Notícia

Correio Popular (Campinas, SP)

IB atua em sintonia com mundo moderno

Publicado em 14 dezembro 2003

Por Tatiana Fávaro
A missão do Instituto Biológico, desde 1929, é desenvolver e transferir conhecimento científico e tecnológico para o agro negócio, nas áreas de sanidade animal e vegetal, visando melhoria da qualidade de vida da população. Mas de uns anos pra cá, com a globalização acelerada e um novo cenário, marcado pela abertura do mercado internacional e a criação de blocos econômicos, a instituição passou a ter outras preocupações e demandas, antenadas às imposições do livre comércio. De acordo com o diretor do Centro Experimental Central, em Campinas, Antônio Batista Filho, nos laboratórios de ponta que substituíram as áreas experimentais da Fazenda Mato Dentro há técnico trabalhando para melhorar a produção do agricultor brasileiro e deixá-la livre de pragas e doenças. Assim, ele não será banido dos mercados internacionais por não respeitar os limites das barreiras fitos sanitárias, bem mais polêmicos atualmente que aqueles impostos pelas barreiras econômicas. Nessa batalha, o Biológico, uma instituição do Governo do Estado de São Paulo, conta com a ajuda de empresários e agências de fomento, parceiros imprescindíveis para "fazer a máquina rodar", diz Batista. Abaixo, trechos da entrevista com o diretor do braço campineiro da entidade: O Centro Experimental é uma unidade do Instituto Biológico. Como funciona essa estrutura? O IB tem sua sede em São Paulo, onde são desenvolvidas atividades nas áreas de Sanidade Animal, Vegetal e Proteção Ambiental. Ali estão também os centros de Comunicação e Treinamento, e a central administrativa. Fora de São Paulo há um Centro Avançado de Patologia Agrícola, em Descalvado, onde há um trabalho com frangos de corte, e um laboratório ligado a esse centro, em Bastos. Em Campinas, há o Centro Experimental Central, que está aqui há 60 anos. POR QUE CAMPINAS? Por causa da broca do café. Por causa da broca é que o IB surgiu. Houve a necessidade de adquirir uma fazenda para continuar os experimentos, ter áreas experimentais próprias. Quando pensaram em comprar uma fazenda de café, logo pensaram em Campinas. Isso foi ampliado depois, para estudos sobre algodão e na área animal. Nessa instalação estavam os primeiros campos experimentais do instituto. Com o tempo, foram sendo criadas outras unidades e a parte experimental foi diminuindo. Hoje temos oito laboratórios aqui, fora estrutura de transportes, máquinas, alojamento, auditórios. Houve uma inversão e o trabalho em laboratório aqui é atualmente maior que o de campo, feito efetivamente em propriedades privadas ou outras fazendas do Estado. PERDEU-SE MUITO COM ISSO? Encaramos como uma mudança. Se, por um lado, não temos mais áreas experimentais aqui, por outro, temos instalações muito boas, equipadas, com técnicos capacitados - 85% dos pesquisadores têm um título de mestre ou doutor. Então, a parte experimental é feita em outras cidades. Isso, de certa forma, é benéfico, pois trabalhamos com pragas e doenças e nós estamos indos onde o problema realmente está. QUAL O MEIO PARA FAZER A INSTITUIÇÃO ESTAR PRÓXIMA DO PRODUTOR RURAL? Somos próximos, mas já estivemos mais, até por conta da estrutura, cujas relações com os órgãos responsáveis pela sanidade animal e vegetal eram mais estreitas. Estamos, na verdade, retomando isso, pois hoje não há como trabalhar fora da cadeia. É fundamental, em qualquer projeto, haver esse trânsito. Até os financiadores provocam as instituições para realizarem projetos temáticos, envolvendo não só a equipe interna, mas também parceiros de fora. Parceria é palavra de ordem hoje em dia, seja com universidades públicas ou privadas, empresas ou produtores. Um grande exemplo disso é a Rifib. A REUNIÃO ITINERANTE DE FITOSSANIDADE QUE O BIOLÓGICO REALIZA ANUALMENTE, É ISSO? Exato. Essa reunião procura ir até o produtor e discutir os temas levantados por eles ou por meio de suas associações, sindicatos, cooperativas, entidades representativas que apuram os problemas fitossanitários de uma determinada região e também empresas ligadas ao setor. Técnicos do instituto e colegas de outras instituições levam ao produtor o conhecimento sobre uma praga, doença etc. Isso faz com que se crie uma identidade e o produtor saiba a quem recorrer quando precisar. As Rifibs fazem parte de um projeto cujo objetivo é fortalecer essa relação entre o Biológico e seus parceiros e usuários. A última Rifib, realizada em outubro, foi sobre cigarrinha da cana-de-açúcar. E COM O MERCADO, QUAL A RELAÇÃO DO IB? Vamos citar um exemplo: a mosca-das-frutas é uma praga quarentenária, limitante para o mercado, principalmente o externo. Não podemos exportar uma fruta in natura de áreas que possuam essa praga. É uma barreira fitossanitária tremenda. E hoje as barreiras sanitárias são uns entraves maiores até que as barreiras econômicas. Então, nosso papel é estudar alternativas para driblar esse problema. QUAL O PERFIL DOS PESQUISADORES QUE RECEBEM ESSA TAREFA E DE ONDE VEM O DINHEIRO PARA ELES TRABALHAREM? Há concursos públicos para selecionar esse time. Esse mês teve um concurso. E, hoje em dia, a tendência é de esse grupo já vir mais treinado, especializado, com títulos. Os recursos vêm por meio de financiadores privados ou públicos, e principalmente das agências de fomento como a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e Finep (Financiadora de Estudos e Projetos, do Ministério da Ciência e Tecnologia). Em 2001, nosso orçamento foi de R$ 12 milhões, R$ 8 milhões de pessoal. Dos R$ 4 milhões para custeio e investimento disponíveis, R$ 2 milhões vieram do Estado e os outros R$ 2 milhões, de recursos externos. Temos a contrapartida do governo, que banca alguns projetos inteiros, mas sem a captação desses recursos de fora fica difícil fazer a máquina rodar. QUE TIPO DE RELAÇÃO O BIOLÓGICO TEM COM A INICIATIVA PRIVADA? Ela é forte, mas tem muito a percorrer. Na área privada contamos com o apoio de empresas de produtos fitossanitários e de produção animal, que financiam testes e análises. Temos áreas dentro do próprio instituto mais avançadas nesse aspecto, pelo próprio perfil, de serviço. Mas não podemos esquecer que os laboratórios analíticos é que dão suporte a esse serviço. Então, estamos buscando esse equilíbrio, buscando ampliar as parcerias. COMO TEM SIDO ESSA BATALHA? Em alguns casos, propostas da instituição saem como projetos temáticos, caracterizados pela demanda. Procura-se uma demanda, um problema e propomos soluções, num projeto. Uma outra linha é de atuar junto a empresas que vêm buscar os nossos serviços. Para se ter idéia, o Biológico tem 154 projetos registrados na Apta (Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios), em andamento, nas áreas de Sanidade Animal e Vegetal, Proteção Ambiental e Educação Ambiental, que envolve museologia. Esses projetos são desenvolvidos por 138 pesquisadores e contam com o trabalho paralelo de 120 funcionários de apoio e estagiários. COMO SÃO SELECIONADOS OS ESTAGIÁRIOS? Temos, em todo o Biológico, estagiários voluntários, curriculares (de universidades) e bolsistas do CNPq e da Fapesp, para iniciação científica. A Fundag (Fundação de Apoio à Pesquisa Agrícola) também tem bolsista. Há ainda estagiários em um nível maior de aprofundamento e aperfeiçoamento e os bolsistas de pós-graduação. Ao todo, em todas as categorias, há cerca de 300 estagiários. Isso sem contar aqueles da disciplina de Práticas de Ensino, do curso de Biologia da PUC-Campinas.