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Identificada nova área de endemismo na Mata Atlântica

Publicado em 13 janeiro 2010

Por Alex Sander Alcântara

Agência Fapesp

Para alguns grupos, caso da ordem Díptera, "são faunas completamente distintas", diz o coordenador da pesquisa, Dalton de Souza Amorim, professor do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto (SP).

A nova área ocupa a parte Sudoeste da Floresta Atlântica, que vai do Oeste do Estado de São Paulo até o Sul de Goiás, Oeste de Minas Gerais e Leste do Mato Grosso do Sul. Ao traçar o mapa de distribuição das espécies encontradas na Floresta Atlântica do interior, chamadas de florestas estacionais semideciduais, os pesquisadores perceberam que grande parte dos dípteros identificados eram diferentes em relação aos da Serra do Mar.

Sabia-se, até aqui, que a Floresta Atlântica do interior é mais seca que na Serra do Mar, lembra Amorim. "Mas o que estamos descobrindo é mais do que isso. A Mata Atlântica no interior tem uma composição de espécies (pelo menos para dípteros) muito diferente."

Uma provável explicação para as diferenças entre as espécies é que elas teriam sido geradas por barreiras que existiram entre essas áreas ao longo do tempo. Como os insetos não trocaram genes, acabaram se diferenciando em uma escala de alguns milhões de anos.

Os resultados da pesquisa fazem parte do projeto intitulado "Limites geográficos e fatores causais de endemismo na Floresta Atlântica em Diptera (Insecta)".

Outro resultado importante é que, entre os milhares de insetos coletados, há uma estimativa de que cerca de mil são de novas espécies apenas de Diptera. Dessas, cerca de 42 espécies, pertencentes a oito famílias, já foram publicadas.

Entre as que ainda estão por ser, uma delas é de um gênero por ser descrito. A descoberta de um número tão alto de espécies desconhecidas é extremamente relevante para qualquer grupo taxonômico.

Amorim vai mais longe: "Não me surpreenderia se novas coletas intensivas em toda a área de cobertura da Floresta Atlântica quadruplicassem o número de espécies novas nos próximos anos", ressaltou.

Nesta primeira fase (que durou cinco anos), todo o material começou a ser separado e identificado. Os pesquisadores coletaram amostras em áreas que vão do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte.

Uma preocupação, entretanto, ficou explicita: se hoje a proteção da Serra do Mar é relativamente eficaz, nas florestas de interior não se pode dizer o mesmo. "Estão extremamente ameaçadas devido às culturas da cana-de-açúcar, da soja e da laranja. A monocultura praticamente dizimou essas florestas", aponta Amorim.

Para ele, os programas de proteção dos ambientes naturais no interior precisam ser diferentes dos existentes no litoral. Segundo o coordenador da pesquisa, a redução de extensão das poucas manchas de florestas do interior implica em empobrecimento dessas áreas, uma vez que, por motivos ecológicos, em muitas espécies as populações só se mantêm em áreas maiores de floresta.

"Conhecer a distribuição dessas faunas pode ajudar a apontar em que áreas as reservas biológicas devem ser colocadas. É evidente que há enorme urgência na criação de reservas de florestas no interior", destacou.