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UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas

IEL sedia colóquio que marca um novo patamar nos estudos da violência

Publicado em 21 setembro 2010

Por Luiz Sugimoto

O 4º Colóquio Escritas da Violência, que está sendo realizado na Unicamp nesses dias 21 e 22, serve para um balanço dos quatro anos do projeto temático Fapesp de mesmo título e que termina em novembro. Focado no estudo da relação entre a violência e as produções culturais, o projeto permitiu o desenvolvimento das seguintes linhas de pesquisa: literatura brasileira e violência, literatura dos cárceres, literatura e a lei, literatura e autoritarismo, literatura e exílio, literatura e o mal, literatura e violência, e teoria do testemunho.

"A ideia deste colóquio é reunir os pesquisadores que participaram do projeto ao longo dos quatro anos e alguns convidados do exterior, a fim de fazer um balanço dos trabalhos. Pessoalmente, estou muito satisfeito. Creio que conseguimos estabelecer um novo patamar nos estudos da violência, sobretudo ligados a literatura, mas sempre dialogando com cinema, fotografia e outras artes", disse o professor Márcio Seligmann-Silva, do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), que coordena o projeto e o evento.

De acordo com Seligmann, não é muito frequente na área de estudos literários uma abordagem temática com grupo tão variado e por período relativamente longo de tempo. "O projeto permitiu a abertura e também uma verticalização dos estudos. Há pesquisadores que trabalham com temas como terrorismo, holocausto, violência, literatura brasileira e cinema. Temos, então, uma série de discursos sobre a violência - e é a partir dessas modalidades de representação que se constrói uma memória social".

O coordenador informa que o projeto resultou na publicação de dossiês e em rico diálogo internacional, com ênfase para a América Latina. "Contamos com a colaboração de pesquisadores argentinos e peruanos e de latino-americanistas dos Estados Unidos e da Europa. Promovemos encontros na Unicamp, na USP, no Rio de Janeiro e também no exterior. Temos dois livros no prelo, correspondentes a duas reuniões realizadas, sendo que este quarto colóquio vai resultar em um livro final, servindo como uma documentação do projeto".

Programação densa - A programação é densa. A professora Vera Chalmers, do IEL, estaria na primeira mesa-redonda para discorrer sobre o melhor xilogravurista brasileiro vivo. "Vou tratar da relação entre a imagem e a palavra no jornal Movimento dos anos 1975 a 82 (período da chamada distensão de Geisel), examinando as ilustrações de Rubem Grilo. Muito bom ilustrador, ele tinha duas vertentes em seus trabalhos: uma do expressionismo e outra da gravura latino-americana, principalmente do TGP [Taller Gráfica Popular], grupo de gravadores mexicanos dos anos 30".

Francisco Foot Hardman, outro docente do IEL e um dos pesquisadores principais do projeto temático Escritas da Violência, estará na última mesa do evento com a palestra "Esquartejamento em três modos e em três tempos: uma leitura do "nunca na história deste país"". "Abordo o tema da violência na história brasileira a partir de três momentos muito distintos, tanto no tempo como nas circunstâncias. Inicialmente, o momento da Inconfidência Mineira, a famosa Devassa, fixando na imagem do esquartejamento de Tiradentes".

O segundo momento de violência ocorre na repressão aos grupos de esquerda pelo regime militar, com foco no trágico episódio vitimando David Capistrano, dirigente do Partido Comunista Brasileiro. "Preso ao tentar retornar ao Brasil clandestinamente em 74, ele foi levado para uma casa de horrores em Petrópolis, onde foi torturado, morto e esquartejado. A casa ainda pertence aos proprietários que colaboraram com a ditadura, ao passo que na Argentina, Uruguai e Chile estes locais de tortura se tornaram espaços da memória. O terceiro momento, recente, é do sequestro, tortura, morte e aparente esquartejamento de Eliza Samudio, noiva do goleiro Bruno. Este crime hediondo precisa ser esclarecido, já que a memória brasileira muitas vezes é claudicante".