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Healthtech brasileira está no caminho para viabilizar impressão em 3D de órgãos humanos

Publicado em 01 julho 2021

Por Matheus Riga

A ideia de criar órgãos, como pulmão, fígado e até coração, por meio de impressoras 3D pode parecer coisa de filme de ficção científica. No entanto, essa é uma possibilidade que deve se tornar realidade nos próximos 10 ou 15 anos. A estimativa é do médico e empreendedor Gabriel Liguori, Forbes Under 30 e fundador da TissueLabs, uma startup brasileira que desenvolve equipamentos e materiais para a confecção de partes do corpo humano por meio da chamada “engenharia de tecidos”, área do conhecimento que utiliza células-tronco para regenerar e fabricar órgãos.

A previsão de Liguori é embasada em seis anos de estudo e trabalho do médico na área. O interesse pelo assunto, ele conta à Forbes, surgiu em um congresso de cirurgia cardíaca pediátrica. “Conheci uma pesquisadora que trabalhava com vasos arteriais fabricados em laboratório. Achei aquilo incrível e vi que era o futuro da medicina”, afirma. Depois dessa primeira interação com o tema, Liguori fez um doutorado na USP com extensão na Universidade de Groningen, na Holanda. A tese que defendeu foi sobre abordagens de engenharia de tecido com foco na área cardiovascular.

O pontapé inicial da TissueLabs foi fruto de um dos projetos desenvolvidos no doutorado de Liguori, que criou, em 2018, um gel capaz de agrupar células e dar comandos para que elas se desenvolvam em um tecido. “Quando falamos de fabricação de tecidos, não é muito diferente da construção de uma casa”, diz. “Para levantar a construção, você vai precisar de tijolos – as peças essenciais, que são as células correspondentes do órgão – e de cimento, que é a matriz extracelular, um conjunto de proteínas que unem essas células.”

Por meio de R$ 2,1 milhões de financiamento de instituições públicas de pesquisa, como a PIPE-FAPESP (Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas), e de R$ 1,5 milhão de investimento privado, Liguori, junto ao engenheiro Emerson Moretto, conseguiu colocar o projeto da TissueLabs de pé em 2019 e, comercialmente operante, em 2020. Hoje, a companhia tem operação na incubadora Cietec, em São Paulo, onde fica a produção dos materiais e equipamentos, e na comuna de Manno, no cantão de Tessino, na Suíça, local onde fica o departamento de relacionamento com clientes e parceria de pesquisas.

BIOTINTA E BIOIMPRESSORA 3D

Partindo do primeiro gel desenvolvido por Liguori, a TissueLabs conseguiu desenvolver, em pouco tempo, um portfólio de mais de 50 produtos focados na fabricação de órgãos, divididos entre bioimpressoras 3D e as chamadas “biotintas”. “Nossos materiais para impressão de tecidos conseguem replicar exatamente as centenas e milhares de proteínas que existem na natureza, ao contrário da maioria das empresas do setor que utilizam materiais genéricos, como colágeno puro ou gelatina”, afirma o CEO. Hoje, a healthtech possui 15 tipos diferentes de tecidos – que servem para a impressão de órgãos e partes do sistema cardiovascular, respiratório e digestivo, por exemplo – e cada um deles possui de duas a três variações de gel.

Tanto as bioimpressoras 3D, quanto as biotintas, não ficam restritas apenas à TissueLabs, que comercializa esses materiais e equipamentos para outros pesquisadores. “Entendemos que se a gente se fechasse em um laboratório por uma década para desenvolver um coração artificial, não teríamos validação externa [da comunidade científica] e que corríamos o risco de perder tempo e chegar ao fim com algo pouco eficaz”, diz Liguori. Embora as tecnologias da healthtech sejam patenteadas, isso não impediu a companhia de vender seus produtos para mais de 50 laboratórios em 14 países, totalizando quase 300 pesquisadores.

Esse modelo de comercializar a tecnologia, segundo o CEO da healthtech, permite que diversos pesquisadores espalhados pelo mundo não só validem os seus produtos, mas também desenvolvam novas formas de utilizar a engenharia de tecidos em práticas da medicina. “Isso tudo constrói um arcabouço necessário para que a gente tenha órgãos feitos em laboratório nos próximos 10 ou 15 anos”, afirma. A criação de “mini-intestinos” para a análise de como determinados nutrientes afetam o órgão ou o desenvolvimento de peles artificiais para testes de medicamentos e cosméticos são alguns dos exemplos de aplicações da tecnologia.

Com cerca de 15 funcionários no Brasil e na Suíça, a TissueLabs tem a perspectiva de faturar R$ 2 milhões em 2021, um crescimento quatro vezes maior do que o registrado no último ano. Liguori diz que o avanço e a escalabilidade da tecnologia dependerão não só do desenvolvimento científico, mas também do quanto a companhia conseguirá captar de investimento nos próximos anos. “Hoje nosso foco de pesquisa é na área cardiovascular, mas podemos abrir nosso leque de opções, dependendo dos aportes que recebermos”, afirma. “Podemos olhar, por exemplo, para a criação de pâncreas para pacientes com diabetes. O universo de possibilidades é infinito.”

OBJETIVO DE VIDA

O grande objetivo da TissueLabs se espelha na história do seu fundador. Com poucos dias de vida, Liguori foi diagnosticado com cardiopatia congênita, uma condição que impede o coração de bombear o sangue corretamente. Aos dois anos, foi operado no Incor (Instituto do Coração) e sempre teve em mente que precisava ajudar outras crianças com a mesma complicação.

A princípio, seu desejo era ser cirurgião cardíaco, mas a paixão pela pesquisa e a engenharia de tecidos mudou o seu caminho. “Quando voltei da Holanda, tive a oportunidade de começar um laboratório de pesquisa e fiquei por dois anos focado em construir um coração bioartificial para transplante”, diz. Foi a partir desse trabalho que o primeiro gel para o desenvolvimento de tecidos por impressão foi criado, abrindo portas, pelo menos em um primeiro momento, para aplicações mais palpáveis na área cardiovascular.

Segundo ele, crianças com cardiopatia, na maioria das vezes, precisam realizar uma correção nas válvulas do coração. Com o crescimento, os dispositivos implantados precisam ser trocados e, portanto, novas cirurgias são necessárias. Utilizando uma válvula criada em laboratório com material biológico, por exemplo, o tecido cresceria junto com a criança, sem necessidade de novas intervenções.

Para Liguori, esse tipo de tecido, inclusive, está mais próximo de ser utilizado na prática, de maneira clínica. “Antes mesmo de um coração completo ser fabricado, nós vamos colocar no mercado produtos que vão endereçar outras necessidades, como válvulas cardíacas, vasos sanguíneos e artérias”, afirma. Nesse processo de longo prazo, mirando o órgão por completo, segundo o CEO, há muito espaço para desenvolvimento de tecnologia e a realização de pesquisas.