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Correio Popular

IAC e Unicamp descobrem café naturalmente sem cafeína

Publicado em 24 junho 2004

Por Sammya Araújo
Pesquisadores do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) anunciaram ontem a descoberta de uma variedade nativa de café descafeinado, proveniente da Etiópia. As sementes praticamente livres da substância estimulante (apenas 0,07%, contra 1% do tipo comum) foram encontradas em três plantas analisadas entre três mil exemplares da espécie Coffea arabica que fazem parte do banco de germoplasma (material genético) do IAC. O resultado do trabalho dos pesquisadores brasileiros, iniciado em 1999, foi publicado na edição de hoje da revista científica "Nature", uma das mais conceituadas e respeitadas do mundo. Mas a novidade vai demorar para chegar ao mercado: a expectativa é que a tecnologia esteja disponível para produção comercial em no mínimo seis e no máximo em 15 anos, dependendo da continuidade das pesquisas de produtividade, mapeamento genético e cruzamentos com outras espécies. Homenagem Os pés sem cafeína, pertencentes à mesma família, foram batizados de AC1, AC2 e AC3, em homenagem a Alcides Carvalho, geneticista de café do IAC que criou a maioria das variedades comerciais da espécie arábica cultivadas hoje no Brasil. "É uma descoberta com grande potencial mercadológico, pois agrega valor ao produto café. Cerca de 10% do café consumido no mundo, e 1% no Brasil, é descafeinado", afirma Paulo Mazzafera, do Instituto de Biologia da Unicamp e um dos autores da pesquisa. De acordo com Mazzafera, o maior diferencial das plantas que deve atrair a atenção do mercado produtor e consumidor é o fato de que elas, naturalmente, contenham pouquíssima cafeína. "O apelo natural é muito forte. Há muito tempo que se pesquisa um tipo de café sem cafeína, que dispensasse o processo artificial de descafeinização, que acaba removendo características importantes do produto, como sabor e aroma. Outra vantagem é o fato da planta não ser geneticamente modificada, o que elimina a resistência aos transgênicos do mercado", diz Mazzafera. Como exemplo, ele cita uma espécie transgênica desenvolvida por japoneses, também já noticiada pela Nature, com um terço da cafeína das variedades mais comuns. Segundo o pesquisador, o resultado final foi uma bebida neutra e sem o gosto característico do café. "Por ser de uma espéde alta qualidade, o café das ACs promete abrir um mercado totalmente novo quando as pesquisas forem concluídas", diz.