Notícia

Gazeta Mercantil

Identificada parte da causa do "amarelinho"

Publicado em 17 agosto 2001

Por Ricardo Kauffman - de São Paulo
O grupo de pesquisadores que compõem o Programa Genoma Funcional, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), conseguiu identificar, na semana passada, genes da bactéria Xylella fastidiosa que estão envolvidos na causa do "amarelinho", praga presente em 36% dos pomares de laranja de São Paulo e sul de Minas Gerais. A identificação foi possível graças ao seqüenciamento genético da bactéria - o primeiro no mundo de uma praga, dos 15 obtidos até hoje -, anunciado em janeiro de 2000 por um consórcio de 35 laboratórios privados e públicos do estado. O bioquímico da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), Jesus Aparecido Ferro, afirma que a identificação desses genes é o primeiro grande passo para que se encontre a cura para o "amarelinho". "Já estamos em fase de patenteamento desta descoberta", disse o cientista. Segundo o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), mantido por produtores de cítricos e pela indústria de suco de laranja, em 2001, o prejuízo causado pelo amarelinho em São Paulo e no sul de Minas - responsáveis por 80% da produção nacional - será de R$ 650 milhões. "Chegamos a essa cifra ao contabilizar o sacrifício de 10 milhões de pés de laranja comprometidos, o abreviamento da produção de árvores parcialmente infectadas e o custo da poda", afirma o gerente do Departamento Científico da Fundecitrus, Antônio Juliano Ayres. No estado de São Paulo existem 175 milhões de laranjeiras. Entre o ano passado e este, a quantidade de árvores que apresentam sintomas do amarelinho não cresceu muito, de 34% para 36% do total. No entanto, a parcela das que têm graves sintomas da doença aumentou de 18% para 24% no período. "Apenas 10% das laranjeiras apresentavam sintomas da doença em 1987. Esse número saltou para 30% em 1997", diz Ayres. "Desde então houve certa estabilidade nessa parcela, mas a quantidade de árvores com sintomas graves vem subindo ano a ano", completa. O sintoma considerado pouco grave caracteriza-se pela redução do tamanho das folhas das árvores. Considera-se grave quando a anomalia atinge os frutos. O aumento dos casos de amarelinho entre 1987 e 1997 foi um dos grandes motivos que fizeram com que a Fapesp escolhesse a bactéria Xylella fastidiosa como objeto do Projeto Genoma. Ayres conta que àquela época a Fapesp havia decidido investir em um projeto científico que introduzisse o Brasil nas pesquisas genômicas. A entidade queria escolher um organismo a ser pesquisado - cujo genoma seria decifrado - que tivesse grande importância para a economia do País. Fator inibidor da produção de suco de laranja, produto responsável por US$ 1,5 bilhão anuais de exportações, a Xylella fastidiosa foi escolhida. Organizou-se então uma rede virtual de 35 laboratórios privados e públicos do País que, depois de pouco mais de dois anos e US$ 15 milhões (aplicados pela Fapesp, com contribuição de US$ 500 mil do Fundecitrus), chegou aos 2,7 milhões de letras que formam os genes da bactéria. Decifrado o genoma era preciso encontrar a aplicação da descoberta. Para isso foi criado o Projeto Genoma Funcional, cujo principal objetivo é eliminar o "amarelinho", por meio do desenvolvimento de uma vacina ou de um produto químico que mate a bactéria. "Com a identificação dos genes que conseguimos na semana passada, acredito que até o final do ano que vem será possível ver nas lavouras os benefícios práticos da conclusão do genoma da doença", diz Ferro.