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Diário do Comércio (SP) online

IAC, mas pode chamá-lo de caixa-forte

Publicado em 27 junho 2005

O paciente trabalho de melhoramento genético das espécies feitas pelo IAC garante o sucesso do agronegócios nas exportações, que traz os dólares
Em 118 anos, comemorados hoje, o Instituto Agronômico de Campinas desenvolveu cerca de 700 novas variedades de 66 espécies, nas mais diversas cadeias produtivas. Um trabalho de ciência, muita paciência e muito dinheiro para o agronegócio.
Para chegar à uma variedade final, o processo de melhoramento demora de 10 a 20 anos, dependendo das espécies cultivadas. Depois vem a etapa da multiplicação dessas espécies e, aí sim, saberemos se será aceita pelo mercado.
Hoje, além de se dedicar ao melhoramento genético de espécies, o IAC tem papel importante na graduação de pesquisadores voltados aos estudos da agricultura tropical e subtropical - a compatível com clima e solo do país - e na administração de uma rede de cerca de 100 estações meteorológicas, que disponibilizam dados para que agricultores tenham melhor desempenho no campo.
Nesta entrevista ao DC , Orlando Melo de Castro, diretor—geral do Instituto, antecipa os próximos passos do IAC, como a pesquisa com transgênicos.

Diário do Comércio - Como a história centenária ajuda o IAC nas novas pesquisas?
Orlando Melo de Castro — O café descafeinado, que estamos desenvolvendo desde meados de 2004 estava em meio as mais de 200 variedades de café de nossas coleções. Essa variedade, com 0,07% de cafeína apenas, estava aqui desde 1964, quando a obtivemos em uma expedição à Etiópia. Esse é um exemplo prático de como é importante ter história.

O que impede o instituto de trabalhar com transgênicos?
Castro - Ainda não houve interesse de empresas privadas - Monsanto, Syngenta - em nos buscar como parceiros, como aconteceu com a Embrapa. Por conta da polêmica em torno da Lei de Biosegurança esse interesse se perdeu, mas agora a lei está regulamentada. Por outro lado, o IAC ainda depende de empresas que dominam a tecnologia dos transgênicos, que é cara e difícil. Caminhamos para isso e temos entre os 75 novos especialistas contratados alguns que já trabalham nessa área.

Como ser competitivo na produção científica do agronegócio sem trabalhar com transgenia?
Castro - Sempre vai ter espaço para o não-transgênico. Essa tecnologia é o destaque do momento, muitos agricultores estão adotando-a e vão utilizá-la cada vez mais. é uma tecnologia que veio para ser incorporada ao nosso sistema de produção, isso é inevitável.

No ano passado o IAC traçou o mapa genético do café e do citros (as variedades de laranja, tangerina e limão). Já estão colhendo os frutos desses mapeamentos?
Castro - Agora estamos trabalhando no passo seguinte ao mapeamento do genoma, que é buscar em cada gene a sua funcionalidade. No café, por exemplo, se buscam genes que conferem qualidade ao sabor e resistência à seca. Determinando o que cada gene faz se ganha tempo nos processos de melhoramento.

O financiamento para pesquisa sempre foi colocado em segundo plano no País. Como o instituto se financia?
Castro - O Instituto tem um orçamento de R$ 22 milhões anuais, contando a folha de pessoal. Temos também captação externa, de agências de fomento como a FAPESP, que financiam alguns projetos. E temos recursos que vêm da iniciativa privada. Em 2004 captamos de empresas e agências cerca de 35% do que vem pelo orçamento do Estado, o que é um índice bastante alto. Em universidade esse índice dificilmente passa de 20%. Mas poderia ser melhor. Hoje, 40% do PIB brasileiro vem do agronegócio. Esse número chegou a esse patamar porque dobramos nossa produção na área agrícola nesse período e tivemos aumento de 12% na área cultivada. Ganhamos em produtividade, ou seja, em rendimento por unidade de área. Só se consegue esse aumento com tecnologia, desenvolvida pelo IAC e demais institutos e universidades.
Nosso trabalho possibilitou que o agronegócio represente 40% do PIB nacional. Nossa pesquisa precisaria ter uma retribuição à altura dessa contribuição. Não temos em São Paulo um fundo setorial de pesquisa para o agronegócio, para que instituição com capacidade de pesquisa não precise disputar recursos com todo o universo de pesquisadores. Essa seria uma maneira de investir em algo que temos tradição, competência e que mostrou nos últimos anos ser uma altamente eficiente.

Quais as pesquisas mais recentes do IAC que o senhor destaca?
Castro - O IAC é o único no Brasil que tem um trabalho bastante forte de melhoramento do café, tanto que 95% do café que se planta no Brasil são variedades nossas. Na Costa Rica a maior parte do café é variedade IAC também, assim como em boa parte da Colômbia. A Cana Forrageira, que é para o consumo do gado, considero destaque porque ela leva a ganhos significativos para a produção de leite. Um aumentou em torno de 18% acima do que se obtinha com o uso de outros materiais forrageiros. Temos ainda o Abacaxi Gomo de Mel, pesquisas com variedades de seringueiras, que conseguimos adaptar a várias regiões do Estado, e o arroz preto, que é o primeiro produzido no País.

Faxina genética
Melhoramento genético é a principal linha de pesquisa do IAC. Até encontrar uma variedade geneticamente resistente de girassol (acima), por exemplo, são testadas no campo outras que não suportam a ação das pragas.
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Frases
* 5% do café que se planta no Brasil são variedades nossas. Na Costa Rica e na Colômbia também.
* Nosso trabalho possibilitou que o agronegócio represente 40% do PIB nacional. Precisamos ter uma retribuição à altura
* Não temos em São Paulo um fundo setorial de pesquisas dirigido para o agronegócio