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História da Eternidade

Publicado em 22 fevereiro 2005

Por Jair Stangler
Trezentos anos depois da publicação da primeira tradução de As mil e uma noites do árabe para o francês, os leitores de língua portuguesa finalmente poderão apreciar uma tradução direta do original. O lançamento da Editora Globo está previsto para o próximo mês. A tradução foi feita por Mamede Mustafa Jarouche, professor do curso de árabe da Universidade de São Paulo (USP) e tradutor de dois outros textos clássicos da literatura árabe: As cento e uma noites e o Livro de Kalila e Dimna.
O manuscrito mais antigo de As mil e uma noites data do final do século 13, mas a obra só se tornou conhecida no Ocidente no século 18, graças ao francês Antoine Galland, que publicou sua versão de As mil e uma noites em 1704. Sua tradução, no entanto, é considerada de má qualidade: "Hoje em dia você não pode dizer que o trabalho de Galland é uma tradução", diz Jarouche. "Mas em 1704 era o que dava para fazer."
A despeito dos inúmeros erros cometidos por Galland, sua versão de As mil e uma noites tornou-se a mais popular. Jorge Luis Borges, no ensaio "Os tradutores das Mil e uma noites", observa que a versão de Galland "é a mais mal-escrita de todas, a mais mentirosa e mais fraca, mas foi a mais bem lida" — entre seus leitores, Borges lista Thomas de Quincey, Coleridge, Stendhal, Tennyson, Edgar Allan Poe e Newman.
No Brasil, um dos leitores mais ilustres das Mil e uma noites foi Machado de Assis, que em 1882 prefaciou uma edição de Contos seletos das mil e uma noites, com tradução de Carlos Jansen a partir da edição em alemão de Franz Hoffmann.
Até agora, todas as traduções feitas para o português eram realizadas a partir do francês, do inglês e do alemão. "Galland foi traduzido mais de uma vez, não é nenhuma coisa notável. O Mardrus tem uma tradução, que saiu pelo Clube da Leitura. E tem a tradução do Rene Khawam. Não são coisas que se possa dizer importantes", explica Jarouche.
Partindo desse argumento, ele afirma que sua tradução pode ser considerada a única em língua portuguesa, porque se atém ao original, coisa que as outras traduções não fazem, "até porque são traduções de segunda mão. São traduções que quando foram vertidas para o francês já foram infiéis. E do francês para o português certamente há mais uma perda aí".
Jarouche diz que o interesse pelas Mil e uma noites é antigo, mas, como o trabalho é muito vasto, ele nunca havia se entusiasmado: "Eu pensava: 'não vou ter forças'. é uma quantidade de textos muito grande". Por isso, ele reconhece como fundamental o apoio de seu amigo e orientador, o professor João Adolfo Hansen, um dos primeiros a incentivá-lo na tradução de As mil e uma noites.
Diz ainda que sem o empenho de seu amigo e editor Joaci Pereira Furtado o trabalho não teria sido possível. "Nós nos conhecemos na universidade, e ele foi trabalhar na Editora Globo. E desde que ele foi para lá, queria que eu fizesse As mil e uma noites", conta Jarouche. Depois de uma negociação que começou em 2001, e só foi concluída em 2003, a editora e o tradutor chegaram a um acordo.
As pesquisas para a tradução iniciaram-se ainda antes, em 2000, quando Jarouche fez seu pós-doutorado no Cairo, com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo — FAPESP. A produção do texto em português começou no segundo semestre de 2003 e a previsão é de que até o final de 2006 os cinco volumes da obra estejam nas livrarias.
Joaci está feliz com o resultado do trabalho. "Este é, com certeza, o acontecimento editorial do ano e, talvez, da década." Ele acredita também que a possibilidade de finalmente realizar essa tradução no Brasil mostra um "amadurecimento acadêmico" do país: "Temos gente capacitada para traduzir do árabe na universidade pública. Há gente para traduzir do chinês, do romeno e de outros idiomas que podemos chamar de 'exóticos'.
A principal fonte do trabalho de Jarouche foram os três volumes do manuscrito árabe da Biblioteca Nacional de Paris. Além disso, o tradutor cotejou esses manuscritos com quatro das principais edições árabes do livro: a edição de Breislau (1825 — 1843), a edição de Bulaq (1835), a segunda edição de Calcutá (1839 — 1842) e a edição de Leiden (1984). E para suprimir lacunas dos manuscritos originais e apontar variantes de interesse para a história das modificações operadas no livro, utilizou ainda quatro manuscritos do chamado ramo egípcio antigo.
A edição traz uma detalhada introdução, na qual Jarouche discorre sobre a origem árabe das narrativas. Apresenta ainda centenas de notas sobre aspectos lingüísticos ou que explicam o cotejo entre manuscritos e edições árabes, além de anexos com traduções de passagens do livro que possuem mais de uma redação. Os volumes seguintes também conterão notas e anexos. Há um outro aspecto da tradução que vale destacar: os nomes não apenas foram mantidos no original como também grafados pelo alfabeto fonético internacional, com uma explicação dos símbolos utilizados, permitindo que o leitor possa conhecer também sua pronúncia correta.
Jarouche conta que preferiu não utilizar outras traduções para orientar seu trabalho. "Em geral, não dá para confiar nas outras traduções. Não vale a pena. Quando fui comparar com traduções francesas e inglesas, foi inútil. Eles pulavam os trechos mais confusos. O sujeito pensa: 'vou pesquisar dez dias por causa dessa palavra?'." Conta que para tentar resolver algumas questões mais complicadas, precisou da ajuda de amigos no Cairo.
A tradução de Jarouche prima pelo rigor. Ele sempre privilegiou o original mais antigo. Por isso, suas principais dificuldades foram de vocabulário e de sintaxe: "De um lado, você tem palavras que não sabe mais o que são. De outro, tem construções que você não sabe mais o que são". "Você também tem construções que não sabe como pôr em português", explica ele. Nesses casos, Jarouche optou por fazer uma tradução literal e colocar a explicação em uma nota. Ele lembra ainda o caso de expressões que têm uma falsa relação semântica. Cita como exemplo a expressão "arregaçar as mangas", que entre nós significa "tornar-se sério". Para o árabe, a expressão "arregaçar as mangas da seriedade" significa deixar de ser sério.
Algo que sempre incomodou os tradutores de As mil e uma noites foi o forte conteúdo sexual da obra. Borges conta que o primeiro tradutor britânico das Mil e uma noites, Eduardo Lane, descartou trechos inteiros e ainda justificava sua atitude no corpo do texto: "Passo por alto um episódio dos mais repreensíveis."; "Suprimo uma explicação repugnante.". Jarouche diz que traduziu tudo sem qualquer objeção. Além de garantir maior fidelidade com relação ao original, Jarouche acha isso interessante, "porque o livro das Mil e uma noites quebra um pouco o estereótipo feito sobre as mulheres muçulmanas, no qual elas aparecem como reprimidas e submissas, mostrando que a sociedade islâmica não é tão rigorosa como se acredita".

Jair Stangler é jornalista