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IEB guarda manuscrito de ópera de Carlos Gomes

Publicado em 02 junho 1999

O manuscrito da ópera A noite do Castelo, escrita por Carlos Gomes (1836-1896) para libreto de Antônio José Fernandes dos Reis, está agora na Universidade de São Paulo. Escrita em 1861, com três atos e 17 cenas (7, 4 e 6, respectivamente), foi dedicada a Sua Majestade Imperial, Dom Pedro II, que esteve presente na estréia. A aquisição de partitura tão importante foi resultado de uma parceria entre o Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes, o Instituto de Estudos Brasileiros e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Arrematada em leilão, oficialmente, pela Eca, ficará no IEB, responsável por sua guarda e preservação. As duas instituições também serão parceiras no projeto para a edição crítica da obra. Até chegar ao leilão, em março deste ano, o manuscrito percorreu um trajeto curioso. Sabe-se, pela bibliografia disponível, que a 4 de março de 1901 ainda estava em mãos de Sant'Anna Gomes, irmão do compositor, em Campinas. Em 1926, no entanto, já fora presenteado a um vice-cônsul italiano pelo marido de uma sobrinha de Carlos Gomes. Só em 1961 uma família brasileira o adquiriu, na Europa, e trouxe-o para o Brasil e com ele ficou até o leilão. Pelo que se sabe, o manuscrito hoje na USP é a única versão completa da obra e, também, seu único autógrafo. A noite do Castelo teve uma edição, em número limitadíssimo, em 1861, pela casa editora de Rafael Coelho Machado, na redução para canto e piano, revisada pelo autor, e outra, só para piano, pela mesma firma. As duas versões são consideradas raras. No Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas há, ao todo, quatro versões da ópera, parciais ou em arranjos para banda, sem a partitura do maestro, e nenhuma autografa. As montagens da peça foram pouquíssimas, fato que se atribui à inexistência de material para recitas. Após a estréia, a 4 de setembro de 1861, no Teatro Lírico Fluminense, montagens parciais se deram em São Paulo e Campinas, no ano seguinte. Neste século a ópera só foi apresentada em 1978, pelo maestro Benito Juarez, com a Orquestra Sinfônica de Campinas, a partir dos manuscritos individuais do Centro de Ciências, Letras e Artes, hoje o Museu Carlos Gomes daquela cidade. Não houve, portanto, confronto com o documento. Há, dessa apresentação, registro em disco com produção fonográfica da Master Class Comercial e Distribuidora Ltda., lançado em 1997. Cabe aqui salientar uma curiosidade, aspecto mais visível da importância do manuscrito. Contam os biógrafos de Carlos Gomes que, no dia da estréia da ópera, circulou um artigo anônimo publicado pelo Diário do Rio de Janeiro onde se dizia que a protagonista, Luiza Amat, só merecera o papel por ser esposa do fundador da Companhia. No dia seguinte, Carlos Gomes fez saber aos leitores que não fora "de algum modo constrangido a escrever a parte de Leonor" para a referida senhora, contra suas convicções artísticas, e que fora também "completamente livre, na escolha do artista que devia desempenhar essa parte (...)". Mas, de fato, na página 127 do primeiro volume do autógrafo que está no IEB, há a seguinte frase, de punho do compositor: "Esta ária foi escrita expressamente pelo autor, para ser cantada pela Exma. Da. Luiza Amat." D.O. Leitura/Junho 1999