades produzidas em diferentes momentos históricos por meio dessa arquitetura. Na primeira vertente, o foco é começar a jogar luz sobre os nomes da grande equipe que trabalhava com Ramos, formando uma verdadeira cadeia produtiva – quase fordista, como ressalta a docente. O arquiteto criou seu escritório em 1886 e apenas quatro anos depois já contava com cerca de 500 colaboradores, que se ocupavam de todas as etapas do processo: da concepção, projeto e desenhos até a execução. “Durante a construção do Theatro Municipal, que durou quase dez anos, Ramos montou um escritório no canteiro para acompanhar as obras”, conta Beatriz.

Na exposição, o visitante pode comprovar que os projetos trazem o carimbo do escritório e apenas as iniciais dos profissionais que os assinavam. Alguns desses nomes já foram identificados na pesquisa, mas muitos ainda permanecem anônimos perante a historiografia. Foram parceiros do fundador profissionais como Ricardo Severo, Arnaldo Villares (que se casaria com uma das filhas de Ramos), Max Hehl, Flávio de Carvalho, Victor Dubugras, Alexandre Albuquerque, George Krug, Domiziano Rossi e Felisberto Ranzini. Não por acaso, vários deles oriundos da Europa, na conjuntura da chegada de grandes contingentes de imigrantes a São Paulo.

Profissionais de outras áreas também vêm sendo identificados. São nomes como os desenhistas Domingos Pellicciotta, Paulo Gianini, Américo Giglio e Romeo Scartezinni, o construtor Benedito Bettoi, os empreiteiros Germano e Aristides Mariutti e Fernando Simões e o português Manuel Gomes da Silva, cujo ofício de estucador era passado de pai para filho em seu vilarejo no norte de Portugal.

Além dos desenhos das coleções públicas, a mostra apresenta itens de coleções particulares, cedidos pelos herdeiros dos sócios que ajudaram a fazer com que o escritório, na definição da professora Beatriz, fosse “o mais moderno de sua época” e alcançasse oito décadas de atuação. Várias fotos mostram essas diferentes equipes – desde os profissionais mais qualificados até os que estão no trabalho mais pesado – reunidas em comemorações nos próprios canteiros ou nos eventos que celebravam datas festivas.

Entre esses itens particulares está a caderneta de anotações de Manoel Gomes da Silva, que testemunha detalhes sobre sua participação em diversas obras desde a chegada ao Brasil até a saída do escritório, em 1934, quando monta um bar. Mais tarde, o imigrante se transforma num pequeno capitalista que constrói casas para alugar e vive dessa renda. Há também fotos de seus passeios de final de semana, em trajes elegantes, posando em frente aos prédios em que trabalhou. “A caderneta do Manoel é talvez a coisa mais bonita na exposição no sentido de contar a história da cidade que ele ajudou a construir. Ele tem muito orgulho quando aparece diante dessas obras e se sente parte do processo”, reflete a professora. Uma ponta dessa história está viva no próprio espaço da mostra: Luna López Brandão, bisneta de Manuel e aluna da FAU, é uma das monitoras que recebe e orienta os visitantes, especialmente grupos de estudantes (leia texto abaixo).

Ícones – A segunda vertente conta a história das duas cidades produzidas ao longo da atuação do escritório. A primeira fase, da criação até 1928, quando Ramos de Azevedo morre, coincide com a explosão populacional e a renovação arquitetônica e urbanística de São Paulo, entre o final do século 19 e as primeiras décadas do 20. “Por volta de 1888 e 1889, havia em São Paulo um conjunto de situações favoráveis à mudança. Com a abolição, promovia-se a vinda de imigrantes europeus, com formação técnica adequada. Com a República, liberavam-se iniciativas empresariais e oficiais até então bloqueadas. Com o café, chegaram recursos financeiros e aspirações de modernização. Era um período de realizações urbanísticas e arquitetônicas”, aponta o professor Nestor Goulart Reis. “O escritório Ramos de Azevedo, com sua equipe de alto nível, soube se posicionar nesse processo, do ponto de vista político e profissional. Esteve ligado a todas as etapas e áreas em que ocorreram mudanças.”

“De fato, é o momento em que a cidade se reescreve e o escritório assina todas as obras públicas de envergadura, aquelas que a cidade se empenhou em patrocinar”, confirma a professora Beatriz. Essa renovação começa com o conjunto do entorno do Pátio do Colégio e se espraia em todas as direções nas quais a cidade está crescendo: na direção da Luz, no crescimento induzido na nova várzea do Anhangabaú, na várzea do Tamanduateí e assim por diante. A exposição apresenta também projetos destinados a particulares, como edifícios mistos (com lojas no térreo e escritórios e moradias nos andares superiores, novidade para a época na cidade) e os chamados palacetes, vários deles ainda existentes. Um roteiro sugerido pela mostra indica 32 obras institucionais e particulares de responsabilidade do escritório que podem ser visitados numa caminhada pelo centro histórico.

Com a morte do fundador, a razão social do escritório foi alterada para F. P. Ramos de Azevedo, Severo & Villares e mais tarde para Severo Villares & Cia. Capitaneada por Ricardo Severo e Arnaldo Villares, a segunda etapa, especialmente a partir da década de 1940 e até o final das atividades, em 1965, se caracteriza pela atuação numa São Paulo já metrópole e em verticalização crescente. “São outros desafios construtivos impostos pelo concreto armado e associados à estética art décô, aos arranha-céus à maneira nova-iorquina, típicos do filme Metrópolis”, considera Beatriz Bueno.

Esses “ícones da modernidade”, na definição da professora, incluíram processos como o congelamento do solo do edifício Liberty Paulista para a construção do edifício Britânia, na rua Líbero Badaró. “O escritório respondeu a esses desafios porque tinha capacidade e qualidade, senão não teria se perpetuado por tanto tempo no mercado”, continua. Um exemplo dessa qualidade: o monumental prédio dos Correios, que abriga a mostra, foi concluído em apenas dois anos. A restauração em andamento no momento deve levar mais tempo do que isso.

Ponta do iceberg – Entre os objetivos da exposição, de acordo com a docente da FAU, está suscitar uma série de novas pesquisas revendo a arquitetura do século 19 – questionando, por exemplo, sua dimensão autoral. O que a mostra reúne, diz, “é a ponta de um iceberg” em termos da riqueza das vertentes para possíveis pesquisas.

O projeto financiado pela Fapesp e concluído em 2010 possibilitou a digitalização de 1.600 desenhos do Arquivo Municipal e ensejou a assinatura de um convênio entre a Secretaria Municipal da Cultura e a USP para digitalizar uma coleção de 70 mil permissões de construção de obras particulares que entre 1906 e 1921 solicitaram aprovação na Prefeitura. “É um mundo”, revela Beatriz Bueno.

Desse total, 30 mil foram digitalizados, e uma cópia está na FAU para permitir consultas rapidamente, sem a necessidade de ir aos originais. O convênio tem validade até 2017, e a intenção é de que seja renovado. “Essas coleções existem mundo afora, mas não estão informatizadas. Talvez nossa iniciativa tenha sido pioneira, mas precisamos dar sequência aos seus desdobramentos”, defende a professora.

A exposição “Escritório Ramos de Azevedo: a Arquitetura e a Cidade” está em cartaz até 17 de março, de terça-feira a domingo, das 11h às 17h, no Centro Cultural Correios (avenida São João, s/nº, Vale do Anhangabaú). Entrada grátis. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 3227-9461 e na página eletrônica www.correios.com.br/cultura

"Deveríamos usar o mercado imobiliário a nosso favor"

O grosso do tecido urbano da cidade de São Paulo na virada do século 19 para o 20 não foi obra institucional de governos, mas da iniciativa privada. “Essa cidade que se produziu num curto espaço de 30 anos foi obra do mercado imobiliário, de empresários, de capitalistas de vários níveis sociais. Embora esses indivíduos tenham ganhado muito dinheiro num mercado imobiliário rentista muito aquecido, produziu-se uma cidade e uma arquitetura de qualidade, porque havia por trás disso uma estrutura burocrática de qualidade e um ideal de cidade na cabeça desses empresários e dessa burocracia”, diz a docente, que tem entre suas linhas de pesquisa a cidade como negócio. “Ganhava-se muito dinheiro, mas isso foi capitalizado a favor da cidade.”

Nas várias pontas desses empreendimentos estavam desde o próprio Ramos de Azevedo – envolvido com todas as frentes de investimento que São Paulo propiciava, da importação de materiais a olarias e fazendas para produção de madeira – até o estucador Manuel Gomes da Silva, que construía pequenas casas para aluguel no Pari. “Também essas casas tinham qualidade, porque a Prefeitura as aprovava e havia uma legislação bastante cuidadosa que, pelos pareceres, a gente observa que era cumprida”, continua Beatriz.

Para a professora, a voracidade que apaga as marcas da história sem conhecimento de causa é um dos fatores a fazer com que esses conceitos tenham se perdido ao longo do tempo. Uma das manifestações disso é a opção por simplesmente limar da paisagem obras que poderiam ser modernizadas – como os próprios continuadores do escritório de Ramos fizeram na década de 1950, por exemplo, no Theatro Municipal, adaptando-o às mudanças necessárias para abrigar as novas tecnologias. “Bastaria modernizar em vez de simplesmente pôr abaixo”, lamenta a docente. “Deveríamos fazer hoje o que se fez na virada do século: usar o mercado imobiliário a nosso favor.”

O aprendiz e a bisneta

Estudante do terceiro ano da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, Luna López Brandão envolveu-se com a exposição ao cursar uma disciplina ministrada pela professora Beatriz Bueno e mencionar seu parentesco com o português Manoel Gomes da Silva. “Era pobre a minha infância, foi muito sofrida pois nos dias frios de neve nem um sapatinho, era descalço eu e os meninos pobres como eu”, escreveu o bisavô de Luna na caderneta. A vida começou a melhorar aos 16 anos, continua, quando tornou-se aprendiz de pedreiro especialista em rebocar e caiar paredes, ofício chamado de trolha em Portugal.

Manoel veio para o Brasil em 1924, já casado com Rosa dos Santos Almeida, e aqui nasceu sua filha Esmeralda. Até 1935 a família viveu em dez diferentes residências coletivas. A primeira obra ligada ao escritório Ramos de Azevedo na qual Manoel trabalhou foi no Palácio das Indústrias; depois num prédio de três andares na rua Santa Ifigênia e no Mercado da rua Cantareira.

“Estou muito animada e emocionada por poder reconhecer minha família na história da cidade de São Paulo. A monitoria é uma forma de me aproximar de um público curioso e interessado em saber sobre as obras. Afinal de contas, muito além de uma memória física para ser investigada, temos muitas outras formas de ver a evolução da paisagem e todo o seu processo de transformação”, diz Luna. A estudante deve realizar neste ano uma pesquisa de iniciação científica que vai investigar os profissionais anônimos da arquitetura – como seu bisavô Manoel – que contribuíram para a paisagem paulista entre o final do século 19 e o início do 20.