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USP - Universidade de São Paulo

História da África ganha destaque em projeto de democratização do acervo do IEB

Publicado em 12 novembro 2009

Por Luiza Caires

Estudiosos, historiadores e interessados em geral na história das relações do Brasil com a África terão à disposição uma nova e importante fonte de pesquisa. Trata-se do projeto Brasil-África, em curso no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, que proporcionará acesso ao rico acervo da unidade no tema. Até o fim de 2010, serão cerca de 700 títulos catalogados e resumidos online, para que os usuários encontrem o que estão procurando com mais facilidade. Destes, aproximadamente 400 serão integralmente digitalizados e disponibilizados na internet.

Já há alguns anos, o IEB segue uma diretriz de procurar ampliar o acesso aos seus acervos por meio da digitalização. O que não é uma tarefa tão simples: digitalizar obras antigas e raras exige um processo artesanal e, muitas vezes, custoso. Mas o investimento é justificado, como afirma a historiadora e pesquisadora da unidade responsável pelo projeto, Márcia Moisés Ribeiro: "como todo projeto de digitalização, a intenção é democratizar o conhecimento. E o IEB tem um dos mais importantes acervos de obras raras do estado de São Paulo."

Para Márcia, é preciso fazer com que os livros cheguem até as pessoas. "Livros não são feitos para ficarem escondidos nos fundos de uma prateleira", enfatiza.

As obras que fazem parte do projeto Brasil-África incluem os mais diversos assuntos relatando a história deste continente, intimamente ligada à do Brasil: geografia, biologia, guias de viagens, e ciências.

Escravidão e saúde

A seção de ciências abriga o acervo utilizado em um projeto de pesquisa do IEB, também coordenado por Márcia com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp), e que analisa os principais tratados médico-cirúrgicos destinados à cura das doenças dos escravos na América portuguesa do século XVIII. O estudo procura, ao mesmo tempo, estabelecer comparações com livros do mesmo gênero relativos ao Caribe francês, já que, no período em questão, foram enviados médicos e cirurgiões para as duas regiões com a finalidade de evitar os constantes prejuízos causados pela mortalidade dos negros.

Para a pesquisadora, "trata-se de um tema riquíssimo e que, apesar de estar despertando atenção crescente dos historiadores, principalmente dos estudiosos da escravidão, ainda carece de análises mais profundas".

Apesar de o acervo conter obras desde o século XVI que mencionam a questão, é no século XVIII que ela começa a ter mais relevância, tanto por razões econômicas (as dificuldades no tráfico tornam importante estender o tempo de vida e, portanto, de trabalho dos escravos) quanto ideológicas: os ideais humanitários e de fé na ciência próprios do Iluminismo.

A comparação dos tratados por região, ainda em estágio inicial, já denota um tratamento superior dos escravos africanos em colônias francesas em relação aos da América portuguesa. "Encontramos, no primeiro grupo, projetos de construção de hospitais para escravos, e estímulo à prevenção de doenças e à boa alimentação, que deveria incluir itens como peixe e leite.", conta Márcia. No Brasil, o fubá e o angu, carboidratos, eram a base da alimentação, embora também se encontrem textos recomendando uma dieta mais rica.

Uma das obras disponíveis no IEB utilizada pela pesquisadora foi Governo de Mineiros (1770), de José Antônio Mendes. Nela, conforme descreve Márcia, "a abordagem dos males mais comuns entre os cativos nas Minas aparece diretamente relacionada à questão do trabalho, enfaticamente à extração do ouro e das condições materiais às quais eles estavam submetidos".

O contato com a friagem e a umidade fez o autor dedicar várias páginas de seu tratado a comentários sobre doenças pulmonares, com indicações de tratamentos tradicionais ao lado de práticas da arte médica européia, como as sangrias.

As hemorragias intestinais, pela alimentação ruim e pelo consumo de água misturada com terra ou ferrugem, também aparecem como preocupação, juntamente com o hábito dos negros de trabalharem descalços, que os expunha a constantes perigos.

O autor recomendava aos senhores que tivessem tesouras, agulhas de cirurgia, tentas e remédios necessários "...porque o custo é bagatela e suponde que pelo não teres prontos, vos morre um escravo, e ainda que não suceda senão de dez em dez anos, perdeis mais do que vos custam esses... que vos digo, e desencarregais a vossa consciência em acudires ao vosso escravo, e neste caso também o vosso próximo..." Neste exemplo específico, como explica a professora, "muito mais que princípios humanitários ou de caridade cristã, a grande ênfase recai sobre a questão do interesse."