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Atlas Brasileiro de Telecomunicações

Holofotes se voltam ao FTTx

Publicado em 16 janeiro 2008

Foi dada a largada para o FTTx (fiber-to-the-x, onde "x" pode ser H de home, B de building, P de premises, C de curb, D de desk etc.) no ano de 2007. "Após longas discussões e análises de viabilidade técnica e econômica, ocorreram vários trials e implantações comerciais de FTTx, por operadoras de telecomunicações e incorporadoras de condomínios de luxo", afirma Helio Durigan, diretor de marketing da Furukawa. De acordo com ele, a "corrida" realmente começou e, disse õ diretor, é "irreversível a continuidade de implantação de redes FTTx. A dúvida fica por conta de qual será a taxa de crescimento destas redes daqui para a frente."

Instalar fibra até a porta do cliente traz inúmeras vantagens, como largura de banda praticamente ilimitada e provimento de serviços de transmissão de imagem de alta definição. Além disso, é investir em "redes à prova de futuro", nas palavras de Durigan, que explica: a rede fica preparada para serviços e tecnologias ainda não disponíveis. Por outro lado, os provedores de infra-estrutura têm, para adotar o FTTx, de investir um valor maior do que consome uma rede convencional e necessita de mão-de-obra mais qualificada, tanto para instalar quanto na manutenção da rede.

A Brasil Telecom (BrT) foi uma das que investiu em FTTx. Em 2007, a operadora implantou FTTH e FTTB em Curitiba e Brasília, como informou Marcelo Frasson, diretor de planejamento e infra-estrutura tecnológica da BrT. Entretanto, a companhia também adotou outras tecnologias para fazer o upgrade na última milha de sua rede. "A BrT investiu em FTTx, WiMax e Edge para incrementar a abrangência e a capacidade da rede de acesso." Para 2008, a companhia prevê novos investimentos, mas sem divulgar valores.

Enquanto algumas das empresas do setor de intra-estrutura estão implantando FTTx, há as que desde o início construíram suas redes, incluindo o acesso totalmente — ou quase — em fibra óptica. É o caso da Intelig Telecom, cuja concepção original do negócio foi baseada na idéia do fiber-to the-x. Segundo a assessoria de imprensa, a Intelig atua, desde sua criação, com atendimento diretamente com fibra até o endereço final. Sua carteira de clientes de dados é focada no mercado corporativo e cerca de 75% dos atendimentos são realizados com fibra própria até o endereço final do cliente. Os outros 25% dos atendimentos utilizam-se de última milha alugada de outros provedores de acesso para complementar a rede em regiões onde a operadora não possui rede própria construída.

Os acessos da Global Crossing, que atua unicamente no mercado corporativo, também são principalmente em fibra, com uma menor participação de enlaces de rádio, informa Yuri Menck, responsável por marketing de produtos de dados da companhia no Brasil.

No Paraná, a maioria dos clientes corporativos da Copel Telecomunicações é atendida com fibra até a sua porta. Poucos são os casos de acesso por rádio.

Outra empresa do setor energético, a Infovias conta com praticamente 100% do acesso de última milha em fibra óptica. Como carrier de carrier, ela fornece o acesso para as operadoras de telecomunicações atenderem ao mercado corporativo, que são os clientes finais, explicou Paulo Augusto Tozo, gerente comercial da Empresa de Infovias. A prioridade da empresa mineira, durante o ano de 2007, foi na ampliação de sua rede de acesso  local, que consumiu um montante de cerca de R$ 10 milhões nos três primeiros trimestres. Para 2008, a Empresa de Infovias continuará investindo "em expansão da cobertura e da penetração das redes, utilizando as tecnologias mais aderentes a cada serviço", afirmou Tozo.

Por outro lado, nem todos consideram o momento adequado para o FTTx. A GVT informa que não tem planos nesse sentido, porque já conta com a rede em ADSL 2+, que permite oferta de banda de até 20 Mbps com alta qualidade. No final de 2007, a oferta comercial da GVT era de até 10 Mbps.

Já os investimentos da Comsat têm sido dirigidos à expansão do backbone de longa distância, ao data center e ao NOC, de acordo com Guilherme Saraiva, diretor de marketing. Ele contou que em outros países da América Latina, como Panamá, Colômbia e Argentina, há projetos de FTTx, mas não no Brasil. Para 2008, estão previstos investimentos "em infra-estrutura de longa distância, data center, gerenciamento de redes e serviços de satélite", disse Saraiva.

Na Eletropaulo Telecom (EPT), que atua em São Paulo, a previsão é explorar mais e mais a rede já existente, por venda principalmente do MetroEthernet, que tem apenas um ano e meio de existência. "Temos um pessoal voltado a projetos de inovação e otimização de custos, sob o ponto-de-vista tecnológico. Mas, por enquanto, nossa conclusão é que não faz

sentido levar a fibra até o cliente, devido ao custo (de implantação)", explicou Teresa Vernaglia, diretora geral da EPT, que presta serviço a outras operadoras.

A aposta em MetroEthernet, de acordo com ela, é pelas características de escalabilidade e agilidade no momento de dimensionar a banda para atender a necessidade de cada cliente. "A infra-estrutura para trafegar tudo é básica, e a Eletropaulo tem capacidade já para nossos clientes, que são as operadoras". Teresa disse que, para as operadoras aumentarem a lucratividade, precisam desenvolver e oferecer produtos e serviços (voz, dados, imagens) para os atuais clientes e assim criar demandas, e ter disponíveis redes com capacidade, com largura de banda para dar vazão aos novos serviços com qualidade. "Além de dispormos da rede física de fibra óptica planejada e bem-estruturada, nossa organização é estruturada por processos; cumprimos prazos e SLAs contratados."

De acordo com a executiva, 90% das solicitações em São Paulo — "estamos presente em 24 municípios, com PIB total de R$ 241 bilhões", diz—, estão a menos de 1 km do backbone da EPT. "Respondemos a uma solicitação geralmente entre cinco e sete horas; nos demais casos, levamos no máximo 30 dias. Na competição do mercado, isso é muito importante", afirmou Teresa, revelando que o crescimento médio anual da empresa nos últimos cinco anos está na casa dos 31%, e que a EPT banca todo seu investimento, sem depender da holding (AES Brasil), e com total autonomia.


Mercado aquecido

Depois do boom de 2000 e 2001, o mercado passou por uma crise que durou três anos, quando as incumbents interromperam as compras de cabos ópticos devido ao grande estoque de material resultante dos Planos de Antecipações de Metas. Lentamente, essas incumbents voltaram a expandir suas redes ópticas metropolitanas a partir de 2005, como recordou Durigan, da Furukawa.

Em 2007, o volume comercializado de fibras ópticas foi de 400 mil km, ou seja, manteve o crescimento desse mercado desde 2005 (veja o gráfico na próxima página). "A demanda do mercado doméstico de 2007 é representada principalmente por estas incumbents, além das empresas do

segmento de utilities (gás e energia) que iniciaram investimento em suas

próprias redes em 2005, utilizando a disponibilidade de sua própria infra-

estrutura (gasodutos, postes)", informa o executivo da Furukawa.

Para Durigan, foram dois os pontos mais marcantes do ano: "A demanda mundial de fibras ópticas de 2007 deverá ser um novo recorde em termo de km fibra (não em faturamento), existindo inclusive a possibilidade de haver falta de fibras ópticas no curto prazo". O segundo ponto foi a "normatização pelo ITU de fibras ópticas de alta performance para pequenos raios de curvatura, desenvolvidas para aplicações em ambientes residenciais", completa o diretor.

"A demanda por banda vem sempre aumentando", conta Saraiva, da  Comsat. "As metas (de 2007) foram excedidas."

Para a Global Crossing, as expectativas em faturamento, resultados financeiros e ampliação da capacidade de oferta de serviço no ano foram superadas.

Entre os serviços de telecomunicações, os principais crescimentos podem ser percebidos nos produtos orientados a IP e MetroEthernet, mais adequados, na opinião do executivo da Global Crossing, ao cenário de transporte de múltiplos serviços e aplicações. "Também é importante observar o crescimento dos serviços de mais alto valor que acompanha este crescimento em infra-estrutura. À medida que as aplicações e as redes ganham complexidade, com adição dos mecanismos de controle de qualidade e administração de tráfego, o cliente precisa de maior apoio para a preparação dos planos de implantação e também para a administração destes ambientes, que normalmente exigem conhecimentos muito específicos e experiências que são difíceis de manter em uma empresa que não tem o dia-a-dia orientado à tecnologia de transmissão", completa Menck.

A Brasil Telecom, que investiu na expansão de quase mil km no seu backbone em 2007, começou nesse ano a oferecer serviços de IPTV e MetroEthernet, que não estavam em seu portfólio. "Um fato marcante foi a entrada da empresa no negócio de entretenimento, com o lançamento do VideOn (IPTV)", revelou Frasson. Para ele, o aumento da demanda por banda é resultado do crescimento dos serviços de vídeo e do número maior de internautas. "Com relação aos serviços, está havendo uma mudança no comportamento dos consumidores, que cada vez mais exigem acesso aos serviços a partir de qualquer lugar, a qualquer hora e com qualquer terminal. Esse comportamento tende a acentuar-se com o incremento da banda larga móvel e dos aparelhos portáteis multifuncionais", completa.

Paulo Tozo, da Infovias, considera em linhas gerais que as aplicações em TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação) provocaram aumento da demanda por banda. "Houve aumento tanto na demanda por banda quanto por serviços, em função do aquecimento da economia nacional e do aumento de crédito. O setor de telecom funciona como um termômetro da economia, por se constituir em infra-estrutura fundamental para o desenvolvimento sustentável. Quando a economia vai bem, o setor de telecom imediatamente é demandado", analisou o executivo.

Para 2008, a expectativa do setor é a demanda por cabos ópticos continuar a crescer de uma forma'um pouco mais acentuada que em 2007. "Estamos muito otimistas. O mercado crescendo e está aquecido, principalmente porque as operadoras estão desenvolvendo novos produtos e serviços que exigem banda", diz Teresa, da EPT.

"Hoje falamos de circuitos MetroEthernet de 100 Mbps, ou mais, com a mesma freqüência e simplicidade com que falávamos de circuitos SDH de 2 Mbps há poucos anos", afirma Menck. Para ele, é resultado das evoluções dos serviços demandados pelos usuários e as crescentes exigências das aplicações. "O que vem aumentando é a demanda por serviços que vão além da simples conectividade, incluindo neste grupo serviços de gestão de redes, telefonia, entre outros."

A BrT pretende para 2008 continuar a investir. "Os principais motores de crescimento da companhia devem continuar sendo os serviços móveis e os produtos associados à banda larga", contou Frasson, prevendo que, "com a entrada das redes 3G e da portabilidade numérica, o mercado deverá ficar ainda mais competitivo e, também, mais inovador".

Dados da Frost & Sullivan indicam excelentes perspectivas para o aumento da demanda por banda nas redes latino-americanas, principalmente com a adoção dos serviços de telefonia IP que aumentará mais rapidamente do que em qualquer outra região. Segundo a consultoria, as empresas latino-americanas já estão alocando uma parte de seus orçamentos para investir em soluções IP.

Para a Global Crossing, o Brasil concentra grande parte do potencial de crescimento da América Latina e deve, por este motivo, receber especial atenção da provedora nos investimentos, que serão direcionados à expansão de sua cobertura de atendimento, na ampliação da capacidade de tráfego de seu backbone e nas estruturas de serviços de valor agregado, como detalha Menck.


Alta nos preços da fibra

Como previsto no final de 2006 pela Furukawa, os preços de fibra no Brasil começaram a subir em 2007. "Internacionalmente, existe uma tendência de aumento dos preços de fibra, motivado pelo crescimento da demanda mundial, sendo que esta tendência está sendo também acompanhada pelo mercado doméstico, pois existe reflexo no preços devido ao aumento dos custos dos insumos."

Quanto às novas tecnologias de fibras, apesar de maneira ainda tímida, o mercado de infra-estrutura começou em 2007 a considerar as fibras especiais já disponíveis. Durigan explica que as fibras low-water peak ou zero-water peak (sem o efeito pico de água) têm, como características, "menor atenuação de transmissão e a possibilidade de utilização da banda 'E' no espectro de comprimento de ondas, o que permite usar na totalidade os recursos da tecnologia C-WDM".


Fiber-to-the-lab

Fibra até o laboratório é um dos recentes termos associados ao FTTx. No segundo semestre de 2007 estava pronta a rede KyaTera, do Programa Tecnologia da Informação no Desenvolvimento da Internet Avançada (Tidia) da Fapesp. A rede de fibra óptica, cujo uso é exclusivo das universidades e centros de pesquisa participantes do convênio (WebLabs), é destinada à realização de pesquisa sobre tecnologias, produtos e serviços para a Internet do futuro, quando grupos de pesquisadores distribuídos pelo mundo poderão interagir eficientemente compartilhando competências e facilidades laboratoriais.

Inicialmente, os equipamentos instalados são de tecnologia DWDM, para transmissão. Num segundo momento (o prazo ainda não estava definido), serão instalados os de rede, Ethernet/IP (para tráfego de dados).