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Identificado mecanismo que reduz imunidade após infecção generalizada (1 notícias)

Publicado em 04 de abril de 2017

Pesquisa desenvolvida pelo Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (Crid), com sede no campus da USP em Ribeirão Preto, ajuda a entender a causa da imunossupressão que se desenvolve em pacientes sobreviventes à sepse, representando uma nova perspectiva para prevenir mortes prematuras.

Conhecida popularmente como infecção generalizada, a sepse atinge cerca de 670 mil pessoas por ano no Brasil e representa um gasto pelo sistema hospitalar de aproximadamente R$ 17 bilhões – R$ 10 bilhões com pacientes que acabam morrendo –, segundo dados do Instituto Latino-Americano de Sepse (Ilas). Ela é causada quando uma infecção por micróbios, como bactérias ou vírus, não é controlada e desencadeia uma resposta inflamatória sistêmica no organismo. Isso leva ao desenvolvimento de lesões nos tecidos do corpo e pode resultar na morte do paciente por falência múltipla dos órgãos, ou seja, o dano é tão grande que eles simplesmente deixam de funcionar.

Segundo o professor José Carlos Farias Alves Filho, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e um dos pesquisadores principais do Crid, existem diferentes graduações de gravidade da sepse. A forma mais grave delas é o choque séptico, que gera um sério comprometimento dos órgãos. Estima-se que cerca de 50% dos pacientes com choque séptico vêm a óbito, sendo ele, portanto, a principal causa de mortes em pacientes de UTI.

No entanto, o problema do paciente séptico não termina com a alta hospitalar. “Vários estudos em pacientes que sobrevivem à sepse demonstram que eles ficam com sequelas que podem durar anos, entre elas neurológica, como redução de memória, cardiovascular e imunológica. A sequela imunológica é caracterizada por uma imunodisfunção que resulta em uma maior suscetibilidade a infecções e também uma maior propensão ao desenvolvimento de tumores, devido à redução da imunovigilância”, explica o pesquisador.

Estudo realizado pela pós-doutoranda Daniele Carvalho Nascimento, orientada por Alves Filho, identificou parte do mecanismo envolvido no desenvolvimento da imunodisfunção pós-sepse. Os pesquisadores demonstraram que, paralelamente à resposta inflamatória sistêmica que ocorre durante a sepse, o corpo produz uma citocina chamada Interleucina 33 (IL-33). Essa substância desencadeia uma resposta de reparo dos tecidos nos pacientes que sobrevivem à fase aguda.

“Observamos que, quando a infecção primária é controlada, o que acontece no caso dos sobreviventes à sepse, o organismo ativa um mecanismo de reparo dos danos que aconteceram nos tecidos. Esses reparos envolvem a geração de um subtipo de macrófagos conhecido como M2, que é induzida pela IL-33. Os macrófagos M2 produzem uma série de fatores que promovem reparo tecidual”, conta Alves Filho.

Porém, paralelamente à produção de fatores de reparo tecidual, os macrófagos M2 liberam mediadores como a Interleucina 10 (IL-10) e a proteína TGFß, que também estão envolvidos na geração de linfócitos T reguladores (Treg), um tipo de célula do sistema imunológico capaz de suprimir a imunidade do indivíduo. “Esses linfócitos geralmente estão presentes em todas as pessoas, mas em número controlado. Entre outras funções, eles são importantes para a manutenção da tolerância imunológica, evitando o desenvolvimento de doenças autoimunes espontâneas”, explica o docente.

No entanto, a elevação no número de linfócitos Treg pode levar a uma imunossupressão, deixando o indivíduo mais suscetível a infecções. No caso de pacientes que sobrevivem à sepse, infecções secundárias que são de simples solução para pessoas sadias podem levar à morte. “Portanto, se conseguirmos evitar o aumento descontrolado das células Treg ou as ações supressoras, poderemos barrar essa imunossupressão e, consequentemente, aumentar a expectativa de vidas desses pacientes”, diz Alves Filho.

Os resultados obtidos no estudo foram publicados na última edição da revista Nature Communication. Atualmente, Daniela está realizando parte do seu pós-doutorado na França, com bolsa financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), em que busca entender mais detalhadamente de que forma os macrófagos M2 promovem o aumento dos linfócitos Treg após a sepse.

O Crid é um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) financiados pela Fapesp.

Mais informações: crid@fmrp.usp.br