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Heparina é bem superior à cloroquina, revelam dois estudos brasileiros sobre coronavírus

Publicado em 16 maio 2020

Dois estudos feitos no Brasil, ambos com 80 pacientes infectados pelo coronavírus, mostram que a heparina, medicamento anticoagulante, teve um resultado muito superior à cloroquina no combate à doença. Apesar de os estudos serem preliminares, o resultado impressiona pela superioridade da eficiência da heparina. Os dois estudos foram feitos por fundações e universidades públicas do Brasil.

Em um dos estudos, que não estão relacionados, a médica Elnara Negri, que atua no Hospital das Clínicas da USP (universidade pública do estado de São Paulo) e no Hospital Sírio Libanês, prescreveu heparina, um dos medicamentos anticoagulantes mais usados no mundo para 80 pacientes. Em menos de 18 horas o nível de oxigenação da paciente melhorou. “Após esse dia, tratamos cerca de 80 pacientes com Covid-19 e, até agora, ninguém morreu. Atualmente, quatro estão na UTI [Unidade de Terapia Intensiva] e os demais ou estão na enfermaria ou já foram para casa”, afirmou em reportagem de Karina Toleto, da Agência Fapesp.

O resultado é bastante diferente de outro estudo com cloroquina feito com 81 pacientes, a mesma amostra do estudo feito na USP. Esse estudo, feito pela Fiocruz e Fundação de Medicina Tropical da Universidade de Manaus, mostrou que a taxa de morte nos pacientes que foram tratados com o medicamento cloroquina é semelhante à dos que não foram tratados com o remédio.

Ou seja, a cloroquina se mostrou ineficaz no tratamento do coronavírus. Dos 81 pacientes internados que foram tratados com o medicamento, 11 vieram a falecer. A taxa de mortalidade registrada em pacientes em condições semelhantes e que não foram tratados com a cloroquina é de 18%, semelhante ao apontado em estudos interacionais, incluindo os realizados pela China. ( LINK sobre o estudo )

Já a pesquisa com o uso da heparina na USP parte de uma mudança de paradigma no tratamento da Covid-19. A médica Elnara Negri foi uma das primeiras a relatar o caráter trombótico da Covid-19. Ou seja, os pesquisadores começaram a perceber que distúrbios de coagulação sanguínea estariam na base dos sintomas mais graves, entre eles insuficiência respiratória e fibrose pulmonar.

Elnara contou que por volta do dia 25 de março começou a perceber esse caráter trombótico do coronavírus. “Tratávamos uma paciente cuja função respiratória piorava rapidamente e, quando ela foi entubada, percebi que seu pulmão era fácil de ventilar. Não estava enrijecido, como seria esperado em alguém com síndrome do desconforto respiratório agudo. Logo depois notei que essa pessoa apresentava isquemia em um dos dedos do pé”, disse à Agência Fapesp.

O sintoma, que tem sido chamado de Covid toes (dedos do pé de Covid-19), é causado pela obstrução de pequenos vasos que irrigam os dedos dos pés. Negri já havia observado fenômeno semelhante, muitos anos atrás, em pacientes submetidos a aparelhos de circulação extracorpórea durante cirurgia cardíaca. Logo após aplicar o medicamento no primeiro paciente, o dedinho do pé, antes vermelho, ficou cor-de-rosa. O efeito se repetiu em outros casos atendidos.

Ainda segundo a reportagem, enquanto a maioria dos estudos indica que casos graves de Covid-19 necessitam, em média, de 28 dias de ventilação mecânica para recuperação, os pacientes tratados com heparina geralmente melhoram entre o 10o e o 14o dia de tratamento intensivo.

Negri defende que a intervenção com anticoagulante comece assim que se comprove que a saturação de oxigênio está abaixo de 93%, o que pode ocorrer entre o sétimo e o 10o dia após o início dos sintomas gripais e é possível de ser detectado em consultório médico ou Unidade Básica de Saúde (UBS).

Mas faz um alerta para não acontecer com o que houve com a cloroquina. “Mas não adianta comprar o remédio na farmácia e tomar por via oral. Desse modo não há efeito terapêutico e ainda pode induzir uma hemorragia. O tratamento deve ser injetável e a dose ajustada pelo médico.”

É bom lembrar que os resultados são preliminares e os efeitos da heparina sobre diversos processos fisiológicos resulta em importante risco à vida. No tratamento da Covid-19, a automedicação, sem atenção especial aos efeitos adversos, pode colocar em risco a saúde dos pacientes. Novos estudos serão feitos para comprovar a eficácia.(Com informações de Karina Toldo da Agência Fapesp)