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Jornal da Unicamp online

Harmonia é a palavra-chave para Olga Morales

Publicado em 22 outubro 2012

Por Maria Alice da Cruz

Todo projeto precisa de um cientista que o idealize, pesquisadores que o desenvolvam e um secretário que o encaminhe. Alguns anos na secretaria de uma Universidade fazem com que muitos funcionários assistam às primeiras discussões de grandes e importantes projetos. Foi na função de secretária que Olga Regina Sofia Morales participou, na Faculdade de Engenharia de Campinas, em meados da década de 1970, do projeto de desenvolvimento do metrô, trem metropolitano que facilitou a vida de muitos paulistanos.

Para os amigos, a Olga da PRP (Pró-Reitoria de Pesquisa). Para pesquisadores, alunos e docentes, a Olga da Fapesp. Assim Olga Regina Sofia Morales ficou conhecida na Unicamp. Primeiro, por secretariar todos os pró-reitores de Pesquisa desde a criação das pró-reitorias da Unicamp, em 1986. Depois, por ser o elo, na Unicamp, entre pesquisadores e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Cabe a Olga providenciar o encaminhamento e o acompanhamento de solicitações de financiamento, assim como orientá-los sobre os procedimentos operacionais junto à agência de fomento.

Olga é exemplo de que a organização de agenda e o atendimento telefônico viraram coisas de novela. Aquelas histórias narradas em alguns filmes hollywoodianos em que o secretário estende o paletó do patrão e providencia seu café da manhã em cafeteria de luxo também andam ultrapassadas na Unicamp, onde as atribuições de um secretário extrapolam até mesmo o formato antigo dos cursos de secretariado. Se cumprir o tripé capacitação-comprometimento-boa vontade, um secretário pode assumir cargos de confiança e tornar-se responsável por uma equipe de trabalho ou até mesmo por um programa.

É o caso de Olga, que além de dar assistência ao pró-reitor Ronaldo Pilli e atender pesquisadores de toda a Universidade, se responsabiliza pela equipe administrativa da PRP. Mas já adianta: sem perder a essência que a faz tratar bem todas as pessoas do grupo e manter a harmonia no ambiente de trabalho. “Passamos a maior parte do tempo na Unicamp e, sendo assim, temos que contribuir para que o ambiente na PRP seja o mais agradável possível”, acrescenta.

E Olga pode falar de muitas equipes, já que é uma das poucas funcionárias que permanecem nas pró-reitorias desde sua criação, sem interrupção. “Todos os pró-reitores me mantiveram na secretaria, o que, espero, mostra que estive e estou no caminho certo”, avalia. Com o tempo, ela viu a lista de programas da PRP se agigantar. Pibic, Ciência e Arte, PIC Júnior precisaram de um nome que se responsabilizasse por eles e, assim, a equipe de funcionários, como também a de assessores dos pró-reitores, foi crescendo, e Olga sempre procurou receber amistosamente e ajudar no que fosse preciso.

Hoje profissional de assuntos universitários, com atribuições de assistente técnico de direção, Olga manifesta a satisfação por trabalhar numa área que é diretamente responsável pelo avanço da ciência no país e também pela oportunidade dada a estudantes de ensino médio de experimentarem o conhecimento desenvolvido na academia, por meio dos programas Ciência e Arte nas Férias e do PIC Júnior. A Pró-Reitoria é responsável pelo gerenciamento Fundo de Apoio a Pesquisa e Extensão (Faepex), além de assumir a Comissão de Avaliação e Desenvolvimento Institucional (Cadi).

O desenvolvimento dos pesquisadores é observado por Olga a partir dos projetos Fapesp. “Alguns nomes que apareciam nos editais como alunos, depois de um tempo se inscrevem como docentes e em seguida, como orientadores. Também acompanhamos o crescimento desses pesquisadores pela divulgação de seus trabalhos no portal, acrescenta. A trajetória dos pesquisadores que atende na PRP também se torna visível quando Olga contribui com o pró-reitor na edição do Anuário de Pesquisas da Unicamp. “Quando os dados são consolidados, observamos a quantidade de trabalhos. É impressionante o crescimento que tais dados apontam.

Observamos que o número de publicações e de trabalhos indexados e o valor de financiamento são crescentes a cada ano”, reforça Olga. Isso, em sua opinião, demonstra a capacidade de todo o corpo docente e dos grupos de pesquisa existentes de fomentar tudo isso. “Qualquer um que acesse a tabela do Anuário concordará com o que estou falando.”

Além da inter-relação interna, é observável a interação dos pesquisadores da Unicamp com grupos de outras instituições e, na opinião de Olga, essa realidade contribui para o processo de internacionalização da Unicamp.

Antes de assumir a secretaria da PRP, Olga já havia prestado concurso para a Unicamp em 1972, quando foi encaminhada para a Faculdade de Engenharia de Campinas para secretariar o diretor da unidade, Manoel Sobral Júnior, e em seguida um de seus sucessores, Hélio Waldman. O órgão abrigava os departamentos de engenharia elétrica, eletrônica e eletrotécnica, mecânica e, mais tarde, engenharia química. Dele originaram-se as Faculdades de Engenharia Elétrica e Computação (Feec), Engenharia Mecânica (FEM) e Engenharia Química (FEQ).

Quando essas unidades foram criadas, a Faculdade de Engenharia de Campinas deixou de existir, e Olga permaneceu secretariando o diretor da Feec na época, Hélio Waldman, até que foi convidada a coordenar administrativamente os convênios da Telebrás, forte parceira da Unicamp na época, que envolvia vários professores da Unicamp. Ficou nesta função de 1978 a 1985, mas para assumi-la precisou rescindir contrato com a Universidade.

Embora nunca tivesse saído da Unicamp fisicamente, pois os projetos eram sediados no campus de Barão Geraldo, Olga comemorou sua volta para a carreira de funcionários da Unicamp em 1985, quando o diretor da Feec ao ser convidado para criar o Escritório de Ex-alunos e a Escola Brasileira e Argentina de Informática (Ebai), não abriu mão da eficiência de sua secretária desde a Faculdade de Engenharia de Campinas.  No Escritório de Ex-Alunos, Olga tinha como missão tentar manter um vínculo com profissionais formados pela Universidade, a fim de conhecer a atuação deles no mercado a partir da graduação assim como  mantê-los informados sobre os acontecimentos  da Universidade. Em dezembro de 1985, foi publicado o primeiro exemplar do Jornal Ex – Jornal do ex-aluno, editado pela Assessoria de Imprensa da Unicamp. 

A Ebai, conforme a secretária, oferecia cursos na área de investigação em tecnologia informática a 250 estudantes brasileiros e 250 argentinos. Desde a primeira edição da Ebai, a Unicamp, por meio do ex-reitor da Unicamp Paulo Renato Costa Souza, assumiu a responsabilidade de organizá-la e sediá-la. Logo Waldman precisaria mais uma vez da competência de Olga para secretariá-lo na Pró-Reitoria de Pesquisa, para a qual teve o privilégio de ser nomeado o primeiro gestor.  E este foi início, desconhecido de muitos, de Olga no prédio 1 da Reitoria da Unicamp. Bacharel em letras e formada em magistério, área que chegou a levá-la para salas de primeiro grau (atual ensino fundamental), se diz orgulhosa de trabalhar “no coração da Universidade”.

Olga nem precisa consultar documentos para contar a história da criação das pró-reitorias e, apesar de não conhecer a experiência anterior, acredita que a distribuição das competências tenha potencializado as ações e projetos para o avanço no desenvolvimento da Universidade. “Aqui, na PRP, tive oportunidade de trabalhar com pessoas inteligentes, comprometidas e visionárias, que só agregaram valor a minha trajetória. Durante estes anos, pude vivenciar aperfeiçoamento de ações, envolvimento com a comunidade como um todo.”

Com a informatização do sistema, os pesquisadores passaram a submeter seus projetos diretamente à Fapesp, mas Olga ainda os orienta, em caso de dúvidas, e providencia a assinatura do termo de outorga. “A ajuda é permanente, pois as dúvidas em relação ao sistema continuam.” Se em algum momento Olga foge de suas atribuições, é porque percebe que alguém precisa de ajuda técnica. “É um traço meu. Se percebo pessoas em momento de necessidade, ofereço auxílio.”

Para Olga, a trajetória na Unicamp está alinhavada a sua história de vida. “Quando vejo alguém chorando por ter perdido emprego, penso no quanto sou privilegiada”, acrescenta. A oportunidade de conhecer uma Unicamp adolescente, com apenas 17 anos de fundação, fez com que Olga acompanhasse marcos importantes como o movimento pela autonomia financeira e o Projeto Qualidade, que, há 20 anos, visava à qualidade acadêmica dos docentes da Universidade. A autonomia, em sua opinião, garantiu melhorias ao orçamento da instituição, enquanto o Projeto Qualidade reforçou sua excelência.

Diante do tempo de experiência, a receita para ser um bom secretário na Unicamp vem fácil: comprometimento, lealdade e busca constante de oportunidade, de conhecimento e de crescimento. “Os jovens que entram hoje na Universidade precisam estar atentos ao leque de oportunidades que ela oferece. É preciso que eles se capacitem para chegar onde querem e usufruir de todas as possibilidades que ela oferece.” Ela reforça que, quando chegou à Unicamp, os jovens funcionários não tinham o horizonte que se abre hoje a cada dia. Atualmente há um planejamento, por meio do qual as pessoas podem estabelecer seu crescimento e conhecer os instrumentos que a levem a isso. “Era uma luta. Trabalhávamos sem saber onde poderíamos chegar, era tudo muito novo, ligado ao governo do Estado. Somente depois de quatro, cinco anos tive uma promoção. Hoje é diferente”, reforça. As atividades devem ser desenvolvidas com leveza, mas, na opinião da secretária, as pessoas trabalham muito preocupadas. Mas ela acentua: “Tem de gostar do que faz, saber que é um colaborador e, diante disso, tem de apoiar a pessoa que está secretariando da maneira mais sincera possível.”

Fora da Unicamp, Olga procura fugir do agito. Gosta de sua casa e aproveitar o tempo com a família. O cinema, como para a maioria dos brasileiros, mudou-se para sua casa. Mas, do lado de fora, tem algo que vai poder preencher o espaço saudoso, quando se aposentar: as viagens, das quais Olga não abre mão. Mas em suas rondas pelo mundo e pelo Brasil não elegeu um lugar de sua preferência. “Sempre o que é novo é muito interessante. O novo nos refaz. Dá novo alento. Sempre encontramos beleza nas coisas novas, pois o ainda não visto nos desperta.”