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Gazeta de Piracicaba online

Hormônios e a dor

Publicado em 13 novembro 2008

Por Felipe Rodrigues

Estudo realizado na Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP) sobre a influência do hormônio sexual e a dor da articulação temporomandibular (ATM) dá novos indícios à discussão de que as sensações de dores são mais comuns e fortes nas mulheres do que nos homens. Pela pesquisa, o funcionamento dos hormônios sexuais femininos faz com que a mulher sinta mais dor do que o homem.

"Verificamos que tanto os hormônios sexuais femininos quanto os masculinos tendem a reduzir a dor. O problema é que na mulher, durante o seu ciclo reprodutivo normal, ocorre uma variação muito grande dos níveis hormonais", diz a cirurgiã-dentista Luana Fischer, que defendeu tese de doutorado sobre a questão na FOP, sob orientação da professora Cláudia Herrera Tambeli, da área de Fisiologia.

Quando os níveis estão baixos, há um aumento da sensibilidade dolorosa. Já no homem, os níveis hormonais não variam, como acontece com a mulher, e facilitam a resistência às dores. Cláudia Herrera Tambeli também orientou pesquisa da cirurgiã-dentista Juliana Clemente-Napimoga, que demonstrou que os hormônios sexuais afetam a dor e interferem na eficácia analgésica. "Dependendo do nível hormonal, a eficácia é maior ou menor".

A expectativa, de acordo com as pesquisadoras, é que a descoberta torne possível doses de um mesmo medicamento diferenciadas para homens e mulheres, de acordo com a fase do ciclo menstrual da mulher. Com isso, o tipo de medicamento utilizado no tratamento da dor e a forma como ele é aplicado poderão ser alterados, dependendo da fase hormonal da mulher. "O estudo abre novos caminhos para essa discussão".

Porém, a ciência necessita entender na totalidade a maneira como os hormônios sexuais afetam a dor e o efeito de analgésicos e antinflamatórios. O conhecimento será vital para formulação de novos medicamentos, que podem ser mais eficazes nos tratamentos contra a dor. A pesquisa de Luana também revelou que a dor pode ser mais comum no sexo feminino porque a testosterona, que é o principal hormônio masculino, protege os homens de desenvolver dor na ATM.

Apoio

A pesquisa recebeu o apoio da Fapesp e contou com a colaboração da professora Maria Cecília Veiga, as alunas Karla Helena Torres Chaves, Nádia Cristina Favaro Moreira a ex-aluna Juliana Clemente-Napimoga e da aluna de iniciação científica Juliana Sanfins. O assunto é tema de outras pesquisas em andamento no Laboratório de Dor e Inflamação da FOP, que conta com a participação dos alunos de iniciação científica Aline Soares de Camargo e Vinícius Henrique Alves Ferreira e de mestrado Nádia Cristina Favaro Moreira e Letícia Esmanhoto Fanton.

Estudos de observação

Para avaliar o efeito dos hormônios na dor, as pesquisadoras compararam duas fases do ciclo reprodutivo das ratas e chegaram à conclusão de que as ratas com altos níveis de estrógeno (hormônio responsável pelo desenvolvimento na mulher) têm menos dor.

O estudo chega à conclusão de que as ratas que têm níveis hormonais considerados altos sentem dor semelhante à dos machos.

"Para comprovar essa tese, castramos os animais e administramos os hormônios sexuais. Quando castramos a rata, a dor aumenta. Quando administramos o estrógeno, a dor diminui novamente", diz a professora Tambeli.

Os níveis de hormônios sexuais induzem a liberação de endorfinas, que liberadas no sistema nervoso central ativam diversas regiões do cérebro e tendem a diminuir a dor.

"Verificamos que os hormônios sexuais liberam essas substâncias no sistema nervoso central e por isso diminuem a dor".

Um rato macho com alto nível hormonal foi utilizado no estudo, com a aplicação de uma droga que inibiu a ação da endorfina. Quando a droga foi administrada, a dor do animal se assemelhou à de uma rata com baixos níveis de hormônios.