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Gazeta Mercantil

IAC conclui Ia fase do Genoma do Café

Publicado em 05 dezembro 2002

Por Regina Neves - de Campinas
O IAC (Instituto Agronômico de Campinas), da Secretaria da Agricultura de São Paulo, termina nos próximos dias a primeira fase da pesquisa do Genoma do Café, destinada a formar um banco de 200 mil seqüências genéticas de uma das principais culturas brasileiras. O custo estimado da pesquisa é de R$ 1,9 mil. A metade dos recursos vem do Consórcio de Pesquisa Cafeeira do Brasil e a outra metade da Fapesp e do Cenargen (Centro Nacional de Recursos Genéticos). Quarenta instituições de pesquisa participam desse estudo. Sugerida e coordenada pelo IAC, a pesquisa do genoma do café dá seqüência há 115 anos de estudos do instituto sobre a cultura. Fundado em 1887 pelo Imperador D.Pedro II, com o nome de Imperial Estação Agronômica de Campinas, o IAC foi criado exatamente com a função de pesquisar o café. Para se ter uma idéia da extensão do trabalho desenvolvido pelo IAC ao longo de mais de um século, cerca de 95% dos 5,5 bilhões de cafeeiros cultivados no Brasil foram gerados pelo Programa de Melhoramento do Cafeeiro do instituto. "O IAC praticamente acompanhou todas as fases da cafeicultura brasileira e quer repassar seu conhecimento histórico para a pesquisa", diz o agrônomo Cândido Ricardo Bastos, diretor-geral do instituto. Ele destaca a participação decisiva do IAC na década de 30, quando a cafeicultura entrou em crise e o instituto desenvolveu o cultivo do algodão, que, entre outros benefícios, foi fundamental para manter empregada a mão-de-obra rural. GENOMA O objetivo da pesquisa do Genoma do Café, na primeira fase, é obter 200 mil seqüências de genes do café arábica, que foi melhorado pelo IAC e representa 70% do café cultivado no mundo. Desse total, pretende-se identificar cerca de 30 mil genes. O genoma estudado é do tipo EST - só uma região do DNA que codifica uma informação genética e a intenção é seqüenciar o maior número possível de diferentes órgãos da planta - raiz, caule, flor, fruto -, e também de plantas em diferentes situações de estresse, causado por variações do ambiente, pragas e doenças. A finalidade é saber quais genes a planta usa para se defender. O primeiro passo é conhecer esses genes e depois saber a que aspectos eles estão relacionados, como maturação, florescimento, produção e outros. Este conhecimento se dará na segunda fase da pesquisa, com o estudo do Genoma Funcional. O IAC terá também uma participação muito importante nesta fase pois vai fornecer os tecidos para a obtenção do RNA e o material vegetal é fundamental para o sucesso da seqüência. "Conhecer a carga genética de um produto significa um grande avanço nas pesquisas. Quanto mais se souber mais fácil será definir o que produzir." diz Bastos. Ele lembra que as pragas são organismos vivos em processo de evolução e que nenhuma doença é estática. Segundo ele, conhecendo a genética de uma planta é mais fácil definir e criar variedades mais resistentes, sem perder tempo com o jogo das probabilidades que envolve qualquer pesquisa. "Tendo o café a importância econômica que tem no Brasil, não se pode arriscar nem perder tempo, inclusive porque, não sendo uma planta anual, a possibilidade de intervenção é mais lenta. Por isso, a pesquisa do genoma do café é tão importante", completa. PESQUISAS VARIADAS Ao longo de mais de um século de pesquisas, foram criadas pelo Instituto cerca de 500 novas cultivares nas mais diversas cadeias produtivas do agronegócio paulista e brasileiro. Atualmente há cerca de 150 projetos e 580 subprojetos em andamento desenvolvidos por uma equipe de 187 pesquisadores. O IAC conta com recursos anuais em torno de R$ 22 milhões, provenientes do tesouro do estado mas que também é em parte gerado no próprio instituto com a venda de sementes e prestação de serviços. "O trabalho busca sempre a criação de variedades mais resistentes a doenças e mais produtivas, que contribuam para a preservação do ambiente e para a geração de renda para o agricultor.", diz o diretor do instituto. O IAC realiza atividades de desenvolvimento de ciência e tecnologia nas áreas de café, grãos e fibras, cana, frutas, citros, horticultura, recursos genéticos vegetais, solos e recursos ambientais, ecofisiologia e biofísica, fitossanidade e engenharia e automação. Nas três principais cadeias produtivas do agronegócio paulista - cafeicultura, citricultura e agroindústria do açúcar e do álcool - o IAC trabalha na geração de variedades mais resistentes e tecnologias que otimizem a atividade agrícola. Na cafeicultura, a principal pesquisa em andamento é a do genoma. Em setembro último, o instituto inaugurou também as novas instalações do Centro de Análise e Pesquisa Tecnológica do Agronegócio do Café "Alcides Carvalho", na Fazenda Santa Elisa, em Campinas. O novo prédio conta com dois novos laboratórios, um de biotecnologia - onde são feitas pesquisas sobre a caracterização molecular dos recursos genéticos do café e o reaproveitamento futuro desses recursos para o melhoramento do café - e um laboratório de teste de qualidade de café. Na citricultura, o destaque do IAC é a pesquisa em citros que foi o único projeto, na área de ciências agrícolas, selecionado, no final do ano passado, pelo Programa Institutos do Milênio, do Ministério de Ciência e Tecnologia. O IAC foi também o órgão responsável pelos estudos que originaram a erradicação do cancro cítrico no País. Na agroindústria do açúcar e do álcool, o Programa Cana IAC recebeu o Prêmio MasterCana 2001, de distinção aos Melhores do Ano no Setor Sucroalcooleiro, na categoria "Assessoria Técnica - Área Agronômica". O IAC foi contemplado por sua ampla interação com os usuários do setor sucroalcooleiro, através o Grupo Fitotécnico de Cana-de-Açúcar. "Além de gerar tecnologias e novas variedades, todo esse conhecimento é levado aos produtores de diversas regiões do estado em dias de campo e cursos", diz Bastos. Na área de formação o destaque este ano no Instituto Agronômico foi a criação de cursos de pós-graduação latu sensu, que começam a funcionar em 2003. Os cursos destinam-se à especialização e ao aperfeiçoamento de profissionais de nível superior, em aspectos científicos e tecnológicos no campo da agronomia. "Essa modalidade de curso é destinado ao profissional que busca uma evolução de conhecimento por interesse próprio ou por necessidade da empresa em que atua, mas que, por trabalhar, não tem como se dedicar ao mestrado strictu sensu", explica. rneves@gazetamercantil.com.br Nova uva dá alternativa a produtor O IAC lançou, no final do ano passado, uma nova variedade de uva - a IAC Juliana -, a primeira "brasileira" com sabor de moscatel e uma opção para os vitivinicultores das regiões de Campinas e Jundiaí que, até então, plantavam como variedade de mesa apenas a Niágara Rosada. As regiões de Campinas e Jundiaí têm 6 mil hectares de plantação explorados, em geral, por famílias e, nos últimos dez anos, a viticultura tem crescido de uma forma constante e significativa. Mas dependendo apenas da Niagara Rosada, a renda do produtor acaba prejudicada. A Niagara Rosada é colhida sempre na mesma época, o que resulta na queda de preço do produto, concentrado em um só período. Na avaliação do pesquisador do IAC, Celso V. Pommer, a uva IAC Juliana abrirá outra alternativa para o produtor. A nova variedade foi testada em um campo de observação na Estação Experimental de Jundiaí. Suas brotações são excelentes, com fertilidade média de 1,4 cachos por ramo. As bagas são de tamanho médio, esféricas e de cor branca. O IAC pesquisa uva há décadas e há 37 anos havia lançado uma outra variedade, a uva Patrícia, mas os trabalhos do IAC com as uvas vão além do lançamento de novas cepas. Recentemente, os pesquisadores do IAC Erasmo José Paioli Pires, Haiko Enok Sawazaki e Maurilo Monteiro Terra identificaram nova mutação somática natural ocorrida na variedade de uva Itália (Pirovano 65). Trata-se do cultivar Redimeire com plantio comercial em várias zonas vitícolas do estado de São Paulo, principalmente na região noroeste, com destaque para os municípios de Jales, Palmeira D'Oeste e Urânia, dentre outros. A uva Redimeire começou a ser cultivada comercialmente no ano de 199S, porém sua origem, até hoje, era totalmente desconhecida. Em 2001, em visita a um vinhedo de "Redimeire", na zona rural do município de Urânia, os pesquisadores verificaram que em um mesmo ramo do cultivar Redimeire havia um cacho de "Redimeire" e outro de "Itália", isto é, o fruto do mutante de uva Redimeire voltou a possuir as mesmas características fenotípicas da variedade que lhe deu origem: a uva Itália. As características das plantas das uvas Itália e Redimeire são semelhantes mas, para confirmar a autenticidade da mutação, folhas das duas variedades supostamente idênticas, mais a da Redglobe, que é um híbrido americano totalmente diferente, foram coletadas e levadas ao Centro de Genética e Biologia Molecular e Fitoquímica, do IAC. Essa descoberta promete mudanças para o mercado. Para os viticultores, significa novas opções de cultivo. MORANGO O IAC desenvolveu também técnicas para o cultivo hidropônico de morango. O novo sistema criado no IAC permite o cultivo vertical de morango, em estufa, onde as mudas ficam em sacolas de polietileno cheias de palha de arroz carbonizada e presas em estacas, com irrigação hidropônica. Segundo o pesquisador Pedro Roberto Furlani, a nova forma de cultivar morangos apresenta diversas vantagens, como o aumento de rendimento por área, redução de riscos de doenças de solo e de aplicação de defensivos agrícolas, facilitação da mão-de-obra com a exigência de menor esforço físico, além da melhoria na qualidade dos produtos, com melhor conservação e sabor. Para o pesquisador do IAC, a hidroponia é uma técnica alternativa de cultivo protegido, em que o solo é substituído por uma solução em água ou em substratos, contendo apenas os elementos minerais indispensáveis aos vegetais. Além de propiciar resultados positivos para o produto final, a hidroponia têm um mercado pouco explorado e ótimas perspectivas de crescimento, representando boa oportunidade de negócio. Para incentivar a sua utilização em diversas culturas, o IAC tem realizado vários cursos sobre as técnicas da hidroponia. (R.N.)