Estudo da Unesp indica que versão sintética da ocitocina preveniu comportamentos ansiosos em ratos expostos a situações de pressão social
Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) identificaram que uma versão sintética da ocitocina pode atuar na prevenção da ansiedade provocada pelo estresse social. O achado, obtido em testes com ratos e publicado na revista científica Progress in Neurobiology, reforça o papel desse hormônio e dos circuitos cerebrais associados na regulação emocional e aponta caminhos para futuras estratégias terapêuticas.
O estudo utilizou a carbetocina, um análogo sintético da ocitocina, administrada antes da exposição dos animais a situações de estresse social. Segundo os pesquisadores, o composto não atuou como um ansiolítico tradicional, mas evitou que os ratos desenvolvessem comportamentos típicos de ansiedade após o estresse.
“Observamos que, após experiências repetidas de estresse social, a carbetocina teve um efeito preventivo. Os animais tratados se comportaram de forma semelhante aos do grupo-controle, que não passaram pelo estresse”, explica Carlos Crestani, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Araraquara (FCFAr-Unesp) e coordenador da pesquisa, apoiada pela FAPESP.
Conhecida popularmente como o “hormônio do amor”, a ocitocina está associada a sensações de calma, vínculo social e bem-estar, além de atuar de forma oposta ao cortisol, hormônio relacionado à resposta ao estresse. Os resultados do estudo sugerem que esse sistema desempenha papel fundamental na modulação da ansiedade decorrente de estresse social crônico.
MODELO DE ESTRESSE SOCIAL
Para induzir o estresse, os cientistas utilizaram um protocolo chamado “derrota social”. Nele, um rato intruso é colocado na gaiola de outro macho que vive em um ambiente associado à proteção territorial. A experiência é repetida em diferentes dias, com novos animais e ambientes, para intensificar o efeito estressor.
Após as sessões, os ratos foram submetidos ao teste do labirinto em cruz elevado, método clássico para avaliar comportamentos relacionados à ansiedade. Animais expostos ao estresse apresentaram menor exploração das áreas abertas do labirinto comportamento interpretado como sinal de maior ansiedade.
Já os ratos que receberam carbetocina antes das situações de estresse mantiveram padrões de comportamento semelhantes aos dos animais não expostos, indicando que o composto reduziu o impacto do estresse sobre a ansiedade.
EVIDÊNCIAS NEUROLÓGICAS
Os pesquisadores também analisaram o papel dos receptores de ocitocina e observaram que o efeito protetor da carbetocina desapareceu quando esses receptores foram bloqueados, confirmando a atuação direta do sistema ocitocinérgico.
Além disso, houve aumento do número de receptores de ocitocina no córtex pré-frontal medial área do cérebro ligada ao controle do estresse e das emoções reforçando a relevância dessa região na resposta observada.