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HC realiza transplante inédito de útero

Publicado em 19 outubro 2016

Por Juliana Brocanelli

Não é todo dia que se vê um transplante de útero. Na verdade, a cirurgia realizada pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP) foi a terceira no mundo e a primeira na América Latina. O procedimento, realizado no fim de setembro, foi considerado bem-sucedido pela equipe médica e reforça a atuação do país em transplantes.

A mulher que recebeu o transplante é uma jovem de 28 anos, que havia nascido sem útero e tinha o desejo de engravidar. De acordo com o professor titular da Faculdade de Medicina da USP e diretor da Divisão de Ginecologia do Hospital das Clínicas, Edmund Chada Baracat, a cirurgia ainda é um procedimento experimental, recomendada a mulheres com ausência congênita de útero situação que acomete uma em cada 5000 mulheres no mundo, de acordo com pesquisa realizada por médicos e acadêmicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Embora não esteja aberta à população, a cirurgia foi aprovada em todas as instâncias éticas do HC da Faculdade de Medicina e do Conep (Conselho Nacional de Ética e Pesquisa), além de contar com autorização do Ministério da Saúde.

Coordenado pela Divisão de Ginecologia do HC, em parceria com a equipe de Transplante Hepático da instituição, o transplante foi um longo procedimento: Baracat contou à reportagem do JC que a equipe permaneceu por mais de dez horas na sala de operação.

Diferentemente do ocorrido na Suécia, a doadora do transplante brasileiro foi uma jovem já falecida. Segundo Chada Baracat, a cirurgia segue o mesmo protocolo de compatibilidade que é aplicado a outros órgãos.

A pesquisa que levou ao transplante bem-sucedido teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e foi idealizada para cirurgias em humanas e ovelhas. Já o procedimento humano foi custeado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) juntamente com o HC. O professor destaca, no entanto, que este é um trabalho delicado e que acaba implicando muitos gastos. “O procedimento é oneroso e indicado em casos específicos”, explica.

Formada por mais de dez médicos, a equipe cirúrgica recebeu treinamento por duas semanas na Suécia, onde existe um centro responsável por transplantes de úteros de doadoras vivas que obtiveram resultados positivos. Além disso, os profissionais treinaram em cadáveres e, posteriormente, em ovelhas.

Daqui pra frente

A paciente, que já estava em acompanhamento psicológico, continuará o tratamento clínico pelo Hospital das Clínicas por mais um ano. Ela também deve receber doses de imunossupressores, a fim de evitar a rejeição do órgão. Questionado sobre as consequências para a vida sexual dela, Dr. Edmund Chada Baracat afirma que não há interferências.

Como existe o risco de rejeição, a partir de agora, a equipe médica acompanhará como será a receptividade do útero transplantado na paciente, para garantir que o órgão tenha condições de receber o embrião. Antes da cirurgia, oito óvulos da jovem foram fecundados e congelados pelo próprio HC, o que possibilita futura fertilização in vitro.

Apesar do sucesso da cirurgia, o professor acredita que a permanência definitiva do órgão na mulher deverá ser avaliada ao longo dos próximos meses. A perspectiva é de que o útero seja removido depois de completada a gestação. Sobre o aspecto psicológico, o professor afirma que “o efeito deve ser dos melhores. Afinal, ela terá condições de realizar seu desejo: gestar um filho. Apesar do útero não ser considerado um órgão vital, como um coração ou fígado, ele é importante para a mulher e pode lhe trazer uma satisfação pessoal”.

O projeto prevê a realização de três cirurgias, com preferência a mulheres que tenham ausência congênita de útero.