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Boletim Behaviorista

Há representação ou sub-representação das mulheres na análise do comportamento?

Publicado em 17 fevereiro 2020

Estudos mostram que, pelo menos desde a década de 1980, pesquisadoras e pesquisadores têm investigado a participação das mulheres na análise do comportamento, seja com relação ao número de autoras nos periódicos de destaque da área, em participações como convidadas nos congressos, e até nas posições de destaque, como presidência de associações e/ou editoras de periódicos.

Apesar de variações que ocorreram ao longo dos anos, os resultados mostram que as mulheres estão participando de mais atividades, mas a existência de um “teto de vidro” impede que as mulheres alcancem as posições de maior prestígio acima descritas.

A expressão teto de vidro é comum nos meios feministas e de estudos de gênero, e denota a existência de barreiras muitas vezes consideradas invisíveis, por não serem institucionalizadas, que impedem a ascensão de mulheres a cargos de alta hierarquia. Por exemplo, não há no Brasil uma lei que permite que um empregador desqualifique ou não contrate uma candidata porque ela deseja ter filhos. No entanto, é comum essa pergunta aparecer nas entrevistas das mulheres (e não dos homens), sendo inclusive utilizada para decidir quem conseguirá um emprego. Nesse sentido, se o entrevistador souber que a mulher pretende ter filhos, ele pode dar preferência para um homem, uma vez que, se a mulher engravidar, o empregador terá que pagar a licença maternidade e empregar outra pessoa pelo período que a mulher não estiver trabalhando. Como vivemos em uma cultura onde o cuidado é tido como uma responsabilidade da mulher, os homens, mesmo que queiram ou sejam pais, acabam não sendo afetados por esse viés.

Assim, percebe-se a existência de um grande número de mulheres com certificação de analistas do comportamento (BCBAs), um número um pouco menor de mulheres professoras e pesquisadoras nas universidades, e assim, sucessivamente, um número cada vez menor de mulheres atingindo os postos “acima” desses (veja, por exemplo, os estudos de Frances McSweeney e Samantha Swindell, de 1998, e de Frances McSweeney, Patricia Donahoe e Samantha Swindell, publicados em 2000). Além disso, percebe-se um aumento na participação das mulheres nas áreas aplicadas, e sub-representação nas áreas de pesquisa básica e conceitual.

E atualmente? Como está a participação das mulheres na área? Duas pesquisas buscaram responder a essa pergunta recentemente. O estudo de Melissa Nosik e colaboradores, publicado na revista Behavior Analysis: Research and Practice (2018), buscou responder essa pergunta ampliando os tipos de análise feitos anteriormente. Assim, além de buscar dados sobre o número de mulheres que estão em posição de destaque, convidadas para palestrar nos eventos da área, autoras nos periódicos de prestígio ou editoras desses periódicos, eles também buscaram o número de autoras que receberam prêmios e o número de novas ACs tituladas com o BCBA, analisando todos os dados por grupos de idade e “ponto” na carreira, em vez de utilizar dados agregados, como nas pesquisas anteriores.

Durante os últimos cinco anos, aproximadamente 53% dos presidentes da Association for Behavior Analysis International (ABAI), do Association for Professional Behavior Analysts (APBA) e do Behavior Analyst Certification Board (BACB) combinados foram mulheres. Com relação ao número de mulheres editoras de periódicos nos últimos 37 anos, houve aumento no número de mulheres no Journal of the Applied Behavior Analysis (JABA) e no Journal of the Experimental Analysis of Behavior (JEAB), mas redução no periódico The Behavior Analyst (TBA). O número de autoras segue a mesma tendência, com aumento no JABA e JEAB, mas redução no TBA.

Somente 17% dos premiados com o “ABAI fellow” são mulheres. Dentre os anos de 2014 e 2016, menos de 30% dos palestrantes convidados em conferencias da ABAI, APBA, Berkshire Association for Behavior Analysis and Therapy (BABAT), e California Association for Behavior Analysis (CalABA) foram mulheres. Além disso, 70% das palestras ministradas por mulheres nessas ocasiões são referentes a pesquisa aplicada, com uma relação inversa entre o número de apresentações e a idade (quanto mais jovens –a partir de 25 anos de idade, maior o número de apresentações como convidadas nesses eventos).

Durante o ano de 2016, quase 90% dos profissionais com certificação na área foram mulheres, o que mostra que o teto de vidro parece continuar existindo, apesar dos avanços na luta pela paridade: 88% das mulheres obtiveram certificação, em 40% das pesquisas publicadas elas foram a primeira ou autora correspondente nos periódicos JABA, JEAB e TBA; 35% foram premiadas no início da carreira, 33,6% foram ou são editoras de periódicos da área, 28% convidadas como palestrantes nos congressos da área, 17,2% premiadas em fase posterior da carreira e, por fim, 17% foram premiadas com os ABAI fellows. A única exceção nesse teto de vidro, de acordo com os dados, foi o número de presidentes de associações da área, com 52% dos cargos ocupados por mulheres. Os autores argumentam que o fato de as mulheres serem melhor representadas no início da carreira pode ser possivelmente explicado por “barreiras ao avanço da carreira profissional, como responsabilidades familiares e sexismo” (p. 6).

O trabalho de Anita Li e colaboradores (2018), publicado no periódico Behavior Analysis in Practice aumentou o número de periódicos investigados, buscando em quantos artigos as mulheres foram a primeira ou última autoras, e também quantas vezes foram editoras destes periódicos. Os periódicos investigados foram o Behavior Analysis in Practice (BAP), Behavior Analysis: Research and Practice (BARP), JABA, JEAB, The Psychological Record (TPR), The Analysis of Verbal Behavior e TBA.

Os resultados mostram que a proporção de artigos com pelo menos um homem como autor ou co-autor é maior que a proporção de mulheres nos mesmos parâmetros. As mulheres são maioria entre as primeiras autoras somente nos periódicos JABA e TAVB e maioria entre as últimas autoras no BAP e TAVB, mas, em ambos os casos, a diferença foi pequena. Nos artigos com um_ únic_ autor_, os homens publicaram quatro vezes mais (N=115) que as mulheres (N=28). Mulheres editoras de periódicos foram maioria somente no TAVB, com porcentagens semelhantes de homens e mulheres editoras em três outros periódicos (BAP, BARP e JABA).

Quando analisados apenas os dados entre 2014 e 2017, o aumento da participação das mulheres fica mais evidente, especialmente se comparado aos dados encontrados nos estudos anteriores. Por exemplo, houve mais mulheres que homens como primeir_ autor_ no JABA e no TAVB. Além disso, nesses dois periódicos, o número de mulheres como autora ou co-autora excedeu o número de homens. Os autores pontuam, por fim, que “é possível – não, provável – que práticas institucionalizadas e sutis que dificultam a capacidade de mulheres e outras populações sub-representadas de progredir e contribuir continuam a operar na análise do comportamento” (p. 4).

Em conjunto, estes dois trabalhos mostram os avanços que ocorreram após muitas e contínuas lutas para que as hierarquias de gênero sejam minimizadas. Embora ambos estudos apontem pontos e análises importantes, acredito que faltou uma análise mais contundente sobre os dados considerados positivos (números ou porcentagens maior de mulheres em alguns âmbitos). Como apontei no início desse post, e evidente nos dados apresentados, na maioria dos casos, os avanços se referem, grosso modo, a posições consideradas menos prestigiosas na carreira. Além disso, parece que os avanços estão concentrados (com poucas exceções) nas áreas de pesquisa aplicada, em detrimento da pesquisa básica. A área aplicada é, conforme muitas pesquisas e o senso comum, relacionada a profissões de cuidado (análise e intervenção em indivíduos com desenvolvimento atípico e/ou crianças), consideradas femininas. Por outro lado, a pesquisa básica, experimental, é mais relacionada com as ciências duras e, mesmo dentro da psicologia, com medidas, traços considerados masculinos.

De qualquer modo, esses estudos são importantes para evidenciar as disparidades de gênero na área, nas diversas dimensões de análise. E aqui no Brasil, qual sua hipótese sobre a participação das mulheres da área? Se fizéssemos um estudo sobre o número de autoras e editoras dos periódicos nacionais, além de convidadas nos eventos da área, como vocês acham que seriam os resultados?

Os estudos:

Nosik, M. R., Luke, M. L., & Carr, J. E. (2018). Representation of women in behavior analysis: An empirical analysis. Behavior Analysis: Research and Practice. Online first publication. doi: 10.1037/bar0000118

Li, A., Curiel, H., Pritchard, J., & Poling, A. (2018). Participation of women in behavior analysis research: Some recent and relevant data. Behavior Analysis in Practice. Online first publication. doi: 10.1007/s40617-018-0211-6

Referências:

McSweeney, F. K., & Swindell, S. (1998). Women in the experimental analysis of behavior. The Behavior Analyst, 21(2), 193-202.

McSweeney, F. K., Donahoe, P., & Swindell, S. (2000). Women in applied behavior analysis. The Behavior Analyst, 23(2), 267-277.

Créditos da imagem: http://diariodeviamao.com.br/noticias/colunas_1028/1585_no-mundo-do-trabalho,-mulheres-a-frente!

Escrito por Táhcita M. Mizael, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Bolsista FAPESP.

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