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Revista Revide

Guerra das narrativas

Publicado em 18 dezembro 2020

Por Paulo Apolinário

Enquanto parte do mundo coloca em prática campanhas de vacinação contra a Covid-19, no Brasil, ainda vivemos um embate político em torno de qual campanha ou qual imunizante deverá ser utilizado. A guerra de narrativas e de desinformação a respeito do vírus tem afetado o trabalho de cientistas e profissionais da área de saúde. Ribeirão Preto, por ser um polo de excelência na área da Saúde não ficou de fora.

O diretor da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o pesquisador Rodrigo Stabeli, tem atuado na linha de frente no combate à pandemia no município e na defesa pela Ciência. Apesar da importância da empreitada de Stabeli, ele também foi alvo de extremistas. Em julho, no auge da pandemia em Ribeirão Preto, o pesquisador foi hostilizado em um supermercado por um homem que o acusou de ser um “genocida”. Na entrevista a seguir, o pesquisador fala sobre esse caso, além de discutir a questão das vacinas e a possível “segunda onda” da pandemia no país.

Qual é o papel da Fiocruz em relação ao desenvolvimento e aplicação de vacinas contra a Covid-19?

STABELI: A Fiocruz é o maior instituto de pesquisa e desenvolvimento tecnológico da América Latina. E ela tem três papéis fundamentais. Um deles é o desenvolvimento tecnológico, é a Fiocruz que está abrigando a planta de vacinação. É uma planta que será feita em Santa Cruz (Rio de Janeiro) e será o maior complexo vacinal da América Latina. Na verdade, a FIoCruz já tinha esse projeto antes da Covid-19, porque junto com o Butantan ela é o maior produtor nacional de vacinas.

O outro papel é o desenvolvimento científico. A FioCruz tem vários projetos de desenvolvimento de vacina para a Covid-19, um deles, inclusive, feito em Ribeirão Preto, pelo professor Ricardo Cavalli e financiando pela Fapesp. Por fim, temos um papel na saúde pública. A FioCruz tem capacidade de monitoramento dos dados de vacina e tem capacidade de auxílio a qualquer estado ou ao governo federal em montagem de qualquer plano de vacinação e estratégia de monitoramento a partir do seu banco de dados e cientistas capacitados.

Atualmente, quais são as vacinas que apresentam resultados mais avançados e que podem ser utilizadas no Brasil?

STABELI: Temos 12 vacinas em fase três e quatro delas em estágio muito avançado. A da Pfizer já possui licença emergencial para ser utilizada e já é aplicada no Reino Unido e agora nos Estados Unidos. Porém, é uma vacina de RNA, possuindo um armazenamento complexo. Temos a Coronavac, que é a vacina da Sinovac que está sendo encubada junto com o Butantan, da mesma forma que a vacina da AstraZeneca está sendo encubada pela FioCruz. Ambas estão em fase três, porém, ainda não se abriu o estudo de fase três que mostra a eficácia e a segurança da vacina então é necessário que isso aconteça, creio que deverá ser apresentado entre março e fevereiro à Anivsa.

É sempre bom salientar que a Anvisa, é uma das agências mais respeitadas do mundo e deve dar o aval certificando que essas vacinas possuem de fato segurança e eficácia. Dessas vacinas, o Brasil está apostando na AstraZeneca, na vacina da Moderna na da Pfizer. O governo federal não apostou na Coronavac. Creio eu, por questões políticas e ideológicas.

A data proposta pelo governo estadual para o início da vacinação no dia 25 de janeiro é viável do ponto de vista dos testes e eficácia do imunizante?

STABELI: O Plano de vacinação apresentado pelo governo do estado de São Paulo é um bom plano de vacinação. Ele leva em consideração os grupos prioritários, incluindo, professores e agentes de segurança pública como prioritários. Um plano de vacinação tem que ser estratégico, então ele não tem que vacinar todo mundo, ele tem que vacinar os grupos que podem ser mais acometidos e os grupos que podem espalhar mais a doença.

No entanto, a apresentação de uma data é precipitada. Uma vez que a manobra que deveria ser feita é entregar os dados de fase três à Anvisa. Então, a gente percebe uma jogada política tanto do governo do estado de São Paulo, quanto do governo federal. Todavia, uma vez o Doria anunciando uma data de vacinação, ele chacoalhou o Ministério da Saúde que acordou e começou a se movimentar para poder montar a campanha nacional, o que é importante.

Muito se fala sobre os profissionais da Saúde serem vacinados primeiro, mas quais outras categorias teriam essa preferência e por quê?

STABELI: Quando se fala de profissionais de Saúde pode se levar em conta todos os profissionais que trabalham com pessoas. São os médicos, enfermeiros, fisioterapeutas etc. Profissionais que precisam entrar em contato íntimo com uma outra pessoa para poder fazer o atendimento. Então, serão vacinados tanto aqueles que estão trabalhando diretamente com o vírus, quanto aqueles que estão trabalhando diretamente com a população. Para poder aumentar aquela barreira de proteção contra o vírus, também serão vacinados os professores e os profissionais de segurança pública, além dos idosos que compõe o grupo que apresenta maior risco de morte.

Há o receio entre algumas pessoas de possíveis efeitos colaterais da vacina. Esses efeitos existem? Quais são eles e quais as chances de ocorrerem?

STABELI: Todo medicamento possui reações adversas. Você pega a bula de um medicamento é a mesma de uma vacina. Tem os eventos adversos mais comuns e os mais raros. Mesmo em um medicamento novo, só conseguimos observar os eventos raros em uma fase quatro, que é quando você imuniza milhões de pessoas. Todas as vacinas que temos conversado apresentaram eventos adversos leves e comuns de vacinação, como dor no local, febre, sudorese. Nenhuma delas apresentou evento adverso grave que levasse a sequela ou morte. Lembrando que quando existe um evento adverso grave, levando a sequela ou morte, o estudo é interrompido para que sejam feitas melhorias. Só assim, os testes podem ou não continuar. Inclusive, a vacina da Sinovac foi a que menos teve efeitos adversos.

É correto afirmarmos que entramos na "segunda onda" da pandemia?

STABELI: Em países europeus temos cerca de 25 infectados para cada 100 mil habitantes, enquanto no Brasil, são cerca de 2 mil infectados para cada 100 mil. Isso quer dizer que a gente não sabe nem a origem e nem para onde essa doença vai. Eu não considero segunda onda. Em números absolutos, nós nunca tivemos uma queda de infectados e nem de número de mortos. Então, isso é mais uma jabuticaba brasileira para dizer que "está tudo bem”.

Além disso, estamos observando agora, principalmente, no centro-oeste e sul do país, um aumento significativo da doença. Que já fez saturar algumas capitais, como Rio de Janeiro, que está chegando em São Paulo e deverá vir para o interior. Certamente, se não propuserem medidas de controle, iremos chegar em meados de janeiro com sistema de Saúde colapsado.

A disputa política pela narrativa da vacina tem prejudicado o trabalho dos especialistas na área?

STABELI: Fazer política de saúde pública é diferente de fazer política. Política de saúde pública exige ação, exige menos “gogó” e mais trabalho. A narrativa da vacina e a disputa política que a gente tem percebido tem atrapalhado muito o nosso trabalho. Primeiro porque, coloca mais uma vez a ciência em descrédito e agora alegam que as instituições públicas “não prestam”.

O Butantan é um patrimônio do povo brasileiro. Apesar de ser uma autarquia estadual, ele tem uma história da saúde pública importantíssima na erradicação da peste bubônica e na soroterapia de acidentes ofídicos. Já a FioCruz foi criada a partir do instituto soroterápico federal para poder cuidar da febre amarela, da peste bubônica e foi ela quem conseguiu erradicar a varíola no brasil. E a Anvisa que foi criada em 1999, que é a segunda melhor agência em capacidade de organização e de fiscalização do mundo. Então, essa narrativa só prejudica um patrimônio que é do povo brasileiro.

Recentemente, o senhor foi hostilizado por conta do seu trabalho. Poderia contar melhor como foi essa situação e o que o senhor pensa sobre essa onda de ataques?

STABELI: Chegou um sujeito de meia idade e perguntou se eu não era aquele pesquisador que aparecia na televisão falando sobre o Coronavírus, eu disse que sim. Então ele começou a dizer que eu era um genocida, que eu deveria ser investigado pelo Ministério Público que eu estava matando gente por não adotar nenhum uso farmacêutico e estava dizendo para as pessoas ficarem em casa.

O mundo está polarizado e no Brasil, infelizmente, temos um presidente que trata aquilo que ele não acredita com violência. Não existe uma discussão científica ou uma discussão humanizada. Temos que trabalhar com fatos, não crenças. Quem lida com vidas humanas tem que ter responsabilidade. Eu vejo com tristeza essa violência, mas eu não vou deixar a minha responsabilidade de lado, de cuidar da vida e da dignidade humana

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