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Jornal da Tarde

HC: o maior banco de cérebros do mundo

Publicado em 01 maio 2011

Por Felipe Oda

Doar órgãos, como rins, pâncreas e coração, pode salvar a vida de muita gente. E doadores de cérebros também têm, indiretamente, esse poder. São eles que abastecessem o maior banco de cérebros do mundo, coordenado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), que reúne mais de 1,6 mil exemplares e ajuda a fomentar as pesquisas sobre doenças neurológicas no País.

Graças às amostras é que os pesquisadores conseguiram, por exemplo, identificar o acidente vascular cerebral (AVC), ou derrame, como principal causa de demência na cidade, quando antes se imaginava ser o mal de Alzheimer. A partir disso, foi possível desenvolver políticas públicas de prevenção contra os quadros associados à doença, como diabete e hipertensão (leia mais ao lado).

Pesquisadores internacionais também consultam o acervo da universidade, que funciona discretamente na Avenida Doutor Enéas de Carvalho Aguiar, no bairro Cerqueira César, região central. Ele é mantido no prédio do Serviço de Verificação de Óbitos da Capital (SVOC), órgão vinculado à USP.

O acervo, que guarda órgãos de pessoas com 50 anos ou mais, sadias e doentes, também ajuda os pesquisadores a compreenderem o processo de envelhecimento. "Só recebemos órgãos do Serviço de Verificação. Todos os casos são de causas naturais, quando o indivíduo morreu por causa de alguma doença", explicao professor do Departamento de Patologia da FMUSP e diretor do SVOC, Carlos Augusto Pasqualucci.

Os órgãos armazenados não são apenas os de pessoas que tiveram doenças neurodegenerativas diagnosticadas, explica a professora do Departamento de Enfermagem Médico Cirúrgica daFMUSP, Renata Ferretti. E isso é o que diferencia o Banco de Encéfalos Humanos, do Grupo de Estudos em Envelhecimento Cerebral da Faculdade de Medicina da USP (BEHGEEC), de outros acervo no mundo. "Bancos estrangeiros têm poucos "casos controles" (indivíduos normais). Aqui temos 60% da a mostra saudável e 40% de encéfalos com alguma doença neurológica", afirma.

Pesquisadores do BEHGEEC, Pasqualucci e Renata explicam que os cérebros são doados pelos familiares. "No exterior há programas de doação. A pessoa e a família doam o órgão em vida e ele é retirado quando o indivíduo morre. Aqui, como nem todos são atendidos pelos serviços de saúde, a doação só ocorre após a morte."

O trabalho do banco já despertou o interesse de vários centros de pesquisa. "Há parcerias dentro da USP e com outras instituições nacionais e internacionais", afirma Pasqualucci. Cientistas alemães, norte-americanos e portugueses costumam colaborar com pesquisas desenvolvidas no BEHGEEC - mantido pela USP e por agências fomentadoras de pesquisas científicas, como Fapesp, CAPES, CNPq e a americana Alzheimer"s Association.

Fundação

O banco da FMUSP não é o único no País. As universidades federais de São Paulo e Pernambuco também mantêm acervos - mas são amostrais e não contam com atualização constante como o BEHGEEC. "Trabalhar com o Serviço de Verificação nos ajuda. Realizamos cerca de 13 mil autópsias por ano", conta Pasqualucci.

Em funcionamento há oito anos, o acervo começou a ser coletado para teses acadêmicas. "Não tínhamos a intenção de montar o banco, mas precisávamos de uma metodologia que atendesse à necessidade de pesquisa", conta Renata, que desenvolveu o acervo em parceria com a patologista Lea Grinberg, coordenadora do Projeto de Envelhecimento Cerebral da USP.

Família determina a doação

Doações mantêm o acervo de cérebros. Dos cerca de 400 cadáveres com 50 anos ou mais que dão entrada anualmente no Serviço de Verificação de Óbitos da Capital (SVOC), apenas 1% não tem o encéfalo doado ao banco da FMUSP. "Nosso índice de recusa é muito baixo, mas existe", garante a professora Renata Ferretti.

É ela quem coordena a equipe que "convence" a família do paciente a doar o órgão. "Abordamos a família e explicamos todo o procedimento, assim como os estudos que serão realizados caso a família autorize a doação", diz. Após a liberação familiar, uma ficha clínica do indivíduo é preenchida e análises anatomopatológicas são realizadas. "Fazemos análise do perímetro, peso, volume e cálculo da densidade do encéfalo, entre outros exames", lista Renata.

A identidade e as informações do doador e parentes são preservadas. Apesar de o País considerar idoso apenas pessoas com 60 anos ou mais, o Banco de Encéfalos Humanos do Grupo de Estudos em Envelhecimento Cerebral da USP também coleta órgãos pré-senis. "Coletamos a partir dos 50 anos. É uma faixa de segurança, porque existe uma enorme dificuldade para se definir um marcador biológicoparaoinício do envelhecimento", afirma Renata.

Para armazenar o cérebro, os pesquisadores realizam um processo conhecido como fixação. "Precisamos interromper o processo de putrefação. É possível fazer isso quimicamente, com o uso do formol, e pela temperatura (-80° C)", esclarece o professor Carlos Augusto Pasqualucci. Os órgãos ficam aproximadamente 21 dias embebidos na substância química até poderem passar pela fixação.

Os próximos passos, segundo os pesquisadores, são: preparo de lâminas para análises microscópicas, coleta de material e congelamento. "Metade do encéfalo é congelada e a outra metade é utilizada para análises diversas (divididas em lâminas e pequenos pedaços)", detalha Renata.

Todo o acervo e informações coletadas ficam disponíveis - desde que exista a autorização dos familiares do doador - para pesquisas acadêmicas da FMUSP.