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Jornal da USP

Guia ilustrado mostra as cobras do Cerrado brasileiro

Publicado em 11 abril 2016

Por Aline Naoe

Desinteressante, monótono, com fauna pobre e homogênea. Essa era a visão sobre o Cerrado brasileiro até pouco tempo atrás. “Infelizmente, estamos conhecendo esse bioma à medida em que o destruímos. A ciência está chegando atrasada”, lamenta o biólogo Cristiano de Campos Nogueira.

Pesquisador da área de ecologia no Instituto de Biociências (IB) da USP, Nogueira é um dos organizadores do livroSerpentes do Cerrado – Guia ilustrado, iniciativa que registra em imagens todas as cobras identificadas até hoje na “savana brasileira”. “Precisamos fazer isso agora. Alguns lugares onde recolhemos amostras já estão devastados e é difícil resgatar informação sobre a fauna de áreas assim”, afirma.

O guia, que acaba de ser lançado, foi produzido com os colegas Otavio Augusto Vuolo Marques, do Instituto Butantan, André Eterovic, da Universidade Federal do ABC (UFABC), e Ivan Sazima, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ele dá sequência à série que já retratou as serpentes do Pantanal e da mata atlântica.

Foram reunidas 185 fotografias de 135 serpentes, muitas delas difíceis de serem encontradas e algumas até mesmo na lista de espécies ameaçadas de extinção. É o caso da Philodryas livida, popularmente conhecida como corre-campo. Registrada pelo próprio pesquisador no Parque Nacional das Emas, em Goiás, o animal vive em área de campo, onde não há água, apenas gramíneas. “Essas áreas são as primeiras a desaparecer com a agricultura mecanizada. Para produção de milho e soja, por exemplo, procuram-se essas chapadas porque são áreas planas, altas e fáceis de operar as máquinas”, explica.

Nogueira conta que, em um mês em campo, se veem em geral de cinco a dez bichos. “Com muito trabalho e sorte, você vê 20.” O guia, assim, é resultado de um trabalho de longo prazo. As imagens são acompanhadas de ícones que ajudam a descrever as principais características dos animais, como hábitos, tamanho do corpo e da cauda, dentição, estratégias de defesa e reprodução.

Preconceito – A iniciativa não é estritamente científica ou taxonômica: a intenção também é orientar pessoas que encontrem esses bichos na natureza, para que consigam identificá-los. “Nos trabalhos de campo, eu percebia que as pessoas sabiam muito pouco sobre cobras. Mesmo entre aqueles que moram na região, que vivem no meio do mato, pescam, colhem frutas, há um desconhecimento muito grande, um preconceito”, afirma Nogueira. Como não sabem diferenciar serpentes venenosas das demais, a população acaba matando todos os animais, até mesmo alguns lagartos que, por não terem patas, são confundidos com cobras.

“Precisamos conhecer o Brasil. A diversidade biológica é muito grande e só estamos conhecendo à medida que estamos perdendo, é uma corrida contra o tempo”, afirma o biólogo. “Temos que fazer a população conhecer isso antes que desapareça.”

Segundo Cristiano Nogueira, uma característica das serpentes e também de outros bichos do Cerrado brasileiro é a adaptação para viverem em tocas e galerias. Como a flutuação da temperatura durante o dia é alta, os animais ficam expostos a frio e calor. Já viver nas cavidades é como estar sob um ar condicionado, com temperatura estável. Outra constatação relevante é a importância do fogo para a região. “O fogo ocorre naturalmente no Cerrado, faz parte do ambiente. O problema é quando há ação humana”, explica.

O pesquisador conta que, inicialmente, não se sabia nem mesmo onde procurar os bichos. E foi por acaso que descobriu-se que justamente nas áreas queimadas era mais fácil encontrá-los. “É uma fauna muito diferente do ponto de vista ecológico, muito rica e complexa, não tem nada de homogêneo. Estamos apenas começando a conhecer e é uma descoberta atrás da outra.”

A publicação do livro Serpentes do Cerrado contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da organização WWF-Brasil.

Obra busca orientar população

“Conhecer a fauna de um ecossistema ameaçado pela ação humana é um dos passos importantes para a sua conservação.” É assim que os autores de Serpentes do Cerrado – Guia ilustrado justificam, na abertura do livro, a publicação da obra. “Este guia tem como objetivo auxiliar na identificação das serpentes que ocorrem no Cerrado brasileiro e apresentar informações sobre sua biologia.”

No prefácio do livro, o professor Leopoldo Magno Coutinho, do Instituto de Biociências da USP, lembra que o bioma savana tem no Brasil central seu maior espaço geográfico contínuo das Américas, distribuindo-se por quase 2 milhões de quilômetros quadrados. “Com uma diversidade fantástica de flora e fauna, ele é um dos hotspots (áreas com grande biodiversidade ameaçadas pela degradação) reconhecidos pela comunidade científica mundial. Sua conservação, tanto pela riqueza de espécies quanto por ser um de nossos principais biomas, é de responsabilidade dos brasileiros.” Para Coutinho, a população brasileira precisa aprender a valorizar seu patrimônio ambiental. “Nesse sentido, o esforço dos autores deste guia de campo sobre serpentes do Cerrado é digno de louvor e reconhecimento.”

Serpentes do Cerrado – Guia ilustrado, de Otavio Augusto Vuolo Marques, André Eterovic, Cristiano de Campos Nogueira e Ivan Sazima, Holos Editora, 248 páginas.

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