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G1

Histórias em quadrinhos ganham espaço (e destaque) na educação superior

Publicado em 28 setembro 2018

Até pouco tempo atrás, as histórias em quadrinhos (HQs) eram utilizadas em grande parte pelo público infantojuvenil. No entanto, por integrar imagem e texto de forma atraente e objetiva, a linguagem das HQs tem sido utilizada com frequência por pesquisadores, interessados em traduzir informações complexas para o público leigo e os jovens em particular.

O Conselho Europeu de Pesquisa (ERC), responsável pelo investimento de cerca de 17% do orçamento de 77 bilhões de euros do principal programa científico a União Europeia, tem linha de apoio exclusivo para a produção de HQs, a ERCcComics. Esse programa financia quadrinhos on-line inspirados em projetos realizados pelos pesquisadores do ERC.

Revistas científicas consagradas também utilizam os quadrinhos na divulgação de pesquisas. Em 2015, a Science, uma das revistas acadêmicas mais prestigiadas do mundo, publicou em HQ um guia em comemoração ao centenário da teoria da relatividade geral de Albert Einstein. No mesmo ano, a Nature lançou “Fragile Framework”, quadrinho que relata os esforços, nas últimas décadas, para chegar a um tratado internacional do clima.

Para o autor da Fragile Framework, o matemático e cartunista Nick Sousanis, “a ciência necessita de recursos visuais para ser mais bem compreendida pelo público”. Em 2014, a tese de doutorado de Sousanis foi toda ela apresentada em quadrinhos, na Universidade Columbia, em Nova Iorque. Posteriormente, o trabalho dele foi publicado no Brasil com o nome “Desaplanar”.

Já a novela gráfica “Neurocomic”, feita em coautoria pela neurocientista Matteo Farinella, também da Universidade Columbia, desvenda os principais mecanismos do funcionamento do cérebro e acaba de ser lançada no Brasil. “O verdadeiro valor das HQs é que elas podem envovler os leitores que são menos propensos a buscar outras forma de comunicação científica”, salienta Farinella.

Segundo ele, as HQs, no entanto, ainda são vistas com preconceito: “os quadrinhos são vistos como uma ferramenta apenas para tornar a ciência mais divertida e acessível às crianças. Para ele, os quadrinhos podem ser usados para falar de assuntos complexos, sem promover simplificações rasteiras”. Além da “Fragile Neurcomic”, Farinella criou o Cartoon Science, site que reúne cerca de 85 quadrinhos de ciências.

Realmente, especialistas afirmam que os quadrinhos não devem ser vistos apenas como um truque capaz de atrair crianças e jovens para o universo da ciência. Personagens antropomórficos e metáforas visuais também têm o poder de conquistar o público mais amplo, como o público acadêmico, facilitando, assim, o aprendizado.

A bióloga e pesquisadora Carly Melissa Tribull, da Universidade de Houston, dos Estados Unidos, publicou ano passado um guia, intitulado “Annals of the Entomological Society of

America”, com recomendações para cientistas que desejem criar suas próprias HQs. O que separa quadrinhos de livros ou artigos científicos é que as HQs precisam de uma ordem específica de imagens para contar uma história.

Os estudos dos gibis e suas aplicações em sala de aula podem ser conferidos em trabalhos, livros e artigos publicados por acadêmicos que se dedicam às HQs há várias décadas. O Brasil, por exemplo, é único país no mundo que possui uma disciplina voltada para o estudo de quadrinhos que existe continuamente desde a década de 70.

A educação superior em quadrinhos começa a tomar forma no Brasil. Em maio deste ano, o Centro de Pesquisa, Inovação e Disseminação em Neuromatemática (NeuroMat), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), lançou “Os Braços de Nildo e Rony”, uma HQ que orienta pacientes com lesão traumática do plexo braquial, que é um conjunto de nervos responsáveis pela comunicação entre o cérebro e os membros superiores. A história relata o encontro de um motoboy, Nildo, que sofreu um acidente de moto, e um médico, Rony, que levou um tiro em um assalto a mão armada. Os dois lesionam o plexo braquial e têm perda parcial dos movimentos dos braços. A HQ foi produzida com o objetivo de informar pacientes e familiares sobre essa doença, que deixa sequelas mesmo após a cirurgia.

Na Universidade de Fortaleza (Unifor), o professor Daniel Camurça já usa os quadrinhos em suas de direito há quatro anos. Segundo ele, que é orientador do Grupo de Pesquisa Justiça em Quadrinhos da Unifor, “os alunos, por meio de ensino prático, podem aprender importantes conceitos, tais como ética, cidadania e justiça, para compreender e analisar as formas pelas quais as mídias edificam a ação jurídica diariamente”.

Com o objetivo de fortalecer o uso das HQs como ferramenta de difusão do conhecimento científico, a Unifor, por meio do Grupo de Pesquisa em Filosofia do Direito e Justiça em Quadrinhos, do Centro de Ciências Jurídicas, realiza nos dias 1º e 2 de outubro o I Colóquio Justiça em Quadrinhos, apresentando um método diferente de ensinar o Direito e que vem sido tema de pesquisa por professores da instituição.

Podem participar do colóquio estudantes, professores, pesquisadores e demais interessados na área de comunicação, semiótica, história, antropologia, sociologia, política, filosofia, direito e psicologia. As inscrições do I Colóquio Justiça em Quadrinhos podem ser feitas no local. O evento contribui também na reflexão sobre fronteiras entre direito, política, filosofia e produção de mídias. Quem participar do evento será beneficiado com a ampliação dos conhecimentos, além de certificação equivalente a 2 horas/aula complementares por sessão.

Os participantes do evento terão acesso a uma forma de aprendizagem interdisciplinar. Ao ler uma nova mídia, os estudantes, professores e pesquisadores poderão refletir sobre suas pesquisas dentro de um campo muito mais vasto. “Temos, como professores, o papel de formar, com excelência, profissionais multifuncionais, capacitados a entender e atuar de maneira holística no mercado”, frisa o professor Camurça.

I COLÓQUIO JUSTIÇA EM QUADRINHOS E FILOSOFIA DO DIREITO CCJ/UNIFOR

PROGRAMAÇÃO

DIA 01/10

Conferência de Abertura: Educação: uma aventura pelos quadrinhos

Raymundo Netto – Quadrinista. Gestor de Projetos da Fundação Demócrito Rocha

Horário: 08h-09:30h

Auditório A4

Mesa redonda: Identidade constitucional e a relação entre direito e moral

Prof. Ms. Paulo de Tarso Fernandes de Souza

Prof. Ms. Desireé Cavalcante Ferreira

Mediador: Prof. Dr. Daniel Camurça Correia

Horário: 10h-11:30h

Auditório A4

Palestra: Entre as sarjetas: Quadrinhos e política

Márcio Moreira dos Santos Filho - Mestrando/UFC

Horário: 13:30h-15h

Auditório A4

Palestra: Vara da infância e juventude em Fortaleza: realidades e perspectivas

Prof. Ms. José Vagner de Farias

Horário: 19h-20:30h

Auditório A4

DIA 02/10

Palestra: Desenho da memória: Quadrinhos como representação das diferentes realidades

Prof. Pedro José Arruda Brandão - Produtor. Mestrando PPGC-UFC

Horário: 08h-09:30h

Auditório A4

Palestra: Estudando os vingadores: Super-heróis como objeto de pesquisa

Antonio Davi Delfino Ferreira – Quadrinista/Ilustrador. Mestrando PPGC-UFC

Horário: 10h-11:30h

Auditório A4

ST1 – Justiça em Quadrinhos

Coordenador: Prof. Dr. Daniel Camurça Correia

Horário: 15:30h-17h

Sala K36

ST2 – Filosofia do Direito

Coordenador: Profa. Dra. Aline Passos Maia

Horário: 15:30h-17h

Sala K34

Mesa redonda: Autonomia e produção de mulheres na pesquisa e no mercado de quadrinhos

Débora Cristina Lima dos Santos

Amanda Gonçalves Alboino

Jéssica Gabrielle de Menezes Lima

Rute Oliveira de Aquino

Horário: 17:30h-19h

Auditório B42/44

Conferência de encerramento: Imagem e cidade: A “grande cidade” nas graphics novels de Will Eisner

Prof. Mestrando José Rener de França Silva

Horário: 19h-20:30h

Auditório B42/44

I Colóquio Justiça em Quadrinhos

Data: 1 e 2 de outubro de 2018

Horário e local: de acordo com a programação

Mais informações: (85) 3477-3125