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Cães&Gatos

"Há males que vêm para o bem"

Publicado em 01 maio 2017

Por Mariana Cavalcanti

Em fevereiro de 2017, a agência da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp, São Paulo/SP) divulgou a notícia de um estudo publicado na revista Scientific Reports, do Grupo Nature (Londres/Inglaterra), que sugere que o medicamento antibiótico doxiciclina pode ser indicado, em doses mais baixas, para o tratamento da doença de parkinson.

A classe veterinária, por meio das redes sociais, se manifestou de forma intensa exaltando a versatilidade da droga. A equipe da Cães&Gatos VET FOOD, então, conversou com a professora titular do Departamento de Patologia (VPT), da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), da Universidade de São Paulo (USP, São Paulo/SP), Silvana Lima Górniak, para saber como esta notícia reflete na Medicina Veterinária, já que a informação diz respeito à Medicina Humana.

De acordo com Silvana, tanto a doxiciclina como as outras do grupo das “tetraciclinas”, assim denominadas devido à sua estrutura química, formada por quatro anéis (do grego tetra que significa quatro) tratam-se de antimicrobianos amplamente empregados na Medicina Humana e Veterinária, devido ao amplo espectro de ação contra vários tipos de bactérias. “Ela vem sendo utilizada a mais de meio século”, conta.

Em 1948, o primeiro membro das tetraciclinas, a clortetraciclina, (inicialmente denominada aureomicina devido coloração dourada do fungo) foi usada clinicamente, sendo um produto natural da fermentação da bactéria do solo Streptomyces aureofaciens. A descoberta, realizada por Benjamim Duggar, despertou o interesse dos pesquisadores, a fim de descobrir novas tetraciclinas com igual poder de ação. Assim, a seguir foi desvendar a terramicina (alusão realizada ao estudo de microrganismos produtores de antibióticos em amostras de solo provenientes de várias partes do mundo), posteriormente foi denominada oxitetraciclina. Logo, Lloyd H. Conover, farmacêutico da Pfizer (Nova Iorque/ Estados Unidos), produziu a tetraciclina sintética, sendo patenteada em 1955. Nos anos seguintes, surgiram demeclocilina (1957), rolitetraciclina (1958), metaciclina e limeciclina (1961), doxiciclina (1962), minociclina e lauraciclina (1966).

No tocante a notícia da Fapesp, a professora fala que grande parte dos medicamentos, como os antibióticos, foi desenvolvida por meio de felizes coincidências. O exemplo mais citado e talvez mais famoso é a descoberta da feita por Fleming. Em 1928, esse pesquisador, ao tirar férias, esqueceu e deixou umas placas com bactérias na mesa, ao retornar verificou que aquelas bactérias não cresceram porque havia um mofo (que depois se verificou se tratar do fungo Penicillium), que impedia o crescimento desses microrganismos. “A partir dessa observação, Fleming e colegas pesquisaram e assim descobriram o que foi o “divisor de águas” para o tratamento de uma infecção: a penicilina.

Ela explica que esse fato se deve porque um medicamento sempre é indicado para uma causa, mas acaba-se tendo efeito colateral desejável. “Assim foi com as sulfonamidas, ou sulfas, amplamente empregada como antimicrobianos. No entanto, com pequenas alterações na sua estrutura química promovem a diminuição do açúcar no sangue, sendo assim, se tornaram medicamentos para baixar a glicemia e utilizados por diabéticos”.

Silvana considera importante frisar que os medicamentos não são formados para atuar em uma causa. “Na verdade, se formos pensar, todo medicamento terá um efeito desejado e atuar em outro órgão ou sistema, promovendo o que chamamos de efeito colateral. Sendo este último, algumas vezes, benéfico. No caso da doxiciclina ou sulfas, não existe uma só ação no organismo”.

Ela usa a finasterida para exemplificar. “Este remédio foi utilizado para uma causa (no tratamento da hiperplasia prostática) e se descobriu como efeito colateral o crescimento dos pelos e cabelos; portanto, hoje vem sendo amplamente empregado para deter a calvície. Esta é uma situação similar com o estudo divulgado pela Agência Fapesp”.

Segundo o boletim da Fundação, para se estudar as possíveis alternativas terapêuticas contra o parkinson em camundongos, o grupo, incluindo três cientistas brasileiros vinculados à Universidade de São Paulo - Elaine Del-Bel, da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (FORP), Leandro R. S. Barbosa e Rosangela Itri, ambos do Instituto de Física (IF, São Paulo/SP) -, conduziu a pesquisa induzindo os animais a uma condição semelhante à doença humana, que trata-se em administrar uma neurotoxina – a 6-idroxidopamina (6-OHDA) – que causa a morte dos neurônios dopaminérgicos.

“Dos 40 animais que receberam a 6-OHDA, apenas dois desenvolveram sintomas de parkinsonismo, enquanto os demais permaneceram saudáveis”, contou à Agência Fapesp. Contudo, se descobriu, posteriormente, por uma técnica do laboratório, que os roedores haviam sido alimentados por engano com uma ração que contém doxiciclina. Sendo assim, começou a investigação da hipótese de que a substância poderia ter protegido os neurónios, conforme aponta a notícia divulgada. Portanto, essa possibilidade de se empregar a doxicilina como um potencial agente antiparkinsoniano, foi graças ao poder de observação do cientista e a posterior investigação do porquê da ocorrência desse efeito.

“Novamente, foi uma coincidência. Mas, devemos encarar como uma boa notícia, pois como dito anteriormente: os medicamentos são destinados a uma causa, mas os efeitos colaterais podem ser desenvolvidos, estudados e empregados para serem empregados, clinicamente, em outras situações”, opina Silvana Górniak.

Este ponto de vista é encarado pela professora como uma tendência, já que as indústrias farmacêuticas não estão desenvolvendo novas moléculas. Neste sentido, para citar um exemplo. “Temos observado nos encontros que participamos que não terá nenhuma molécula nova no curto prazo ou pelo menos não estão investindo em desenvolvimento de novos princípios ativos para antimicrobianos. E isso se deve por diversos fatores”, esclarece.

De acordo com ela, a expectativa é que a indústria aproveite as substâncias que já foram criadas para testá-las com atividades antibióticas com efeitos colaterais que tenha ação ou que possa ter, pois não há nada de novo em um horizonte próximo. “A moral da história é que essas alternativas são excelentes para a ciência”, encerra.