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Hormônios femininos podem ter papel protetor contra coronavírus

Publicado em 15 maio 2020

Por José Tadeu Arantes | Agência FAPESP

Não há um claro predomínio de homens ou mulheres nos indivíduos diagnosticados globalmente com COVID-19. No entanto, a maioria dos que são hospitalizados ou vão a óbito, ou seja, que desenvolvem a doença de forma mais grave, é constituída por homens. Segundo a organização Global Health 50/50, mantida pelo University College London (Reino Unido), “na maioria dos países, os dados disponíveis indicam que os homens têm 50% mais chances de morrer após o diagnóstico do que as mulheres” (1).

Tal afirmação é corroborada por estatísticas atualizadas da cidade de Nova York (Estados Unidos). E por estudo realizado na China, de acordo com o qual: “o sexo masculino é um fator de risco para pior resultado em pacientes com COVID-19, independentemente de idade e suscetibilidade”.

Com base nessa constatação epidemiológica, bem como em dados da literatura, uma grande equipe multidisciplinar de pesquisadores do Estado de São Paulo está investigando o papel dos estrogênios, os hormônios femininos, na proteção fisiológica contra o coronavírus.

O projeto “Avaliação de compostos com potencial terapêutico para SARS-CoV-2: enfoque em compostos com atividade estrogênica, moduladores da autofagia e ECA2”, coordenado por Rodrigo Portes Ureshino, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), tem o apoio da FAPESP no âmbito do edital Suplementos de Rápida Implementação contra COVID-19.

“Estudos anteriores, realizados com o coronavírus SARS-CoV [causador da síndrome respiratória aguda grave], apontaram diferenças de gênero na infecção e progressão da doença, com maior suscetibilidade de indivíduos do sexo masculino, e indicaram que os estrogênios podiam estar associados à maior proteção fisiológica das mulheres. Queremos testar se o mesmo ocorre com o SARS-CoV-2, o novo coronavírus, para chegar a compostos com potencial terapêutico”, diz Ureshino à Agência FAPESP.

A equipe já ultrapassou a etapa de revisão da literatura e entrou na fase experimental propriamente dita. “Infectamos linhagens de células com cepas selvagens de coronavírus e vamos testar nesse modelo mais de 40 compostos com atividade estrogênica para observar os resultados”, conta o pesquisador.

Os procedimentos com o SARS-CoV-2 são realizados em um laboratório de nível de biossegurança 3 (NB3) da Unifesp, coordenado pelo professor Mário Janini, colaborador do projeto.

Entre os compostos a serem testados, Ureshino destaca o 17ß-estradiol (o estrógeno mais abundante no organismo), o tamoxifeno (um modulador seletivo dos receptores estrogênicos) e a agenisteína (um fitoestrógeno). Todos os três já foram utilizados com êxito em modelos de outras doenças virais.

Além do foco estritamente terapêutico, com o teste de compostos com potencial para o tratamento da COVID-19, o projeto também tem um enfoque molecular. Neste caso, o objetivo é investigar a expressão do receptor ACE-2 (enzima conversora de angiotensina 2, na sigla em inglês), que possibilita a entrada do vírus nas células. “Sabemos que os pacientes hipertensos, grupo de risco para a COVID-19, apresentam uma maior expressão de ACE-2 e isso favorece a entrada do vírus nas células. Por isso, estamos estudando a superexpressão desse receptor em diferentes tipos celulares”, afirma o pesquisador.

Nesse eixo, um artigo em fase de pré-print foi produzido pelo grupo, tendo como primeira autora a doutora Roberta Sessa Stilhano, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa (FCMSCSP): "SARS-CoV-2 and the Possible Connection to ERs, ACE2 and RAGE: Focus onSusceptibility Factors".

O trabalho contou com a colaboração da professora Carla Máximo Prado, da Unifesp, que estuda o processo inflamatório pulmonar, além de pesquisadores de instituições internacionais, como a University of California – Davis (Estados Unidos) e a University of Cambridge (Reino Unido).

“Esse artigo buscou correlacionar três fatores: ACE-2, receptores de estrogênios e inflamação. Por isso, além das vias moleculares da ACE-2 e dos estrogênios, também detalhamos as vias do RAGE [receptor para produtos finais de glicação avançada], que está relacionado com inflamação. Acreditamos que o estudo dessas vias abra perspectivas terapêuticas para o tratamento da COVID-19”, diz Stilhano.

Além da equipe da Unifesp, o projeto conta com a colaboração dos pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) Ana Cristina Breithaupt-Faloppa e Luiz Felipe Pinho Moreira.

> Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

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(1) Um estudo publicado no periódico Frontiers in Public Health encontrou que os homens possuem mais do que o dobro da taxa de mortes por COVID-19 em relação às mulheres. Para mais informações, acesse: Homens morrem 2,4 vezes mais por COVID-19 do que as mulheres, segundo estudo

> ATENÇÃO: Um estudo recente publicado no periódico Annals of Oncology (2) encontrou que homens sendo tratados para câncer de próstata com terapias de deprivação androgênica (TDA) eram bem menos prováveis de serem infectados pelos SARS-CoV-2 ou, caso infectados, a doença tendia a ser bem menos severa. Os pesquisadores notaram que de um total de 4532 homens na Itália com COVID-19, 9,5% dos quais tinham câncer e 2,6% com câncer de próstata. Pacientes com câncer possuem um risco 1,8 vezes maior de serem infectados pelo vírus e desenvolvem uma doença mais severa. Porém, quando os pesquisadores analisaram especificamente um grupo de pacientes com câncer de próstata, sob TDA (total de 5273 homens), eles encontraram que apenas 4 tinham desenvolvido COVID-19 e nenhum morreu. Já entre 37161 homens com câncer de próstata não recebendo TDA, 114 desenvolveram COVID-19 e 18 morreram. Entre 79661 pacientes com outros tipos de câncer, 312 desenvolveram COVID-19 e 57 morreram.

Em outras palavras, pacientes com câncer de próstata recebendo TDA mostraram ter um risco 4-5 vezes menor de desenvolverem COVID-19 do que outros pacientes com câncer. Isso pode significar que níveis maiores de andrógenos - como testosterona - no corpo pode facilitar infecções com o novo coronavírus e aumentar a severidade dos sintomas. Baixos níveis de estrógenos pode não ser o real problema. A proteína TMPRSS2 - utilizada pelo SARS-CoV-2 para infectar as células junto com o receptor ACE2 - é regulada justamente pelo receptor androgênico e é alvo da TDA por também estar envolvida em processos associados ao câncer.

(2) Publicação do estudo: Annals of Oncology

> Outras hipóteses para explicar a maior severidade da COVID-19 em homens:

Estudo sugere que homens são mais afetados pela COVID-19 por causa dos testículosCientistas Brasileiros podem ter descoberto porque os homens são mais afetados pela COVID-19

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