Notícia

Pequenas Empresas & Grandes Negócios

Haja champanhe

Publicado em 01 agosto 2007

Criada por três amigos, a Ci&T, de Campinas, é a única brasileira ranking internacional das melhores empresas emergentes de tecnologia

Eles ainda não completaram 40 anos, não sabem o que significa ter uma carteira de trabalho assinada e saboreiam o gostinho de faturar dezenas de milhões de reais. Instalados num dos pólos de tecnologia mais avançados do país, o Polis, de Campinas, no interior de São Paulo, os empresários César Gon, 35 anos, Bruno Guiçardi, 35, e Fernando Matt, 33, são donos da Ci&T, especializada em desenvolvimento e ter c de aplicações de software. A empresa é a única a constar na recém-publicada lista das estrelas emergentes na área de tecnologia da informação, segundo a pesquisa The Global Outsourcing 100, publicada pela revista americana Fortune.

Longe de alardear a conquista, o trio acredita que ganhou responsabilidade e mais um motivo para insistir na busca contínua pela excelência. A simples presença na cobiçada lista abre-lhes inúmeras por tas no exterior, mas, em contrapartida, exige um nível ainda mais al to de eficiência. É esse tipo de desafio que eles gostam de enfrentar. E não é de hoje.

Quando deixaram a Unicamp, onde se for mar em Ciência da Computação, em meados dos anos 90, os jovens sabiam que toca riam o próprio negócio. "Éramos ousados e não escondíamos que poderíamos oferecer melhores soluções na área de tecnologia da informação do que aquelas apresentadas pelo mercado" afirma Guiçardi. Os três confiavam tanto no próprio taco que aceitaram desenvolver um projeto para a gigante IBM. Venceram a concorrência e foram obrigados a correr para abrir uma empresa. A sede funcionava num quarto alugado, em uma mo desta casa, num bairro afastado de Campinas, que abrigava três computadores usados. O trio não se importava com a aparência, estava interessado nos resultados. E eles logo vieram. "Começamos um negócio em velocidade de cruzeiro e com receita": diz Guiçari.

POTE RENOVADO

Doze anos depois, dá para comprovar a competência dos três. A Ci&T funciona hoje numa área de 1.200 metros quadrados, tem 500 funcionários e faturou no ano passado R$ 40 milhões, 25% dos quais com negócios feitos no exterior. A empresa mantém seis escritórios no Brasil, um nos Estados Unidos e uma representação na Inglaterra. Estruturando-se para ser um modelo inter nacional, a Ci&T presenciou, de 2005 para cá, as exportações de seus serviços crescerem a uma média de 200% ao ano, segundo os sócios.

"Eles, desde o início, se preparam para ser os melhores do setor": afirma o professor Roberto Lotufo, diretor executivo da Agência de Inovação da Unicamp. "Buscam continua mente descobrir a melhor maneira para se alcançar o sucesso na área de tecnologia e estão sempre antenados com os movimentos mundiais 7

Com uma carteira de clientes seletos, entre eles IBM, HP, Johnson& Johnson, Petrobrás, Vale do Rio Doce, Embraer e Yahoo! a Ci&T desenvolve uma média de 150 projetos por ano. É obra da casa, por exemplo, o portal que integra os distribuidores da HP na América Latina, a modernização do sistema de qualidade das refinarias da Petrobras e o site da Natura, através do qual a empresa se relaciona com suas mais de 566.000 vendedoras autônomas, espalhadas por todo o país. "Trabalhamos para antecipar o futuro, apostando em processos e sistemas que só mais tarde se tornarão padrões de mercado' diz Guiçardi. Para comemorar cada projeto entregue, a equipe cumpre sempre o mesmo ritual: abre um champanhe e guarda a rolha, devidamente identificada com a data e o nome do cliente, em um grande pote de vidro. "Para nossa alegria, já renovamos o pote muitas vezes"declara Guiçardi.

O empresário não esconde, porém, que antecipar tendências implica correr riscos. "Muitas vezes, investi mos em tecnologias que não emplacam" revela. "Perdemos tempo e dinheiro, mas ganhamos experiência' Foi na prática, também, que os sócios aprenderam que uma empresa não cresce rápido e impunemente. Segundo eles, as mudanças organizacionais sempre foram feitas sem grandes planejamentos e deram certo, até que esbarraram no tamanho da estrutura. "Quando atingimos 300 funcionários, subestimamos o impacto que urna alteração de pessoas e de funções teria sobre os rumos da Ci&T' diz Guiçardi. "Não fizemos nenhuma preparação ou treinamento. O resultado foi urna confusão generalizada, a qual foi, segundo ele, percebida pelos clientes, provocou atrasos na entrega dos projetos e queda na qualidade dos serviços. "Levamos um ano para pôr ordem na casa, mas assimilamos a lição".

FILOSOFIA DA EXECUÇÃO

Voltada ao mercado corporativo, a Ci&T, segundo seus sócios, trabalha para oferecer aos clientes soluções sob medida com índices de custos, prazos e qualidade. "Parece óbvio, mas no mercado de tecnologia apenas 20% dos projetos contratados conseguem cumprir essas exigências'; afirma o empresário. "É em busca destes objetivos que investi mos continuamente em métodos e processos. Somos obstinados por inovação com qualidade. O resultado dessa busca constante pelo novo se traduz no recebimento da certificação CMMI 5 (Capability, Maturity Model Integration nível 5), O mais respeitado padrão de qualidade entre os fabricantes de software, conquistado por apenas 40 empresas no mundo. "Ë justamente esse comprometimento em fazer o melhor que nos faz afinar cada vez mais nossa parceria com a Ci&T" declara Fátima Primati, diretora de TI da MetLife, empresa de seguros com mais de milhões de clientes no país. "Na hora de negociar, eles são transparentes a ponto de recusar um projeto que não acreditam ser 100% viável"

Para o sócio Fernando Matt, um dos principais diferenciais da Ci&T é a disciplina pelo trabalho, somada a consistência de suas políticas de gestão de pessoas. "Desde o inicio adotamos a filosofia da execução como lição número um", afirma. Segundo ele, todos têm plena liberdade para expor suas idéias e traçar os melhores métodos para realizar os projetos. Mas, a partir do mo mento em que começam a executar a tarefa, são seriamente cobrados para que respeitem os cronogramas de prazos e custos, sem comprometer a qualidade do produto final. "O famoso jeitinho brasileiro, aqui, não tem espaço'; complementa Guiçardi. Em contrapartida, o empresário afirma que faz parte da cultura da em presa respeitar os erros não intencionais, pois é do constante exercício de errar e acertar que surgem as inovações, o pioneirismo, o fazer diferente. Outra conduta seguida à risca pelos gestores é a não abertura de exceções quando o assunto é ética e a cultura da empresa. "Não tem nada pior do que se criar princípios de ética e de conduta, e não respeitá-los'; diz o empresário. "Toda vez que se faz uma concessão, abre-se espaço para a equipe deixar de confiar nos dogmas da empresa".

AO LADO DA ACADEMIA

É com uma política transparente de valores e objetivos, além de um plano de carreira formal que a Ci&T, segundo os sócios, consegue crescer e administrar uma equipe formada por profissionais altamente qualificados. "Cerca de dois terços dos nossos líderes nasceram dentro da empresa e trabalham aqui há não mais do que cinco anos. Apenas um terço foi recrutado no mercado", afirma Guiçardi. "Na Ci&T, uma promoção é conseqüência da soma de competências e de resultados alcançados em avaliações bimestrais." Segundo o empresário, ninguém esquenta o mesmo posto por muito tempo. O grau de exigência, contudo, é alto. Hoje há 30 vagas em aberto por falta de candidatos que atendam ao perfil desejado. Para diminuir esse hiato, a Ci&T, em parceria com outras empresas do setor, criou, no início deste ano, o Programa de Complementação Curricular. O projeto já reúne 8o profissionais recém-saídos das universidades, os quais, ao final do curso, terão em prego garantido. Três anos atrás, a Ci&T instalou, dentro da Unicamp, um Laboratório de Inovação. O centro de excelência conta com 12 pesquisadores envolvidos na descoberta de novos processos na área de TI. "De lá já saíram vários projetos que foram implantados pela Ci&T" diz Guiçardi. "Os bons resultados levaram a Fapesp a investir Rs 1 milhão em novos estudos'

Adeptos da filosofia de que os verdadeiros empreendedores são aqueles que têm coragem, confiança e competência para encarar o desafio de passar por um caminho pelo qual ninguém passou, os sócios acabam de montar uma nova unidade de negócios. Trata-se da DigitalAssets, uma empresa especializada em softwares de governança e reutilização de programas já existentes. A iniciativa, segundo Guiçardi, nasceu dentro da Ci&T e quando tinha uma razoável carteira de clientes mudou-se para a incubadora tecnológica da Unicamp. "Incubada, ela teria maiores chances de investimento de capital externo': diz o empresário. Foi o que aconteceu. A novata recebeu um aporte do fundo mineiro de venture capital Novarum e está quase deixando a incubadora."É uma experiência nova para nos, porque é a primeira vez que operamos uma empresa que busca seu ponto de equilíbrio' afirma Guiçardi.

Os planos dos sócios vão além de voar em céu de brigadeiro nas duas frentes de negócios. "No início, nosso sonho era faturar R$ 1 milhão': afirma Guiçardi. "Hoje, estamos de olho em R$ 100 milhões' Difícil? Segundo ele, não, porque o segredo do sucesso está em pensar grande e acreditar que você pode chegar lá.