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"Há pouca pesquisa nas empresas"

Publicado em 01 dezembro 2008

O diretor científico da Fapesp diz que a atividade de P&D está concentrada

 

Em abril deste ano, o engenheiro Carlos Henrique Brito completou três anos à frente do Departamento Científico da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Neste período, levou a entidade a um novo patamar. Entre 2005 e 2007, o número de bolsistas de mestrado apoiados saltou de 1,4 mil para 2,35 mil. Carioca, 52 anos, Brito é um veterano da fundação, que presidiu de 1996 a 2002. Pesquisador, trabalhou para o Bell Labs até 1988, quando passou a se dedicar à Universidade de Campinas, da qual foi reitor entre 2002 e 2005. Hoje, sua bandeira é engajar as companhias brasileiras no esforço pró-inovação.

1,  Como a pesquisa pode avançar mais rapidamente, para que as empresas brasileiras se tornem mais competitivas? Leonardo Van Acker Souza | Brasília, DF

O desafio principal é aumentar a atividade de pesquisa nas empresas. Ela ainda é pequena, quando comparada com o tamanho da nossa economia e com aquilo que o nosso país gostaria de ser no mundo. No Brasil, de 20% a 25% dos cientistas são empregados de empresas. Os outros 75% trabalham para universidades ou institutos de pesquisa. Nos países com os quais a gente quer competir, o percentual de cientistas que trabalham para empresas vai de 50% a 80%.

2. O Brasil tem políticas pró-inovação, fontes de financiamento e engajamento das universidades. Mas nosso número de patentes não se compara ao da China. Estamos nos enganando? Solange Almeida Rego | Rio de Janeiro, RJ

Não estamos nos enganando. Estamos progredindo devagar. O número de patentes que as empresas brasileiras criam a cada ano ainda é pequeno. Uma das razões é, de novo, que há poucos cientistas nas empresas.

3. Por que as filiais das multinacionais americanas presentes no Brasil fazem relativamente pouca pesquisa no país? Mussoline Soares Filho | São José dos Campos, SP

No Brasil, pouco mais da metade da pesquisa que se faz nas empresas é realizada por multinacionais. Ao mesmo tempo, há nesse campo uma oportunidade para o Brasil atrair mais investimentos de empresas multinacionais. O Brasil oferece profissionais, especialmente engenheiros formados em instituições como a USP, a Unicamp e o ITA, muito bem qualificados. Só que precisava oferecer mais. Se aumenta muito a capacidade de fazer pesquisa e essa mão-de-obra não acompanha, o custo da mão-de-obra sobe.

4. Aqui no Brasil há pouca participação das empresas e mais pesquisa nas universidades. Isso é um limitador para a inovação? Hélio Lemes Costa Jr. | Varginha, MG

O limitador para a inovação não é o fato de ter muita pesquisa nas universidades, mas, sim, pouca pesquisa nas empresas. O caminho para o progresso deste assunto no Brasil é continuar desenvolvendo a base de pesquisa acadêmica, que é muito importante, porque é ali que se formam os profissionais que vão trabalhar nas empresas, multinacionais ou brasileiras.

5. Quais fatores devem ser utilizados para medir o grau de inovação de uma empresa? Hendryus Thiago Alvim | Londrina, PR

O indicador mais direto, só que complicado de medir, seria quantas inovações a empresa levou ao mercado nos últimos cinco anos. Aí você vê se a receita dela vem de produtos ou serviços criados há 20 anos ou recentemente.

6. A criação de valor cada vez mais depende de inovação contínua nos processos e sistemas. Isso tem fim? Sergio Borges | São José dos Campos, SP

Certamente. Quando você tem uma economia baseada em produzir ouro, como a do Brasil no século 18, um dia ela pára, porque o ouro acaba. Mas uma economia baseada em conhecimento não acaba nunca. O ser humano sempre tem uma idéia para melhorar uma coisa que outro ser humano achava perfeita.

7. Na área educacional, que ações são necessárias para que o país possa qualificar melhor sua mão-de-obra? Laércio Jackson de Alexandria | João Pessoa, PB

O Brasil precisa melhorar substancialmente o nível médio de educação da população e aumentar a quantidade de pessoas formadas no nível superior, importantes para uma economia baseada em conhecimento.

8. Ao recusar alunos que não têm notas altas na graduação ou na pós, a Fapesp exclui projetos potencialmente inovadores. Por quê? Alexandre Parmindo | Presidente Prudente, SP

Porque o que a Fapesp precisa avaliar, quando vai selecionar um projeto, são pelo menos duas dimensões: o interesse e a originalidade do projeto, e a capacidade de seus responsáveis de realizá-lo.

9. Afinal, o Brasil vai adotar uma política energética ambiental, baseada em recursos renováveis? Victor Lucas Bretas | Lagoa Santa, MG

Já adotou. O Brasil é o país industrializado cuja matriz energética, baseada em hidroeletricidade, tem maior percentual de fontes renováveis: 46%. A média dos países da OCDE é 3%.

10. O momento é adequado para universidades e empresas brasileiras investirem em jogos eletrônicos? Bruno Ribeiro da Costa | Sumaré, SP

Certamente. Há oportunidades grandes, mundialmente falando, no desenvolvimento de jogos e componentes.