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Homens são acometidos por doenças psiquiátricas mais graves, indicam estudos

Publicado em 06 outubro 2020

O pediatra, psicanalista e professor Paulo Schiller disse, em uma de suas palestras, que as doenças psiquiátricas mais graves, como autismo, psicopatia, perversão, agressividade e hiperatividade, acometem mais homens.

Segundo o médico, afora características hereditárias e ambientais, a grande catástrofe é a maneira como a cultura, desde a antiguidade, valoriza muito mais a figura masculina em relação à figura feminina, incutindo a necessidade de desempenho de poder de um sobre o outro e, na maioria das vezes, através da subjugação, dominação e violência.

Essa maneira de se relacionar construiu o nosso psiquismo e isso se reflete em praticamente todas as culturas no mundo, umas mais, outras menos, mas em todas.

Schiller conclui que comportamentos de dominação e supervalorização deixam os homens mais propensos a sofrer transtornos psicológicos, e as pesquisas confirmam esse cenário.

Índice

Primeiro episódio psicótico acometem mais homens

Um estudo realizado na região de Ribeirão Preto, em 26 municípios, feito por um consórcio internacional que reuniu pesquisadores de seis países e foi publicado pela revista científica Jama Psychyatry, homens e jovens são os principais afetados pelos transtornos mentais.

No Brasil, o estudo foi coordenado por Paulo Rossi Menezes, professor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e por Cristina Marta Del Ben, professora do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP.

O estudo constatou que 53% dos casos de um primeiro episódio psicótico atingem homens, com idade média de 32 anos. A maioria dos problemas detectados foi referentes a psicose não-afetiva (68,9%). O restante é referente a psicose afetiva, como a depressão.

As condições socioeconômicas do paciente podem influenciar a situação.

Entende-se como primeiro episódio psicótico, a manifestação de transtornos mentais, como:

esquizofrenia, transtorno afetivo bipolar e depressão com sintomas psicóticos – como alucinações, ideias delirantes e desorganização do pensamento.

Segundo o professor Paulo:

“isso pode estar relacionado ao processo de amadurecimento cerebral, uma vez que o cérebro atinge sua maturidade entre os 20 e 25 anos. Nesse período, os homens parecem ficar mais vulneráveis do que as mulheres para desenvolver transtornos mentais”.

A pesquisa também conclui que até o fim do século 20 acreditava-se que os principais fatores etiológicos [origem e causa] de transtornos psicóticos seriam genéticos, mas os dados do estudo demonstram que os fatores ambientais desempenham um papel muito mais relevante.

Transtorno de personalidade antissocial

Segundo o MSD – Manual Merck de Saúde, o transtorno de personalidade antissocial é seis vezes mais comum em homens.

Transtorno de personalidade antissocial é caracterizado por “irresponsabilidade social, desrespeito por outros, falsidade e manipulação dos outros para ganho pessoal”.

A pessoa com esse transtorno pode cometer atos ilegais, fraudulentos, exploradores e imprudentes para ganho ou prazer pessoal sem sentir remorso. Eles costumam justificar ou racionalizar seu comportamento, por exemplo, achar que os “idiotas merecem sem enganados”, geralmente culpando a vítima por ser ingênua ou impotente.

Geralmente são indiferentes aos efeitos exploradores e prejudiciais de suas ações sobre os outros e demonstram descaso em relação aos direitos e sentimentos alheios, até mesmo em relação à lei.

Normalmente não temem as consequências de seus atos e muito menos sabem o que é responsabilidade afetiva.

Homens machistas mais propensos a transtornos psiquiátricos

Uma pesquisa publicada no “Journal of Counseling Psychology“, realizada pela Associação Americana de Psicologia, encontrou conexões entre o comportamento masculino sexista e transtornos mentais como depressão e abuso de substâncias.

Segundo Joel Wong, pesquisador da Universidade Bloomington de Indiana e líder do estudo, homens que agem como “playboys” para se sentirem poderosos e superiores às mulheres, não cometem apenas uma injustiça social, mas desenvolvem comportamentos para justificar suas ações que são potencialmente ruins para a saúde mental deles.

A pesquisa sintetiza análises de mais de 70 estudos baseados nos EUA, que envolveram mais de 19 mil homens ao longo de 11 anos e foram avaliados comportamentos masculinos tradicionais como desejo de vencer, assumir riscos e busca por status.

A conclusão foi que, homens que mantinham comportamento de “playboy” ou de promiscuidade sexual, sentimento de poder sobre as mulheres e autossuficiência, estavam mais intimamente ligados a problemas de saúde mental.

Homens com dificuldade de reconhecer que precisam de ajuda, incapazes de pedir informação quando estão perdidos, por exemplo, é um clássico de autossuficiência.

Daí também porque a dificuldade maior dos homens em buscar ajuda mental profissional.

O que todas as pesquisam têm em comum é que para além do fator genético e hereditário, questões ambientais, sociais e culturais podem moldar muito mais o comportamento e afetar o psicológico das pessoas, levando-as a desenvolver transtornos mentais.

Nos homens, ficou claro que o patriarcado, a visão machista e comportamentos de poder e agressividade frente ao sexo feminino, são fatores determinantes no surgimento de alguma patologia psiquiátrica.

Alguns estudos também constataram alta incidência de primeiro episódio psicótico em minorias étnicas e em áreas com menor porcentagem de casas ocupadas por seus proprietários.

Para o pesquisador da FAPESP, Paulo Menezes, “Isso sugere que as condições socioeconômicas das pessoas e do ambiente onde vivem têm papel importante na etiologia dos transtornos psicóticos. É preciso compreender melhor os mecanismos envolvidos para explicar a variação da incidência desse problema entre populações”.

Mas de relevante, é preciso ficar atento, principalmente à evolução que cada transtorno psicótico pode chegar, sendo que, na maioria dos casos, requer cuidados especializados, que por vezes, passam a vida toda negligenciados.

Como sociedade, é urgente alterar essa forma de convivência social pautada no patriarcado, na qual a figura masculina é muito mais valorizada projetando uma relação de poder e submissão entre os sexos, altamente prejudicial, seja social, cultural ou mental, com reflexos catastróficos para a toda a humanidade.