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Ikixiai meduare

Publicado em 21 setembro 2012

Por Wellington Ramalhoso

Os umutinas estão em guerra. Ou quase. Como muitos dos outros 219 povos indígenas brasileiros, eles lutam pelo resgate de suas tradições e pela reconstrução de sua identidade. Vivendo em uma área demarcada de 24.600 hectares (ou 246 km2, o equivalente a 155 parques Ibirapuera, em São Paulo) no município de Barra do Bugres, no Estado de Mato Grosso, os umutinas levam à frente um processo de fortalecimento cultural, depois de serem quase dizimados no século passado. Na ponta da lança, Luciano Ariabo Quezo, um universitário de 23 anos, nascido e criado em terra umutina. Ele é o primeiro universitário indígena a ser contemplado com uma bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), uma das mais rigorosas agências de fomento à pesquisa do País.

Estudante do curso de Letras (Português e Espanhol) na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Luciano entrou na faculdade por meio do vestibular indígena – que reserva todos os anos uma vaga por curso a indígenas. É lá que ele desenvolve um projeto de iniciação científica, destinado a fortalecer o idioma umutina, dado como extinto por pesquisadores. Essa pesquisa faz de Luciano a o primeiro graduando indígena da FAPESP.

Casado com Alana da Silva Ariabo (pronuncia-se “Ariabô”), não indígena, e pai de um menino de dois anos, ele iniciou os estudos na escola da aldeia, frequentou colégio público em Barra do Bugres para, depois, retornar à escola da aldeia e completar o Ensino Médio. Durante o período escolar, aprendeu a língua portuguesa. O contato com o idioma umutina aconteceu devido ao convívio com seu tio-avô Julá Paré, morto em 2004 e um dos últimos da aldeia a falar a língua local.

O projeto de iniciação científica vai ao encontro do passado de Luciano. Ele acaba de produzir um livro didático bilíngue (português-umutina), que será usado no quarto ano do Ensino Fundamental da Escola Julá Paré, que fica na aldeia. Com ele, Luciano espera fornecer elementos para que as crianças conheçam a cultura e a língua dos umutinas. A seguir, ele conta a história de seu povo e a sua própria, além de explicar em detalhes seu projeto de estudo, o livro e as experiências dentro e fora da aldeia.

Contato com o homem branco
Há indícios de que, em 1789, os brancos perceberam a existência do meu povo. Recebemos até um apelido, barbados, por causa das longas barbas naturais ou postiças, feitas com pelos de animais, que os homens costumavam usar. O nome umutina não é, de fato, legítimo, que é balatiponé. Entre 1910 e 1911, houve contato com Marechal Rondon. Nessa época, nossa região tinha muita poaia (planta rasteira). Ela foi demasiadamente explorada e, por causa disso, começaram conflitos. Também foi em um tempo que surgiu muitas doenças na aldeia, como coqueluche, sarampo, varíola, catapora. O século 20 foi o grande desastre para o nosso povo.

Marechal Rondon
A instituição que Rondon dirigiu  (Serviço de Proteção aos Índios, que foi substituído pela Funai) transferiu outros povos para a reserva umutina, que chegaram com seus idiomas e culturas. Minha avó materna, por exemplo, era do povo pareci e se casou com um umutina. O fato é que a intenção dessa instituição era fazer com que os indígenas se inserissem na sociedade branca. Assim, cresci entre três línguas: português, umutina e pareci. Não sei dizer qual aprendi primeiro, se português ou pareci. O umutina veio depois, aos 6 anos, no contato com Julá Paré, o tio da minha mãe. Na aldeia, só outros três senhores sabiam falar umutina – dois deles ainda vivem. Seja como for, as três línguas são totalmente distintas e a que predominou na minha formação, infelizmente, foi a portuguesa. Meu pai é fluente em pareci e nós falávamos com ele nesse idioma apenas dentro de casa. Com os outros, as conversas são em português, que meu pai também sabe.

A pesquisa e os umutinas
A visão dos pesquisadores é que nosso idioma está em extinção (de acordo com o Atlas de Las Lenguas del Mundo em Peligro, da Unesco, 2010, essa é a realidade). Mas se perguntassem para o povo, saberiam que existem falantes. Esses dois senhores mais velhos, quando se encontram, falam em umutina e estamos buscando, por meio deles, fazer com que outras pessoas consigam dialogar nesse idioma, que, de fato, tem maior risco de extinção porque somos apenas cerca de 600 pessoas. Já os pareci são mais de 4.500 pessoas e praticamente todos falam o idioma.

A observação e o objetivo
Desde novo, me envolvi com a política da nossa aldeia e percebi uma necessidade de ter pessoas profissionalizadas. Para os mais velhos, isso não importava, mas agora importa, pois somos afetados por políticas do governo por não termos esse conhecimento. Por perceber que o idioma umutina era importante, pensei em estudar Direito ou Línguas. Precisava me desenvolver intelectualmente nessa sociedade para poder contribuir com o meu povo. Observava os discursos dos mais velhos, as danças tradicionais e também o que os brancos faziam para poder confrontar. O não indígena valoriza muito o título, o status. Para ser importante, precisa ter o currículo cheio. Eu pensava que, um dia, poderia estar em uma palestra anunciando meus títulos. Esse era o meu sonho e ele me levou à faculdade. Meus irmãos também fizeram curso superior (Biologia e Linguística) e hoje eles são gestores de escolas indígenas, uma delas na nossa reserva.

A infância e a adolescência
Naquela época, não havia muita integração com outros povos porque não tínhamos quase oportunidades para sair da aldeia. Mais tarde, um primo se tornou cacique e quis conhecer outras culturas, participando de eventos indígenas. Houve um em que nosso povo levou artesanato, mostrou pinturas, mas nada muito bom. Na volta, esse primo tomou a decisão de trabalhar a nossa questão cultural. Trouxe essa necessidade para a aldeia e formou um grupo de jovens para trabalhar com as danças e na exploração do conhecimento dos mais velhos, que sabem sobre o nosso passado. Isso aconteceu em 2000. Fui inserido nesse grupo e me aproximei dos umutinas. Com eles, recuperamos a pintura legítima do nosso povo, a dança, as cerimônias, os adornos, as vestimentas e parte da língua também. Julá Paré era meu vizinho, eu praticamente morava com ele. Nossa escola também mobilizou gente da comunidade para ajudar nesse trabalho e um grupo de teatro foi formado com o objetivo de resgatar narrativas, mitos e histórias.

A aprendizagem
Não demorou muito tempo para a gente aprender nossa cultura e fomos repassando o nosso aprendizado aos outros. Também promovíamos festas para integrar os mais jovens ao nosso grupo. Hoje, a gente pratica nossas danças nas cerimônias, que podem acontecer todos os meses. Em julho ou agosto, é realizada uma pesca coletiva e, quando temos sucesso, fazemos uma cerimônia de agradecimento.

A vida na aldeia
Basicamente, vivemos da pesca, agricultura e comercialização do artesanato. As pessoas plantam o básico: arroz, feijão, mandioca, milho. Desde criança, a gente acompanha os pais na lida na roça, por gostar. Isso acontece de forma natural. Vários dos meus familiares saíram da aldeia. Os mais velhos foram trabalhar em fazendas distantes para poder ganhar dinheiro. Saíram em busca de oportunidades, até porque não conseguíamos viver mais só daquilo, precisávamos de dinheiro.

O resgate das tradições
Fazer esse trabalho mudou muita coisa na vida dos umutinas. Os mais velhos podiam até conhecer as tradições, mas não as praticavam. Hoje, os jovens participam e convivem com nossa cultura e sabem a importância dela, que é a questão da identidade. Melhor que isso, as crianças acompanham desde pequenas as tradições.

A UFSCar
O ingresso dos indígenas no programa de ações afirmativas da universidade ocorreu em 2008. Ficamos sabendo e fizemos as inscrições. Escolhi o curso e vim. Consegui ser aprovado na primeira tentativa. Éramos 12 umutinas concorrendo, seis foram aprovados. No início, foi meio complicada a minha adaptação porque sou muito apegado à família. Mas estou bem, só que o cotidiano acadêmico me deixou mais sedentário. A rotina de ficar lendo e sentado na frente do computador é diferente. O jeito que eu acordo aqui também não é o mesmo. Fisicamente, sinto que estou fechado, preso. Tudo aqui é diferente de lá. Mas estou bem. Aqui, tenho, além da minha mulher e do nosso filho, muitos amigos.

O casamento
Eu me casei em 2009 com Alana, não indígena. Gabriel nasceu em 2010, quando eu voltava do vestibular. Estava no ônibus e recebi a notícia do nascimento. Foi no dia 14 de janeiro. Às vezes, falo umutina com meu filho, às vezes, pareci. Mas mais português porque a mãe dele só fala português.

Iniciação científica
O projeto surgiu com o apoio do CNPq no primeiro ano do curso na UFSCar, que tinha como tema o fortalecimento da língua umutina na Escola Indígena Umutina. O objetivo era levar uma proposta e intervir nos métodos de ensino. O trabalho com o idioma já era feito na aldeia, onde conversei com alguns professores. Percebi que os materiais que eles usavam não eram bons, embora os professores fossem interessados. Foi assim que surgiu a ideia de criar um livro didático para contribuir com a revitalização da língua. Elaboramos o projeto, encaminhamos para a FAPESP, mas na primeira tentativa não deu certo. Como a língua não tem escrita oficializada, consideraram que eu ia trabalhar na escrita, montar uma escrita e oficializá-la, mas a intenção não é essa. O livro necessita do professor, do interesse do aluno e da disponibilidade dos mais velhos de passar as informações necessárias, que serão relacionadas ao processo histórico do povo, aos artesanatos, à dança, às pinturas corporais. O livro trata da língua nesse contexto. A publicação é bilíngue, umutina-português, porque a língua portuguesa ainda é predominante na aldeia. Pelo menos, por enquanto.