Notícia

SBC Notícias Online (Cardiologia)

Hospital privado investe em ciência

Publicado em 05 outubro 2007

O Hospital do Coração (HCor) inaugura amanhã uma extensão de sua sede, no bairro do Paraíso, em São Paulo. No lugar de leitos e consultórios, o 11º e o 12º andar do prédio vão abrigar computadores, baias de escritório e prateleiras de livros do mais recente investimento da instituição: um centro de ensino e pesquisa. Seguindo uma tendência internacional, capitaneada por países como Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha, hospitais privados brasileiros investem em produção científica, abrindo núcleos próprios e conveniando-se a importantes centros mundiais de saúde.

"Antes, foi a era do tomógrafo e dos equipamentos. Hoje, hospital bom é o que gera conhecimento", diz Otávio Berwanger, diretor do instituto do HCor, especializado em pesquisas clínicas. "Com essa estrutura, vamos ter capacidade para coordenar projetos internacionais." Pelo menos dois já estão em andamento, em parceria com uma universidade canadense - um sobre um anticoagulante para pacientes de UTI e outro sobre procedimentos para prevenir problemas cardíacos em cirurgias.

Há três meses, o Beneficência Portuguesa também decidiu reunir pesquisas isoladas do corpo clínico estruturando seu próprio instituto, que deve ser inaugurado em abril. Atualmente, 12 estudos são realizados em convênio com entidades de dez países. No primeiro semestre, o Hospital Alemão Oswaldo Cruz abriu as portas de seu Instituto de Ciências, com orçamento de R$ 5 milhões para estudos em terapias celulares, capacidade individual de resposta a tratamentos e imunologia de tumores. Mais de 30 projetos estão em análise ou em andamento, inclusive testes de medicamentos em conjunto com a indústria farmacêutica.

"Com esse aporte inicial, esperamos alavancar parcerias que potencializem o investimento", diz o diretor-superintendente, José Henrique do Prado Fay. Simpósios, reuniões científicas, cursos de educação continuada e até lato sensu fazem parte do programa.

Outras instituições tradicionais, como o Israelita Albert Einstein e o Sírio-Libanês, em São Paulo, e o Moinhos de Vento, em Porto Alegre, entraram no ramo há mais tempo. "O hospital não é mais o lugar onde você só vem para ser internado. Vai cuidar do paciente desde a prevenção até a internação", afirma Roberto Padilha, do núcleo de estudos do Sírio. Com um orçamento de R$ 1 milhão, fora financiamentos de agências de fomento, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Instituto de Ensino e Pesquisa do Sírio existe formalmente desde 2003 e tem atualmente 41 protocolos em curso, além de grupos de pesquisa em neurociência, dor, trombose, células-tronco e cardiologia.

De um modo geral, os hospitais já têm algum tipo de pesquisa desenvolvido isoladamente em reuniões científicas ou pequenos grupos. Mas formalizar a estrutura abre portas para financiamentos e parcerias acadêmicas importantes. Foi esse movimento que cresceu nos últimos cinco anos. Alguns centros desenvolvem pesquisa de base, laboratorial, como o Albert Einstein. Mas a maioria se concentra em pesquisa clínica, que investiga a eficácia de medicamentos e protocolos médicos.


Investimento privado

"Na curva de evolução da criação dos comitês de pesquisa, fica claro o investimento do setor privado nos últimos cinco anos", diz a coordenadora da Comissão Nacional de Ética e Pesquisa (Conep), ligada ao Ministério da Saúde, Gysélle Tannous. Segundo ela, dos 565 comitês de ética e pesquisa existentes hoje no País, cerca de 50% foram criados por entidades particulares - a maioria a partir de 2002.

"Investir em pesquisa leva à sistematização da rotina médica e, conseqüentemente, a melhores resultados", afirma Ricardo Brentani, diretor-presidente da Fapesp e diretor-presidente do Hospital A.C. Camargo, o Hospital do Câncer, instituição pioneira na associação entre ensino e pesquisa e atendimento, referência na América Latina.

Um estudo da Universidade de Alabama, nos Estados Unidos, comprova o raciocínio de Brentani. Realizada em 2000 com 4,3 mil hospitais divididos entre assistenciais, com algum tipo de ensino e pesquisa e outros com centros estruturados, revelou que a prescrição de medicamentos com benefício comprovado é entre 20% e 25% maior nos que investem em ciência.

Para Gysélle, do Conep, a instituição que aposta nessa tendência se beneficia, principalmente, com a capacitação de pessoal. "Evita que o profissional se acomode e o ajuda a manter uma postura mais reflexiva sobre sua prática." No final, quem ganha é o paciente, que se sente mais confiante na instituição e nos médicos.