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Correio Popular

Guia das Santas Casas traça um retrato do Brasil Colônia

Publicado em 19 setembro 2004

Os dois volumes do Guia dos Arquivos Históricos das Santas Casas de Misericórdia, lançados no mês passado pela editora da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, são autênticos tesouros, com informações detalhadas sobre o funcionamento dos primeiros hospitais do Brasil colonial. Durante dois anos, pesquisadores do Centro de Documentação e Informação Científica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-São Paulo) vasculharam os acervos das 110 Santas Casas brasileiras mais antigas, fundadas entre a primeira metade do século 16 e o final do século 19. A equipe foi comandada pela professora Yara Aun Khoury, coordenadora do centro, que percorreu o Brasil ao lado de duas historiógrafas, duas professoras e dez alunos de História da universidade. A pesquisa rigorosa foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), PUC-São Paulo, Universidade Católica de Goiás e Ministério da Cultura. São quase cinco séculos de história contados por documentos que revelam como era a organização social do Brasil Colônia. Em muitos hospitais, os arquivos estavam abandonados, cobertos por insetos ou esquecidos em cômodos tomados pelo mofo, com goteiras. Ainda assim, os pesquisadores conseguiram reproduzir documentos e fotografias históricas muitos estabelecimentos. A Santa Casa mais antiga, a de Olinda (PE), foi fundada em 1531, mas não foi encontrado qualquer registro sobre o seu funcionamento cotidiano. Tudo foi destruído. Há um trecho de nove páginas dedicado à Santa Casa de Misericórdia de Campinas, idealizada em 1860 e efetivamente inaugurada em 1876. O texto traz informações desconhecidas da maior parte dos campineiros. A idéia da construção de um hospital de caridade foi do padre Joaquim José Vieira. Os donativos vieram de cidadãos como Antônio Manuel Proença, Maria Felicíssima de Abreu Soares, entre muitos outros. Mas um teve destaque especial. O milionário português Antônio Francisco Guimarães doou um terço de sua fortuna para as obras. O frei Eugênio de Rumilly, antigo professor do padre Vieira, desenhou a planta do hospital. Em 18 de outubro de 1888, D. Pedro II visitou a Santa Casa. Influência Nas histórias de cada Santa Casa estão registros de mudanças da vida urbana dos locais de suas origens. A forma como as Misericórdias foram instaladas e geridas revelam como elas sofriam influência do governo português e das relações que nortearam o processo colonizador. Muitos hospitais foram construídos de maneira articulada à criação das primeiras cidades coloniais, caso de São Vicente (SP), Salvador (BA) e São Sebastião (SP). Eram estabelecimentos que serviam como "escritórios" da Coroa, de onde vinham os alvarás régios autorizando o funcionamento. O leitor dos guias acaba percebendo que a crise financeira atual dos hospitais públicos é uma herança de um sistema administrativo benemerente, que não visava lucros. Entre as atribuições das casas estavam os atendimentos espiritual, religioso, moral e físico da população mais necessitada. Ao redor das unidades, se reuniam confrarias e as elites abastadas das cidades, que financiavam, a fundo perdido, o atendimento a doentes e o amparo a viúvas, órfãos, idosos e presidiários. Para pressionar ainda mais os caixas das Santas Casas, muitas delas funcionaram em períodos em que cidades brasileiras enfrentaram epidemias de varíola, febre amarela (como a de Campinas), cólera ou gripe espanhola. Aos hospitais cabia alimentar e vestir cada cidadão atendido. Davam até pouso para carentes e mendigos. Os documentos coletados comprovam ainda que hospitais custeavam os funerais dos indigentes. Os arquivos encontrados são úteis não apenas para entender o funcionamento das unidades. Os prontuários médicos e certidões de óbito possuem informações históricas preciosas sobre o avanço da farmacologia e da medicina. Informam tudo o que acontecia em matéria de assistência social, infra-estrutura básica das cidades (instalações sanitárias) e educação para a saúde coletiva. Yara Aun Khoury espera que a publicação das obras atraia o interesse de instituições e empresas que possam investir na preservação do rico acervo que o tempo ainda não apagou. Saiba mais Quem tem interesse em informações mais detalhadas sobre a pesquisa pode entrar em contato com Ivani Cardoso (Lu Fernandes Escritório de Comunicação) pelo telefone (11) 3814-4600. Cada um dos dois volumes custa R$ 80,00. As edições podem ser adquiridas no Centro de Documentação e Informação Científica (Cedic) da PUC-São Paulo, no (11) 3670-8026. O telefone da coordenadora da pesquisa é (11) 3086-4455.