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Economia Interativa

Harmonia urbana contra aquecimento

Publicado em 31 outubro 2008

São Paulo emite apenas um décimo dos gases causadores do efeito estufa produzidos por San Diego, embora a cidade brasileira seja quatro vezes maior do que a norte-americana, segundo o Informe do Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (UN-Habitat) divulgado hoje. Os padrões de consumo e o produto por pessoa são mais determinantes do que o grau de urbanização para a contribuição ao aquecimento do planeta, concluiu com base nessa comparação o Informe do Estado das Cidades do Mundo 2008-2009 e dedicado a “cidades harmônicas”.

América Latina e Caribe constituem a região mais urbanizada do mundo, com 77% da população nas cidades e que deverá aumentar para 85% nas próximas duas décadas, destacou Cecília Martinez, diretora regional da UN-Habitat em entrevista coletiva. O informe, que contém análises e recomendações sobre harmonia espacial, social e ambiental, também foi divulgado em Bangcoc e Londres. A prosperidade sozinha não cria harmonia, as cidades também precisam de igualdade e sustentabilidade, afirma Anna Tibaijuka, diretora-executiva do UN-Habitat.

A América Latina também é a região que apresenta mais cidades desiguais. O índice Gini, que mostra o grau de desigualdade entre ricos e pobres, medidos em 19 cidades da região, chegou a 0,55, em média, superando inclusive a África, que apresenta as cidades com mais pobres e maior proporção de habitantes de assentamentos precários. A UN-Habitat considera o indicador 0,4 como a linha de alerta, acima da qual a desigualdade é inaceitável. A Europa ocidental, com médias entre 0,25 e 0,30, apresenta o conjunto de cidades mais iguais, mas é Pequim, com índice de 0,22, a cidade mais eqüitativa do mundo.

A desigualdade interna ou entre cidades, e entre regiões de um mesmo país, afeta a harmonia urbana por si só e também por gerar mais desigualdade, ao travar o crescimento econômico e compor um ambiente que atrai menos investimentos, disse Tibaijuka na apresentação do informe. América Latina e Caribe se destacam também com a região que registra um rápido crescimento em muitas cidades pequenas, passando de dezenas de milhares de habitantes para centenas de milhares em pouco mais de 10 anos.

Um exemplo é Itaquaquecetuba, que tinha cerca de 30 mil habitantes nos anos 70, aumentou sua população em cerca de 10% ao ano na década passada e tem atualmente 334 mil moradores. Esse crescimento reflete a expansão da região metropolitana de São Paulo. Cerca de 70 cidades brasileiras viveram um fenômeno semelhante nos últimos 15 anos, devido ao crescimento do turismo, instalação de grandes empresas ou outros fatores de prosperidade econômica e qualidade de vida, explicou Martinez. Este é um “século urbano” desde 2007, quando a população urbana superou a rural em termos mundiais, acrescentou.

Mesmo quando há fortes diferenças regionais, com Ásia e África apresentando apenas 41% e 39%, respectivamente, de sues habitantes nas cidades, enquanto a urbanização supera os 70% em outros continentes e regiões. Mas, a tendência permite prever que em 2050 as diferenças diminuirão, com a Ásia, por exemplo, alcançando 63% de população urbana, graças especialmente à China, que será em 70% urbana, compensando uma evolução mais lenta da Índia.

As cidades, apontadas como problemas ambientais e grandes causadoras do aquecimento global, também são “parte da solução”, segundo o informe e vários dirigentes da UN-Habitat. Um melhor planejamento para o uso de transportes de maior eficiência energética, com menor dependência de veículos motorizados, aumento da densidade urbana e políticas para reduzir o desperdício e a desigualdade espacial e social, podem diminuir muito as emissões de carbono e contribuir para minimizar a mudança climática. A disparidade das emissões de gases causadores do efeito estufa por pessoa entre grandes cidades do mundo reflete mais os padrões de consumo, especialmente o energético, do que o nível de renda ou a contaminação aparente.

Os dados do informe atribuem 2,9 toneladas de carbono por pessoa no México e o dobro para São Paulo. San Diego, a campeã, com 11,7 toneladas, emite mais que o dobro de Tóquio e o triplo de Estocolmo e Seul, mas tem Toronto e Xangai com contaminantes próximas. Com as 3.351 cidades costeiras em zonas de baixa altitude, isto é, inferior a 10 metros, e por isso ameaçadas pela elevação do nível do mar, há uma imensa população urbana que sofrerá graves conseqüências pela mudança climática, destaca o informe.

Além disso, são grandes aglomerações humanas que enfrentam riscos de escassez de água e desastres climáticos, como os provocados pelo fenômeno El Nino na região andina e os furacões no Caribe, disse Martinez. A adaptação das cidades diante das conseqüências da mudança climática é uma preocupação da UN-Habitat, que está estimulando, em associação com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, que as cidades “observem os fenômenos” que já estão ocorrendo e adotem planos integrados de urbanização e meio ambiente para enfrentar os desafios previsíveis, concluiu a diretora da UN-Habitat para a América Latina e o Caribe.

Outra “absolvição” das cidades

As cidades são as grandes responsáveis pelo aquecimento global? Sim, mas não da maneira como se imaginava, segundo um estudo que acaba de ser divulgado. A pesquisa aponta que as cidades estão sendo acusadas injustamente por conta das emissões de gases causadores do efeito estufa.

Publicado na edição de outubro da revista Environment and Urbanization, o trabalho afirma que o peso das cidades no total das emissões é de cerca de 40%, muito menos do que os 75% a 80% que têm sido constantemente apontados.

Segundo o estudo, o potencial das cidades de ajudar nas políticas para enfrentar o aquecimento global tem sido prejudicado por conta desse erro de avaliação.

“Acusar unicamente as cidades pelas emissões de gases estufa ignora o papel importante delas como parte da solução para o problema. Cidades bem planejadas e bem administradas podem fornecer altos níveis de vida que não impliquem emissões elevadas”, disse o autor da pesquisa, David Satterthwaite, do Instituto Internacional para Ambiente e Desenvolvimento (IIED, na sigla em inglês).

Agências das Nações Unidas, a iniciativa contra mudanças climáticas lançada pelo governo de Bill Clinton, nos Estados Unidos, e o atual prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, são alguns dos exemplos mencionados pela pesquisa que apontaram ser as cidades responsáveis por mais de 75% das emissões.

Satterthwaite usou dados do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) para demonstrar que dois quintos dos gases têm origem em atividades humanas nas cidades. A agricultura e o desflorestamento seriam responsáveis por cerca de 30%, enquanto os demais 30% derivariam de indústrias pesadas, da queima do carvão e de estações energéticas, entre outras atividades localizadas em áreas rurais ou em centros urbanos menores.

Mas o novo estudo também destaca que simplesmente apontar locais como fontes de emissão pode levar a equívocos. Por exemplo, emissões de estações de energia deveriam ser alocadas para aqueles que consomem a eletricidade, segundo Satterthwaite, e não para os locais onde estão as instalações. Emissões de indústrias também deveriam ser incluídas para os consumidores dos bens fabricados.

“A demanda de consumo dirige a produção de bens e serviços e, por conseqüência, a emissão de gases estufa. Alocar emissões para consumidores, no lugar dos produtores, indicaria que o problema não está nas cidades, mas em uma minoria da população mundial com elevados níveis de consumo. E uma grande parte desses consumidores não vive em cidades, mas ao redor delas”, disse Satterthwaite.

Ao mesmo tempo, alocar as emissões para os consumidores aumentaria as parcelas de emissões globais derivadas da Europa e da América do Norte, evidenciando as pequenas taxas na África, Ásia e América Latina.

Segundo o pesquisador inglês, em geral as pessoas mais ricas, que vivem fora das cidades, são responsáveis por mais emissões de gases causadores do efeito estufa. Além de morar em casas maiores, que gastam mais para serem aquecidas ou resfriadas, esses moradores de condomínios e cidades -dormitório têm mais automóveis e rodam mais por conta do deslocamento para as cidades.

“As formas como as cidades são projetadas e administradas fazem grande diferença. A maioria das cidades nos Estados Unidos usa de três a cinco vezes mais gasolina por habitante do que as européias, mas não têm padrões de vida de três a cinco vezes superiores”, disse Satterthwaite.

O pesquisador destaca que as cidades oferecem muitas possibilidades de reduzir a emissão per capita de gases estufa, como a promoção do uso de bicicletas, de caminhar ou do transporte público, além da construção de edifícios que precisem de muito menos energia para aquecimento ou resfriamento.

“Atingir as reduções necessárias nas emissões mundiais depende de realizar o potencial das cidades em combinar alta qualidade de vida com baixas emissões de gases estufa”, destacou.

Fonte: Agência Fapesp