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I Simpósio da Biota Amazônica (1966) e as lições que ainda não aprendemos, artigo de Nelson Sanjad e Ima Célia G. Vieira

Publicado em 11 dezembro 2006

Vale lembrar o recado de Melo Carvalho: "A Amazônia é um feitiço e as 'uiaras', os 'mapinguaris' e os 'curupiras' estarão do nosso lado".
Ima Célia G. Vieira é diretora do Museu Paraense Emílio Goeldi e Nelson Sanjad é coordenador de Comunicação e Extensão da instituição. Texto escrito para o II Simpósio da Biota Amazônica, que a SBPC e Museu Goeldi promovem a partir desta segunda até quinta-feira, em Belém Pará, como parte das comemorações do 140º aniversário do Museu:
Em uma reunião realizada em janeiro de 1965, na cidade de Caracas, Venezuela, um grupo de cientistas da Association for Tropical Biology (ATB), fundada três anos antes, decidiu que uma boa estratégia para fortalecer sua organização e o intercâmbio de pesquisadores seria promover periodicamente encontros acadêmicos em áreas tropicais relevantes do mundo.
Felizmente, o zoólogo José Cândido de Melo Carvalho, pesquisador do Museu Nacional do RJ (MNRJ) e ex-diretor do Museu Paraense Emílio Goeldi, estava presente naquela reunião e propôs que o primeiro dos simpósios da ATB fosse realizado na Amazônia, em 1966, quando seriam comemorados o centenário do Museu Goeldi e o 350º aniversário da cidade de Belém.
A proposta foi aceita e nomeada uma comissão para organizar o programa do simpósio, presidida por Stanley Cain, então secretário Assistente para Peixes e Vida Selvagem do Departamento do Interior do governo norte-americano.
A intenção de Cain era vincular os simpósios da ATB ao International Biology Program (IBP), iniciativa multilateral dos anos 1960/70 que tinha como objetivo criar centros de pesquisa em várias partes do mundo, onde cientistas de várias especialidades pudessem trabalhar juntos em torno de algumas questões relacionadas aos principais ecossistemas.
Num contexto de Guerra Fria, Cain recomendou que o governo dos Estados Unidos se responsabilizasse pela criação de centros de pesquisa no Hemisfério Ocidental, tal como a Inglaterra já vinha fazendo com relação às áreas tropicais da África. Assim, o simpósio da Amazônia seria gerenciado diretamente pelo "braço" norte-americano do IBP, por meio do financiamento da National Science Foundation (NSF) e da liderança da ATB.
Melhor dizendo, nas palavras do próprio Cain, o objetivo último de sua proposta era fundar "um centro norte-americano para o trabalho do IBP nos trópicos úmidos".
E a escolha do local para sediar o simpósio estaria vinculada diretamente à cidade que fornecesse melhores condições de acesso à floresta tropical e ao cerrado.
O encontro previsto por Cain seria pequeno, reunindo 70 pessoas no máximo, mas altamente especializado. Teria como título "O Homem e a Floresta Tropical" e também contaria com viagens de campo a vários pontos da Amazônia.
Após uma primeira avaliação da infra-estrutura que Manaus, Macapá e Belém ofereciam, esta última cidade acabou sendo escolhida para o simpósio.
Nesse ponto começa uma notável mudança nos planos originais da ATB. Ao regressar para o Brasil, Melo Carvalho procurou imediatamente o presidente do CNPq, Antonio Moreira Couceiro, e o convenceu a apoiar amplamente o simpósio da ATB — desde que o mesmo fosse associado às comemorações do centenário do Museu Goeldi e que sua comissão organizadora fosse aprovada pelo governo brasileiro, por meio do próprio CNPq.
Em julho de 1965, Couceiro expediu a Portaria Nº 122, criando a comissão organizadora do Simpósio sobre a Biota Amazônica: pela ATB, o próprio Melo Carvalho, também escolhido presidente da comissão; pelo Museu Goeldi, seu diretor, Dalcy de Oliveira Albuquerque; pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), que à época administrava o museu, Djalma da Cunha Batista; e ainda o botânico Guido Pabst, amigo próximo de Melo Carvalho.
A notícia da comissão brasileira foi submetida ao presidente da ATB, Bassett Maguire, do Jardim Botânico de Nova Iorque (NYBG), que a recebeu com gratidão e aprovação.
Este nomeou então as várias comissões do simpósio, incluindo cientistas principalmente de instituições norte-americanas e latino-americanas.
Melo Carvalho foi eleito presidente do Simpósio, Pierre Dansereau, do NYBG, o coordenador do programa e a comissão nomeada pelo CNPq, o comitê organizador. Em seguida, Melo Carvalho foi eleito presidente da própria ATB.
Passaram-se quase seis meses e "nada havia sido ainda elaborado" pelas comissões, conforme testemunho de Melo Carvalho.
Em novembro de 1965, durante a Conferência sobre Recursos Naturais Renováveis, promovida pela Organização dos Estados Americanos (OEA) em Mar del Plata, Melo Carvalho reuniu-se com vários membros da ATB para receber o apoio de que necessitava para fazer mudanças nas comissões.
Dentre elas, a dissolução da comissão de programa e a nomeação de uma nova comissão - desta vez formada por "pesquisadores com vivência na região amazônica".
Segundo Melo Carvalho, a mudança da comissão gerou mal-estar entre seus organizadores de origem, que interpretaram o fato como equivalência de seu fracasso.
Então, Melo Carvalho rumou para os EUA, sob os auspícios da OEA, para convencer os sócios dirigentes da ATB de que o governo e as instituições científicas brasileiras estavam comprometidos com a realização do simpósio e dispostos a realizá-lo na data prevista, ou seja, 6 a 11 de junho de 1966.
Melo Carvalho esteve em Washington, Boston e Nova Iorque, visitando cientistas e instituições como a National Academy of Sciences e a NSF.
Em seguida, rumou para a Amazônia, onde encontrou apoio nos governos dos Estados do Pará (à época governado por Jarbas Passarinho) e Amazonas (à época governado por Arthur Cezar Ferreira Reis), na Superintendência de Valorização Econômica da Amazônia (atual SUDAM), na Universidade Federal do Pará (UFPA), na Prefeitura Municipal de Belém, no Banco de Crédito da Amazônia (atual BASA) e ainda em empresas e instituições científicas locais.
A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o Ministério das Relações Exteriores e o Museu Nacional do RJ também se somaram à iniciativa articulada por Melo Carvalho.
Com os recursos que obteve garantiu a realização do simpósio, permitindo que os financiadores norte-americanos restringissem sua participação ao pagamento da tradução simultânea e ao fornecimento de auxílio para a viagem de cientistas americanos.
Entretanto, Melo Carvalho não parou aí. Tomou para si a organização do programa, convidando pessoalmente os coordenadores de sessão: Paulo Vanzolini, Eduardo Galvão, Aziz Ab'Saber, Hugo de Souza Lopes, João Murça Pires e Harald Sioli, além dele próprio.
Em carta ao diretor do Museu Goeldi, datada de agosto de 1965, fez o seguinte comentário: "Desta forma seremos nós os brasileiros (ou 22 anos de Brasil-Sioli) que iremos tomar a frente dos trabalhos".
Em dezembro de 1965, levou para o Museu Goeldi a Reunião Anual da ATB, fazendo do Simpósio o principal item de pauta.
O Simpósio da Biota Amazônica foi aberto no dia 5 de junho de 1966, no Teatro da Paz, com direito a trechos da ópera "O Guarany", de Carlos Gomes, levados pela Orquestra Sinfônica Paraense sob a regência de Manoel Belarmino da Costa.
A conferência de abertura foi proferida pelo historiador Arthur Cezar Ferreira Reis, intitulada "O Homem e a Natureza na Amazônia". A secretaria do evento foi montada no Museu Goeldi e as sessões científicas ocorreram na Faculdade de Medicina da UFPA e na Santa Casa de Misericórdia.
Simultaneamente ao Simpósio, houve reuniões da Sociedade Brasileira de Paleontologia e da Sociedade Brasileira de Antropologia.
Exposições foram montadas no museu e uma extensa programação cultural organizada, que incluiu até mesmo um jornalzinho, "O Curupira", editado por Mário Simões, e uma Comissão de Programas Femininos, presidida por Maria Clara Galvão.
No dia 8 de junho, nova sessão solene no Teatro da Paz comemorava o centenário do Museu Goeldi.
No final do encontro, os participantes puderam escolher entre excursões para Manaus, Amapá (Macapá e Serra do Navio), Capanema (uma importante área fossilífera), IPEAN-APEG (reserva florestal próxima a Belém) e uma viagem pela Belém-Brasília, recém aberta, que duraria nada menos do que seis dias.
As sessões foram organizadas em oito temas: Geociências, Limnologia, Antropologia, Patologia, Botânica, Zoologia, Conservação da Natureza e Recursos Naturais e Planificação de Pesquisas para a Região.
Ao todo, foram proferidas 22 conferências e apresentados 227 trabalhos originais.
O público inscrito foi de 611 pessoas, de 16 países, representando 97 instituições. As Atas, organizadas por Herman Lent e publicadas pelo CNPq, apareceram em 1967, em sete volumes, reunindo 169 artigos, em 2.408 páginas.
Conforme demonstram esses números, o Simpósio da Biota Amazônica representa o primeiro grande evento científico que teve como tema a Amazônia, num contexto de progressiva ampliação do sistema nacional de ciência e tecnologia.
Nesse sentido, é um marco para as políticas nacionais voltadas para a região.
Por sua vez, as Atas reúnem trabalhos atualmente considerados clássicos da ciência brasileira, o que demonstra o esforço coletivo dos participantes do simpósio em sistematizar dados e informações científicas sobre a região.
Os textos que deixaram, no seu conjunto, constituem, ao mesmo tempo, rico manancial de informações e uma síntese do conhecimento científico disponível sobre a Amazônia naquele momento.
Dentre esses textos, vale destacar a notável conferência de Arthur Cezar Ferreira Reis, que felizmente sobreviveu até nossos dias e será distribuída aos participantes do II Simpósio da Biota Amazônica, a se iniciar dia 11 de dezembro de 2006.
Com lucidez, Ferreira Reis disserta sobre um de seus temas prediletos, a "apropriação dos trópicos" pela população originada do encontro entre índios e portugueses. Segundo o historiador, "a natureza amazônica foi depredada sem qualquer demonstração sentimental", com o objetivo de usufruir suas riquezas, numa ação que se assemelha ao vandalismo.
Nesse sentido, a ciência teria como missão propor uma "nova política, uma política humana que, ao invés dos sistemas predatórios em uso, nos conduza a uma intimidade com o espaço para nele criarmos um sistema de vida que nos preserve o futuro e seja a comprovação de que, efetivamente, alcançamos a maioridade espiritual".
Outro texto notável, também inédito, é o relatório da Comissão de Planejamento de Futuras Pesquisas na Amazônia, formada por Heitor Grillo, vice-presidente do CNPq, William Saad Hossne, da Fapesp, e Luiz Fernando Gouvêa Labouriau, do Instituto de Botânica de SP.
Com base nos relatórios das várias sessões temáticas, essa comissão fez inúmeras recomendações ao CNPq — que poderiam ter sido escritas hoje.
Dentre elas, a necessidade de incrementar as pesquisas então existentes; de eleger como temas prioritários a pesquisa básica e a saúde, com enfoque interdisciplinar; de incentivar os centros de informação e documentação sobre a Amazônia; de criar novas áreas de conservação; de investir na infra-estrutura das instituições científicas locais; de patrocinar regularmente reuniões científicas; de organizar uma comissão específica para coordenar as pesquisas na região; de formar novos pesquisadores para atuarem na região; e, principalmente, de manter uma ação mais efetiva do Estado brasileiro na região.
E, para a nossa surpresa, é exatamente isso o que recomenda um comunicado que a Embaixada norte-americana no Rio de Janeiro emitiu em 29 de julho de 1966 para o Departamento de Estado dos EUA.
Após louvar a realização do Simpósio e a integração científica que se esperava, o embaixador comenta que finalmente o Estado do Pará e o governo do Brasil davam início a uma "processo mais dinâmico de desenvolvimento".
Os desdobramentos do Simpósio e do plano de desenvolvimento da Amazônia, lançado pelo presidente Castelo Branco um ano antes, foram muitos e complexos, não cabendo entrar no assunto aqui.
O que importa é que, naquele momento, entre 1965-1966, vislumbrou-se um futuro otimista para a região, no qual a ciência teria um papel fundamental.
Infelizmente, as previsões não se concretizaram, os investimentos em ciência e tecnologia foram e continuam sendo muito aquém do necessário e o "modelo predatório" criticado por Ferreira Reis continuou atuando ininterruptamente. Pior, foi acelerado e aprofundado.
Hoje, com quase 25% da região sofrendo impactos negativos da ação humana, com tantos problemas sociais e ambientais, resta-nos renovar a visão e o patriotismo de Melo Carvalho, bem como a lucidez e esperança de Ferreira Reis.
Para os céticos ou pessimistas, deixamos um recado que Melo Carvalho mandou em 1965 para o diretor do Museu Goeldi, então desanimado diante das dificuldades: "A Amazônia é um feitiço e as 'uiaras', os 'mapinguaris' e os 'curupiras' estarão do nosso lado".