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IBM, Fapesp e USP buscam colocar Brasil no mapa da inteligência artificial

Publicado em 04 outubro 2019

Por Érico Lotufo

Em evento em São Paulo sobre os rumos da inteligência artificial no Brasil, representantes de IBM, da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e da USP (Universidade de São Paulo) revelaram algumas das metas e possibilidades da parceria entre as três. Esta semana, foi anunciado que a empresa norte-americana irá montar, com apoio da Fapesp, o Centro de Pesquisa em Engenharia em Inteligência Artificial do Brasil na Cidade Universitária da USP.

"Para a IBM, o mais importante é fomentar um ecossistema em que nós tenhamos acesso à melhor qualidade de pesquisa e cérebros do Brasil", disse Ulisses Mello, diretor da IBM Research Brasil. "O Brasil não pode ficar de fora desse mercado que vai ser criado.”

O projeto será multidisciplinar e irá incluir pesquisadores de diversas áreas e instituições de ensino do país.

"A gente procurou explorar algumas áreas em que o Brasil tem real chance de ser líder internacional,” disse Fábio Cozman, professor titular da Escola Politécnica da USP (Poli-USP). Alguns exemplos citados foram a extração de petróleo offshore, a agricultura sustentável e áreas de saúde relacionadas a doenças tropicais.

"Cada país olha para o que pode fazer bem. Talvez possamos, a partir daí, acelerar e criar uma nova geração de serviços do Brasil para o mundo", disse Mello.

No Colloquium 2019, evento da IBM Research Brasil, 12 demonstrações práticas de uso de IA foram feitas para o público presente. Os demos incluíam o uso de IA para análise de camadas geológicas, análise de plantações e conversação entre humanos e IA.

A parceria prevê o investimento de US$ 20 milhões em até 10 anos. Metade da verba seria investida pela USP, enquanto IBM e Fapesp dividirão os US$10 milhões restantes.

"Tem uma base de pesquisa e tem muitas empresas no Brasil que sabem que vão se beneficiar em avanços de pesquisa em inteligência artificial,” disse Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp.

Diversidade de inteligência natural para IA

Na abertura do evento, o professor titular de Sociologia da USP Glauco Arbix discursou a respeito de como o desenvolvimento de inteligência artificial necessita de diversidade de pensamento humano.

Para Cozman, conseguir essa diversidade no corpo de pesquisadores é uma das metas do programa. "Nós vamos começar tendo pesquisadores das mais diferentes áreas trabalhando juntos. Nós vamos começar tendo alunos de todas as unidades da USP interagindo," disse.

A tradução da inteligência natural para artificial é um desafio nesse aspecto. "É uma questão de como você codifica regras sociais. Padrões éticos variam de sociedade para sociedade. Não adianta o Brasil copiar os padrões éticos da China ou dos Estados Unidos," completou Cozman.

O impacto humano do avanço da inteligência artificial é um ponto chave para a multidisciplinaridade do projeto. Um dos eixos de pesquisa será “Inteligência Artificial e a sociedade,” para colocar em discussão o papel da IA no Brasil. Um medo comum da automatização e implementação de IA, por exemplo, é a extinção de empregos e formas de trabalho.

"Não é uma discussão nova. Desde a revolução industrial se fala de automatização,” disse Mello. “Existem empregos que desaparecem e empregos que são criados pelo desenvolvimento da própria tecnologia."

A discussão ganhou novos contornos com o projeto de lei PL5051/19, do senador Styvenson Valentim (Podemos/RN), protocolado no mês passado. O projeto, de três páginas, busca garantir que decisões feitas por IA sejam sempre supervisionadas por um humano.

Fábio Rua, chefe de relações governamentais da IBM Latin America, ironizou o projeto: “Vai criar o primeiro carro autônomo com motorista do mundo,” disse em seu discurso na Colloquium.

Brito Cruz, por sua vez, entende que evitar decisões precipitadas como esse projeto de lei é um dos pilares do projeto. “(A parceria) Vai nos ajudar a contribuir para que, no Brasil, esse debate aconteça de um jeito mais educado e mais organizado, de modo que possamos ter uma legislação adequada sobre o assunto,” disse.