Notícia

FAPERJ - Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro

Holandeses e brasileiros discutem estratégias de inovação para o esporte em seminário no Rio

Publicado em 23 março 2016

Por Débora Motta

A oportunidade de sediar as Olimpíadas deve trazer ao Brasil não apenas medalhas, mas boas chances de estabelecer parcerias no setor produtivo do esporte, com uma maior interação entre universidades, empresas e governo. A cinco meses dos Jogos Olímpicos de 2016, o Rio foi palco de um dia de intensos debates sobre a importância da inovação tecnológica para o esporte, entre pesquisadores holandeses e brasileiros, realizados nesta segunda-feira, 21 de março, na sede da Academia Brasileira de Ciências (ABC), no Centro. No workshop Science on Sports, Health and Movement, eles compartilharam suas experiências nos dois países e deram o primeiro passo para o estabelecimento de colaborações futuras. O evento foi organizado pela FAPERJ e pela Netherlands Organisation for Scientific Research (NWO) – a principal agência holandesa de fomento à ciência, tecnologia e inovação –, com apoio do Consulado da Holanda no Rio e da ABC.

De acordo com o cônsul-geral da Holanda, Arjen Uijterlinde, que participou da cerimônia de abertura do evento, no Auditório da ABC, é preciso orquestrar uma visão ampla de modelos de inovação em esporte, que incluam não apenas os atletas de ponta, mas a população em geral. Afinal, a prática de atividades físicas deve ser popularizada, em nome de um estilo de vida mais saudável. “É muito importante trocar experiências e ter condições de elaborar projetos juntos, entre Brasil e Holanda. Já existem laços que ligam pesquisadores de ambos os países, a partir de iniciativas individuais, mas é importante criar estratégias de articulação mais integradas e agregadoras, para beneficiar não só o esporte de alto rendimento, mas a saúde de toda a sociedade”, afirmou.

A diretora de Tecnologia da FAPERJ, Eliete Bouskela, destacou que a Fundação já vem fomentando diversos projetos na área de inovação em esportes. “Desde 2010, a Fundação vem lançando editais de Apoio ao Desenvolvimento de Inovação no Esporte. É muito importante que haja continuidade no fomento desses projetos após os Jogos Olímpicos”, disse. Entre os projetos financiados pela Fundação na área, ela citou alguns, como o Juçaí – bebida energética obtida a partir da palmeira juçara, que lembra o sabor da fruta açaí, e produzida no município de Resende, sob a coordenação do empreendedor e economista Georges Braile –; a escolinha de futebol Pé de Moleque, voltada para a educação esportiva de crianças e adolescentes no município de Cordeiro, na Região Serrana fluminense, e dirigida por Mayckel de Andrade; e o projeto científico de avaliação do estresse oxidativo de atletas por meio da identificação de biomarcadores na saliva, da professora Verônica Salerno Pinto e do pesquisador Diego Gomes, do Departamento de Biociências da Atividade Física, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que foi contemplado pelo edital Apoio ao Desenvolvimento de Inovações no Esporte.

A gerente de Ciências da Computação no Departamento de Ciências Físicas da NWO, Marije Wassenaar, apresentou o trabalho da agência de fomento holandesa. “Em relação aos recursos humanos, a NWO apoia 5.017 pesquisadores nas universidades e 1.392 nos institutos mantidos pela própria agência, com um orçamento anual de cerca de 820 milhões de euros, repassados pelo Ministério da Educação, Cultura e Ciência, assim como por outros ministérios, como o da Economia, e por parcerias público-privadas. Entre os países emergentes, temos parcerias com China, Índia e Brasil, para dar suporte a pesquisas científicas internacionais. Em 2012, demos início a parcerias com o CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico] e a Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior]”, citou.

A consultora Maaike Romijn, da Taskforce for Applied Research/Birch Consultants, compartilhou sua experiência como articuladora das parcerias público-privadas na Holanda para a inovação em esporte. “Nosso objetivo é fazer com que a ciência chegue de fato ao mercado, favorecendo o desenvolvimento de um ecossistema em que ciência, governo e empresas privadas possam interagir. Um exemplo que ilustra esse esforço na Holanda é o Sport Data Valley, um centro virtual de compartilhamento de dados obtidos em diversas pesquisas na área de inovação em esportes, que está sendo lançado este ano”, explicou.

Para o assessor da Diretoria de Tecnologia da FAPERJ, Antonio Paes de Carvalho, esse é o desafio brasileiro. “Nossa meta é criar um ambiente favorável para conectar a ciência com a indústria, com a transferência de novas ideias e novas tecnologias por spin-offs”, ponderou. “A troca de experiências que está ocorrendo neste seminário é fundamental para este avanço nas políticas públicas. Acredito que esse encontro vai resultar em uma grande colaboração, por meio de joint-ventures”, completou Paes de Carvalho, que é presidente da empresa Extracta e professor titular do Instituto de Biofísica, do Centro de Ciências da Saúde, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Por sua vez, o pesquisador e professor Antonio Claudio da Nóbrega, do Instituto Biomédico da Universidade Federal Fluminense (UFF), lembrou que o esporte deve ser compreendido como parte de um conceito mais amplo, o de exercícios físicos. “Esporte é para atletas, enquanto que exercícios físicos incluem a população em geral, não atleta, mas que precisa cuidar da saúde”. Ele está à frente de diversas pesquisas sobre a relação dos exercícios físicos com a síndrome metabólica e a hipertensão e, especialmente na área de inovação para esportes, desenvolveu um teste específico para avaliação cardiopulmonar de lutadores de taekwondo. “Estamos desenvolvendo um protocolo individualizado, que atenda às especificidades dos atletas de taekwondo, para medir o consumo máximo de oxigênio que eles podem atingir durante a luta”, disse. “Em qualquer esporte, o conhecimento dos processos fisiológicos envolvidos é mandatório para otimização do treinamento e melhora da performance. Entretanto, desconhecem-se as respostas cardiorrespiratórias e metabólicas de treinos de combate, bem como não existem protocolos específicos para avaliação aeróbica de praticantes de lutas”, completou.

O professor Claudio Gil, da empresa de medicina do esporte Clinimex, traçou um panorama das inovações que desenvolveu ao longo da sua carreira. “Desenvolvemos com sucesso técnicas e métodos na área de inovação em esportes, como o teste de sentar-levantar (sitting-rising test), que prediz como está a saúde de acordo com a capacidade de sentar no chão e se levantar rapidamente, sem apoio das mãos e com boa postura; o teste de exercício de quatro segundos, para avaliação do tônus cardíaco; e o flexiteste, para avaliar a flexibilidade do corpo. Esses testes talvez possam vir a ser utilizados em estudos futuros na Holanda”, disse o pesquisador, que prestou consultoria para o desenvolvimento pela Inbrasport de um modelo de cicloergômetro, equipamento para testes físicos (especialmente indicado para cadeirantes e pacientes com incapacidade de caminhar ou pedalar). “Esse seminário já pode ser incluído como mais um item no rol do legado das Olimpíadas. Alguns equipamentos holandeses podem ser experimentados no Brasil, trazendo inovação tecnológica, e alguns protocolos desenvolvidos no nosso país podem ser testados na Holanda. Podemos encontrar pontos de interesse comum para colocar a ciência a serviço da população e dos atletas”, ponderou.

A pesquisadora de Políticas Públicas Maureen Flores do Valle, pós-doutora pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), observou que as soluções em ciência e tecnologia desenvolvidas para suprir a necessidade dos grandes eventos esportivos deixam um legado que vão além deles. “Na verdade, os impactos econômicos e sociais para uma cidade que recebe um grande evento esportivo como a Copa ou as Olimpíadas não podem ser contabilizados imediatamente. Dois anos depois da realização, ainda é possível observar efeitos sociais e econômicos”, disse. “Porém, sediar um megaevento esportivo não deve ser uma estratégia por si só para uma cidade, mas sim a consequência de políticas públicas contínuas e planejadas. No Brasil, deveria haver a combinação de políticas públicas com a mão invisível do mercado”, destacou.

Já o pesquisador Fábio Porto, doutor em informática do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), de Petrópolis, na Região Serrana do estado, falou sobre a contribuição da instituição para o esporte, especialmente com o projeto Laboratório Olímpico, o primeiro centro de pesquisa latino-americano para monitorar e dar suporte a atletas de alta performance. “O Laboratório Olímpico vai funcionar durante os Jogos dentro do Parque Aquático Maria Lenk”, disse. O projeto foi financiado pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep/MCTI) e tem como membros, além do LNCC, o Comitê Olímpico Brasileiro, a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), o Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e outras entidade acadêmicas. Outra novidade é o Sistema de Apoio Holístico ao Atleta (SAHA), um programa de pesquisa em modelagem computacional centrado no método científico em apoio à melhoria de desempenho dos atletas, desenvolvido pelo laboratório DEXL (Extreme Data Lab) do LNCC, como contribuição científica ao Laboratório Olímpico. “O SAHA é um sistema voltado aos atletas de alto rendimento que permite comparação entre esportistas em uma mesma modalidade, na procura de padrões metabólicos, assim como acompanhamento e planejamento individual dos atletas”, acrescentou Porto.

O professor Aarnout Brombacher, da Universidade de Eindhoven, apresentou um panorama histórico da cultura da inovação holandesa na área de esportes. “Na Holanda, podemos dizer que há três fases diferentes na história do desenvolvimento da inovação em esportes. Nos anos 1960, havia muita pesquisa sobre disciplina tática, com base em conceitos da filosofia e da sociologia. No time de futebol holandês, por exemplo, o objetivo era como formar e motivar um time com jogadores talentosos. Nos anos 1990, tivemos um forte avanço na ciência dos materiais, com roupas desenvolvidas em tecidos especiais, como aquelas utilizadas para a prática de speed skating e de natação. Atualmente, há um grande esforço para o desenvolvimento de equipamentos digitais integrados aos corpos dos esportistas e do uso da computação de dados para aprimorar o desempenho dos atletas”, resumiu.

Brombacher coordena o programa “Pessoas, Esportes e Vitalidade”. Além disso, ele é idealizador do projeto “Cidade Vital”, realizado em parceria com a Universidade Fontys de Ciências Aplicadas, Esportes e Tecnologia, entre outros. O objetivo desta atividade é transformar alguns bairros holandeses em living labs, que seduzam seus moradores a participarem de atividades físicas e esportivas com o propósito de terem um estilo de vida mais saudável. Ele também faz parte do Topteam Sport. Trata-se de uma iniciativa do governo holandês, que juntou empresas, institutos de pesquisa e organizações governamentais para promover inovação e pesquisas na área esportiva. Nesse escopo, o programa Sportinnovator foi lançado no final de 2014, pelo Ministério da Saúde, Bem-Estar e Esportes, e visa apoiar ideias, projetos e centros voltados para inovação nos esportes.

Depois da visita ao Rio, o grupo de pesquisadores e gestores holandeses seguiu para São Paulo, onde participa do seminário “Esporte e Vida Saudável”, promovido pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Nessa mesma semana, a Orange Sports Forum (OSF – plataforma de empresas holandesas ligadas ao esporte e à inovação nessa área) também realiza uma missão exploratória no Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo.

Também participaram do debate os pesquisadores e/ou gestores Jacomine Ravensbergen, da Faculdade de Esportes e Nutrição da Universidade de Amsterdã de Ciência Aplicada (HvA); Carla Guimarães, do Instituto Nacional de Tecnologia (INT); Bake Dijk, da Universidade de Utrecht de Governança/Instituto Hanze de Esportes, que desenvolve pesquisa no Brasil sobre o legado dos Jogos Olímpicos em parceria com a professora Carly Machado, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ); Marije Baart, da Universidade de Amsterdã de Ciências Aplicadas/Inholland University; Kasper Bakker, da Universidade HAN de Ciências Aplicadas; Monique Berger, da Universidade de Ciências Aplicadas de Haia; Daan Bregman, da Universidade de Tecnologia de Delft; Marije Elferink-Gemser e Koen Lemmink, da Universidade de Groningen; Joris Hoeboer, da Universidade de Haia; Thomas Janssen, Marjan Olfers e Dirkjan Veeger, da Universidade Livre de Amsterdã; Tim Kernebeek e Cees Vervoorn, da Universidade de Ciências Aplicadas de Amsterdã; Joost Kok, da Universidade de Leiden; Otto Koppius, da Universidade Erasmus (Escola de Administração de Roterdã); Kamiel Maase, do Comitê Olímpico da Holanda; Frank Meulen, da Universidade de Tecnologia de Delft; Peter Taschner, da Universidade de Ciências Aplicadas de Leiden; entre diversos outros representantes da academia brasileira e holandesa.