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Jornal da Unesp online

Ibama propõe novo período de defeso para camarões

Publicado em 14 outubro 2008

Pesquisa coordenada pelo biólogo Rogério Caetano da Costa, da Faculdade de Ciências (FC), câmpus de Bauru, propõe a unificação do período de defeso das espécies de camarões-rosa (F. brasiliensis e F. paulensis), camarão-branco (L. schmitti) e do camarão sete-barbas (X. kroyeri) no Litoral Norte paulista. Para o docente, o ideal seria que a proibição da pesca fosse fixada para os meses de março a junho. A justificativa, segundo dados do trabalho, é que os animais têm hábitos de reprodução distintos ao longo da costa marítima. Diante das evidências, Ibama acata pesquisas vai estabelecer nova data.

Durante o estudo Contribuição para o período de defeso do camarão do Estado de São Paulo: distribuição espaço-temporal das pós-larvas e juvenis dos camarões-rosa, os pesquisadores do Laboratório de Biologia de Camarões Marinhos e de Água Doce (Labcam) observaram que a liberação da pesca do sete-barbas nos meses de março a maio, como ocorre atualmente, ameaça os camarões-rosa e branco.

No período em que a pesca do sete-barbas é permitido, de acordo com o docente, a captura é intensa em regiões de baias ou enseadas, justamente onde os camarões-rosa e branco concluem a fase juvenil. “No Litoral Norte paulista, esses animais em fase de desenvolvimento são capturadas e comercializadas junto com os sete-barbas sem que os pescadores possam selecioná-los”, disse o coordenador da pesquisa. “Durante a pesca é difícil a identificação dos animais, pois os juvenis das espécies rosa e branco apresentam os mesmos tamanhos de adultos sete- barbas”, observa.

A pesquisa

O risco que o período do defeso impõe aos camarões-rosa e branco foi observado com a sistematização do ciclo de vida das espécies. Habitualmente os camarões-rosa se reproduzem em alto mar entre 30 e 60 metros de profundidade. Assim que as larvas eclodem, elas migram em direção às regiões costeiras. “Nessa viagem os animais juvenis passam por áreas onde está ocorrendo a pesca, principalmente do camarão sete-barbas”, conta Antonio Castilho, pós-doutorando que integra o grupo de pesquisa. “Ali, enquanto estão se desenvolvendo, são facilmente coletados, sem ainda terem se reproduzido”.

Atualmente, o período de defeso ocorre de outubro a dezembro e foi estabelecido em 2006, pelo Centro de Pesquisa e Gestão de Recursos Pesqueiros do Litoral Sudeste e Sul (Cepsul), ligado ao Ibama. Diante das evidências, no entanto, os pesquisadores alertam que ele deve ocorrer em épocas distintas ao longo da costa marítima.

“Em regiões de baias com grandes extensões, como em Santa Catarina, os animais só migram para o oceano, onde se reproduzem, quando já atingiram a fase adulta”, explica o docente Adilson Fransozo, do Instituto de Biociências, câmpus de Botucatu, também membro da equipe. Significa que na fase juvenil ficam vulneráveis à pesca. Ao contrário, no Litoral Norte paulista, eles terminam o crescimento em profundidades de até 20 metros.

O estudo aponta que em razão do descompasso nos hábitos de reprodução dos animais e da unificação do defeso, nos últimos anos houve redução da pesca do camarão no Litoral paulista. “O camarão-rosa que nos anos 60 era pescado próximo a 20 kg por hora, na década de 90 caiu 3 kg pelo mesmo período de tempo”, afirma Costa.

O pesquisador acredita que a unificação do período de defeso para os meses de março a junho no Litoral Norte paulista não vai impor perdas financeiras aos pescadores. “O camarão graúdo pode ser vendido pelo dobro do preço do juvenil, além disso, a renovação dos estoques garantiria o sustento das futuras gerações de pescadores”.

Com o apoio da Fapesp, as pesquisas geraram dois estudos de mestrados e um de pós-doutorado, além de trabalhos de iniciação científica. O próximo passo é saber se as mesmas informações coletadas valem para o Litoral Sul do Estado. “Dessa forma, verificaremos se em todo o litoral paulista o período de defeso pode ser o mesmo”, salienta Costa.

Ibama diz que defeso será alterado

Com base no estudo da Unesp e em contestações de pescadores e outros pesquisadores, a Superintendência do Ibama em São Paulo divulgou que o período de defeso das quatro espécies de camarão abordadas deverá sofrer modificações. “Há várias contestações em análise por representantes de técnicos, pesquisadores e pescadores”, disse Luiz Frosch, responsável pelo setor de Recursos Pesqueiros do Ibama.

Para Luiz Fernando Rodrigues, chefe do Centro de Pesquisa e Gestão de Recursos Pesqueiros do Litoral Sudeste e Sul em Itajaí (SC), onde as reuniões estão sendo realizadas, após intensos debates ficou decidido que o período de defeso das espécies estudadas vai retornar aos meses de março a maio. “Ainda não sabemos se a alteração acontecerá já 2008 ou a partir do ano que vem”, destacou.