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Igualdade entre os gêneros ainda está distante

Publicado em 26 agosto 2013

Desde o episódio conhecido como "Bra-Burning" (queima dos sutiãs, em inglês), protesto feito na cidade americana de Atlantic City contra a realização do concurso Miss America em 1968, o movimento pela igualdade de gêneros tem obtido muitas vitórias. Os desafios, porém, ainda são grandes. É o que revelam pesquisas realizadas em diversas áreas no Brasil.

Dados preliminares de tese de doutorado do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Mulher e Gênero/Niem, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, indicam que a maioria das mulheres ainda vive em situação vulnerável e o associativismo tem sido uma alternativa de empoderamento, uma nova concepção de poder construído com mecanismos democráticos e de responsabilidades coletivas.

"Culturalmente existe um sexismo muito grande e a sociedade ainda associa o poder e a produção de riqueza ao homem", afirma a doutoranda Cibele Cheron, responsável pelo estudo. Ela diz que, psicologicamente, o papel da mulher ainda está muito vinculado à reprodução e às tarefas domésticas. "Estamos mais sujeitas a perda de emprego e ao trabalho informal", avalia. "Da população desempregada há mais de um ano, 60% são mulheres". E as estatísticas chocam, segundo a pesquisadora. "A discriminação de gênero da sociedade é visível no dia a dia da mulher, criada para atuar no papel secundário", diz. "Culturalmente existem coisas para meninos e coisas para meninas e essa herança se perpetua na vida adulta".

A professora Regina Madalozzo, especialista em Economia de Gênero do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), alerta que a realidade é distinta para a mulher de baixa renda e a de alta renda, embora reconheça que os salários sejam relativamente inferiores aos dos homens mesmo quando ocupam cargos considerados masculinos. "O problema não é só a discriminação laboral", diz. "Mulheres e crianças já trabalhavam em fábricas no início do século passado".

O que chama a atenção é que o nível de escolaridade das mulheres está cada vez mais avançado que o dos homens, mas isso não se reflete numa equiparação salarial, comenta a pesquisadora.

O estudo do Insper sobre o tema também está em andamento. Regina participa ao lado da colega Merike Blofield, da Universidade de Miami, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). "A mulher dependente, que está suscetível à renda do homem, não tem domínio da própria da vida", diz. "Essa condição pode envolver, inclusive, violência doméstica".

Segundo Regina, a mulher emprega melhor a renda com alimentação, educação dos filhos e saúde. "Se o dinheiro é do homem, dificilmente eles vão decidir juntos como usá-lo". É por essas e outras que 90% dos benefícios do Programa Bolsa Família são entregues nas mãos das mães. A preocupação com a mulher deixou de ter caráter meramente social para pautar investimentos do setor privado. "As empresas comprovaram o ciclo de melhora na sociedade com apoio para as mulheres", diz Regina.

Ao dar condições para que participem ativamente da comunidade, essas empresas estão promovendo o empoderamento feminino, que é também um desafio às relações patriarcais, em relação ao poder dominante do homem e a manutenção dos seus privilégios de gênero.

Valor Econômico - 26/08/2013