Notícia

Gazeta Mercantil

Hidrólise, uma pesquisa a desenvolver

Publicado em 26 janeiro 2007

A celulose da cana pode ser usada para aumentar a produtividade do etanol. Em 1907, o compêndio "A química e o comércio", de Robert Kennedy Duncan, professor da Universidade do Kansas, depois de destacar que "um dos maiores desenvolvimentos da década passada foi o motor de combustão interna", afirmava: "Em termos econômicos, a substituição da gasolina, nestes motores, por álcool, é muito controversa. Mas alguns fatos são inquestionáveis. Álcool é reproduzido segundo o ciclo das estações do ano; é absolutamente inesgotável; é feito por luz do sol e ar; e sua produção não diminui o valor do solo ou a energia da Terra. Gasolina, ao contrário, representa uma parte da energia estocada no planeta; existe apenas na proporção de 2% do petróleo, e seu fornecimento, no futuro, inevitavelmente irá entrar em colapso".
Cem anos depois, o mundo todo afinal parece perceber que álcool pode substituir a gasolina como combustível para veículos. Terça-feira passada, em seu discurso sobre "O Estado da União", o presidente Bush destacou, mais uma vez, a importância, para os EUA, da estratégia de intensificação do uso de álcool como substituto da gasolina.
O Brasil tem tido um papel importante no aprendizado mundial sobre energia para veículos. Desde 1931, há legislação no País determinando a adição de álcool à gasolina. A partir de 1975, o Proálcool criou a maior experiência mundial de uso de álcool como combustível.
O custo de produção do etanol de cana-de-açúcar no Brasil é o menor do mundo, seguido de perto pelo custo do etanol de milho norte-americano. O etanol de cana tem a vantagem valiosa de ser energeticamente positivo: produzir um litro de etanol de cana consome um décimo de litro de petróleo; para a produção de um litro de etanol de milho, o consumo é de quase 1 litro de petróleo. Desde que Martim Afonso de Souza introduziu a planta de cana no Brasil em 1532, a importância econômica do açúcar trouxe um contínuo esforço para aperfeiçoar seu cultivo. Nossa vantagem atual vem sendo conquistada desde então. Tudo isso cria uma situação bastante favorável para o País aproveitar a oportunidade de produzir e vender etanol para o mundo; e também de vender tecnologia de produção de etanol de cana.
Porém... sempre há um "porém". O "porém" da competitividade do etanol de cana brasileiro resulta do avanço de certas tecnologias que podem viabilizar comercialmente a produção de etanol a partir de celulose. Celulose é a matéria-prima abundante no mundo vegetal. No caso da cana, por exemplo, forma um terço da planta - terço esse que, atualmente, não é utilizado para a produção de etanol. Há muita celulose no lixo, nos resíduos agrícolas - de modo que já se pode imaginar a possibilidade de transformar lixo e resíduos em etanol. Dessa forma, sem aumentar a área plantada com cana ou com milho, mais etanol poderia ser produzido.
Avanços científicos e tecnológicos para dar escala e custo viável ao etanol obtido de celulose vêm sendo feitos por pesquisadores de instituições acadêmicas e, principalmente, de indústrias dos Estados Unidos, Canadá, Japão, Índia e China. A tecnologia mais promissora nesse campo é chamada de hidrólise. Na hidrólise, as moléculas de celulose são quebradas por reações químicas e transformam-se em moléculas de açúcar. Este açúcar pode então ser fermentado para gerar o etanol. Várias empresas nos EUA e Canadá trabalham no desenvolvimento desta tecnologia, usando conhecimentos gerados em universidades, laboratórios governamentais e nas próprias empresas.
O aperfeiçoamento das tecnologias de hidrólise levará o custo do etanol de celulose a se tornar competitivo em relação ao custo da gasolina e do etanol de cana brasileiro, pois será possível produzir etanol de "serragem, de mato e de resíduos agrícolas", como afirmou o presidente Bush em seu discurso ao Congresso dos EUA. Isso não significará o fim do etanol de cana. A celulose presente na cana poderá ser hidrolisada para aumentar a produtividade e a competitividade do etanol brasileiro. Mas para que isso aconteça é preciso que aprendamos, no Brasil, como fazer isso: quais as reações químicas envolvidas, como otimizá-las, como fazer estas reações funcionarem continuamente numa fábrica. Para resolver esses problemas, é necessário organizar a pesquisa científica e tecnológica em empresas, universidades e institutos de pesquisa.
No momento, o esforço brasileiro de pesquisa sobre hidrólise é pequeno e desarticulado, embora alguns excelentes pesquisadores atuem em temas associados nas melhores universidades e institutos de pesquisa. O Brasil tem o essencial para a tarefa - cientistas capacitados e uma infra-estrutura de pesquisa bem instalada. Trata-se, portanto, de se articular os pesquisadores em uma rede de pesquisa, para aproveitar as complementaridades existentes e criar as condições para que ataquem o problema de forma sistemática e abrangente. Para que os resultados tenham impacto sobre os processos de fabricação, é essencial que o esforço envolva também centros de pesquisa empresariais. Há empresas no Brasil que têm capacidade tecnológica para participar deste esforço em condições muito competitivas.
Poucas vezes na história do Brasil houve uma oportunidade tão boa como a que nos é apresentada pelo interesse mundial pelo etanol. Criar riqueza e desenvolvimento criando conhecimento: este é o jogo que o mundo desenvolvido está jogando, e no qual temos uma oportunidade de ouro para entrar em condições superiores a todos os demais jogadores.

Carlos Henrique Brito Cruz - Diretor científico da Fapesp, ex-reitor da Unicamp