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Diário da Manhã (GO) online

Hora e vez da pesquisa científica

Publicado em 06 fevereiro 2005

Promover o debate sobre o papel da pesquisa científica para a sociedade e propiciar o encontro da academia com a iniciativa privada são alguns dos projetos da nova secretária de Ciência e Tecnologia de Goiás. Para a professora doutora Raquel Teixeira, que tomou posse da Pasta no último dia 21, é muito importante que a criança, no início da vida escolar, tenha orientação voltada para a descoberta científica.
"O mundo moderno exige flexibilidade de ações, agilidade intelectual, capacidade de análise. Vivemos numa sociedade muito complexa. O mundo tem muito conhecimento acumulado, uma pluralidade de interesses, de perfis, de demandas; então, estar preparado para viver nesse mundo exige uma preparação cognitiva, intelectual, diferente, voltada para a ciência e tecnologia. Estamos aprendendo a lidar com esse conhecimento", diz a nova secretária.
Na última quarta-feira ela participou em São Paulo de reunião do Conselho Consultivo do Instituto Sangari, que, em parceria com a Secretaria de Ciência e Tecnologia de Goiás, vai desenvolver um projeto-piloto em escolas estaduais da primeira à oitava séries de Goiânia e Aparecida de Goiânia. O projeto educacional vai beneficiar 120 mil crianças.
A secretária aproveitou a oportunidade para conhecer a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), já que um de seus principais projetos é criar uma fundação nesses moldes em Goiás. Esta semana ela visita também os pólos tecnológicos do Estado do Pernambuco.
Por toda a sua experiência, Raquel Teixeira acredita que umas das contribuições que pode deixar à secretaria é a de capitalizar as relações pessoais que desenvolveu ao longo de sua vida acadêmica. Veja a seguir os principais trechos da entrevista concedida ao Diário da Manhã.

Desafios
O primeiro desafio que tenho na Secretaria de Ciência e Tecnologia é colocar o tema na agenda da sociedade. No mundo do século XXI, o conhecimento é matéria-prima. É através da inovação tecnológica, da transformação do conhecimento em conhecimento aplicado, que mudamos a vida da sociedade. Como secretária da Ciência e Tecnologia, quero fazer um trabalho de educação científica para crianças do ensino fundamental, despertando na criança a criatividade, curiosidade, busca das explicações, capacidade de análise e reflexão.

Amparo à pesquisa
Vamos criar uma fundação de amparo à pesquisa que vai ser destinada a estimular, fomentar, financiar projetos. As universidades Católica, Federal e Estadual de Goiás, o Instituto Neurológico, a Embrapa, todos os atores envolvidos com a questão da pesquisa serão chamados para montar uma comissão que vai definir o projeto e a formação de recursos humanos na área. Essa discussão vai acontecer em alguns meses de tal forma que, quando nós efetivamente criarmos a fundação, não só a comunidade científica mas a sociedade a conheça.

Iniciativa Privada
Os projetos em andamento serão fortalecidos, mas vamos intensificar a busca das tecnologias sociais, a criação dos pólos tecnológicos. O casamento do conhecimento gerado pela pesquisa com os objetivos empresariais da iniciativa privada cria inovação. O conhecimento em si, se ficar só na universidade, não muda a vida das pessoas. Precisamos propiciar esse encontro da academia com a iniciativa privada.

Universidade Estadual de Goiás
Um instrumento importantíssimo e essencial que Goiás tem na área de produção, geração, difusão, distribuição e democratização do conhecimento é a UEG, vinculada à Secretaria de Ciência e Tecnologia. É o grande instrumento do Estado para democratizar o conhecimento. Através da UEG, com sua enorme capilaridade, Goiás deu um salto fantástico, porque está levando conhecimento onde antes não chegava.

Tecnologia do campo
É uma das áreas mais avançadas no Brasil, talvez o País mais competitivo em termos de produção agrícola. O agronegócio é o grande motor da economia brasileira. Esta é uma área em que nós somos modelo para o mundo inteiro.

Investimento internacional
A fundação de amparo à pesquisa será um instrumento de captação de recursos. É preciso haver um fluxo regular de recursos do Tesouro estadual. A partir daí, temos um instrumento importante de encaminhamento de projetos para outras formas de captação nacionais e internacionais.

Ministério de Ciência e Tecnologia
O Ministério hoje é reconhecido como um dos mais atuantes. O ministro Eduardo Campos foi uma bela surpresa. Ele tem dado um dinamismo especial, criado áreas interessantes na área de tecnologia social, desses centros tecnológicos, de capacitação, popularizando a ciência. É preciso entrar com mais ênfase nessa guerra. E para que o País dê um salto tecnológico, é preciso olhar para a questão da inclusão digital. Precisamos democratizar o acesso à internet. Tenho o compromisso do ministro e de seus principais assessores de continuar o apoio que já era dado à secretária que me antecedeu, Denise Carvalho. Estou muito confiante.

ISO 9000
Vamos montar uma Secretaria de Ciência e Tecnologia que tenha claros sua missão, visão e valores e seguir todas as etapas que são necessárias para que esta seja primeira do Brasil a ter um ISO 9000 de Qualidade de Gestão. Se temos uma Secretaria de Ciência e Tecnologia, ela tem de começar a dar o exemplo na própria casa de racionalidade na sua gestão. Isso faz parte do que o século XXI exige.

Orçamento
A Secretaria de Ciência e Tecnologia tem um orçamento vinculado de 3% da receita tributária do Estado. Desses, ficou decidido que 2%, ou seja R$ 107 milhões, vão para a UEG, e 1%, R$ 76 milhões, para a Secretaria de Ciência e Tecnologia. Temos convênios já encaminhados e vou procurar mais parcerias.

Instituto Sangari
É o maior instituto especializado em educação científica do mundo, com sede na Inglaterra e presente em 14 países, inclusive Brasil. Nossa história de formação cientifica é muito ruim. Em todos os testes internacionais de que o Brasil participa, lamentavelmente temos ficado em último e penúltimo lugar. Nossos estudantes não estão sabendo desenvolver seu potencial na área de ciências. E o instituto vem então atuar nas escolas. Há quatro anos eles mantém contratados 200 doutores das áreas de Física, Química e Biologia que desenvolvem as metodologias, a orientação dos professores e o material adequado para desenvolver as capacidades que as crianças precisam desenvolver para atuar num mundo moderno. Eu sou membro do Conselho Consultivo há dois anos. Agora tenho o privilégio de cobrar dos meus colegas que me ajudem nessa tarefa em Goiás.

Projeto-piloto
Com apoio do Instituto Sangari e da Unesco, vamos começar esse trabalho de orientação dos professores e das crianças já a partir de agosto, com 120 mil estudantes de escolas estaduais da primeira à oitava série de Goiânia e Aparecida de Goiânia. A Unesco vai acompanhar e avaliar o processo.

Vale do silício
Morei na Califórnia de 1980 a 1985. Foi uma época em que se consolidou o que chamamos de Vale do Silício, o maior exemplo de pólo tecnológico do mundo. As universidades de Berkeley e de Stanford foram chamativas para experiências com silício, matéria-prima dos chips. A presença da universidade desenvolvendo pesquisa nessa área atraiu empresas. Vivi o momento muito importante desse casamento do conhecimento científico gerado pela pesquisa das universidades com a iniciativa privada, fazendo as inovações tecnológicas que fizeram a grande revolução do mundo, que foi a da informática.

Democratização
O desafio do século XXI é democratizar o conhecimento, o acesso aos bens científicos e tecnológicos; por isso, o trabalho da Secretaria de Ciência e Tecnologia é importante na difusão desse saber científico. É isso que vai permitir ao Brasil fazer o salto qualitativo. Quanto mais conhecimento acumulado o povo tem, mais rapidamente acontecem as inovações tecnológicas. Houve uma época em que o que determinava a riqueza dos povos eram os recursos naturais. Hoje, é o conhecimento que esse povo tem acumulado. É urgente e essencial que a população comece a participar desse debate.