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Luíz Müller Blog

Grupos de Família foram os que mais espalharam fake News durante a campanha de 2018

Publicado em 13 dezembro 2018

Por Luiz Müller

IHU On-Line – Ao longo da campanha eleitoral de 2018, constatou-se que os grupos de WhatsApp que mais põem em circulação notícias falsas são os grupos familiares. Como compreender esse processo?

Sérgio Amadeu – Conforme relatei antes, os grupos de WhatsApp são dutos fechados. Somente a empresa que controla a plataforma possui o mapa dos fluxos das mensagens. Ela possui os metadados das mensagens enviadas. Os grupos de família eram infectados com desinformação a partir de um ou mais de seus membros. Esses familiares eram atingidos diretamente pelos disparos controlados por agências de microssegmentação ou porque integrava um grupo de apoiadores de Bolsonaro. Diversos grupos de criadores foram pagos para criar os memes, vídeos e mensagens com uma estética específica para parecer que foram produzidas pela minha tia.

Nas eleições de 2016 nos Estados Unidos havia acontecido um fenômeno semelhante. A diferença está no uso do WhatsApp e na cultura política dos dois países. No Brasil, infelizmente, não acertamos contas com nosso passado escravista, com a violência desmedida das elites econômicas, com os crimes da ditadura militar. Isso permite que a desinformação encontre um terreno mais propício no Brasil. Nos Estados Unidos, Trump jamais defenderia uma ditadura militar como solução para a sua nação. Jamais bateria continência para outra bandeira. Isso seria combatido até mesmo por setores da extrema direita norte-americana. Para eles, o modelo autoritário deve ser aplicado na terra dos outros. No Brasil, Bolsonaro cultuava a destruição da democracia, a violência “na ponta da praia” (jargão militar para o fuzilamento de opositores do regime militar) e o entreguismo mais grotesco.

“Precisamos gradativamente reconstruir os parâmetros da realidade. É preciso atuar nas redes criando comitês de esclarecimento e de reconstrução da história. Não podemos achar graça, ter pena ou simplesmente sentir raiva de tanta ignorância. Isso é o que a direita alternativa pretende. Precisamos melhorar nosso modo de falar e expor. Não podemos ver um primo, uma irmã ou tio falando que a Klu-Klux-Klan (KKK) é de esquerda sem mostrar que isso não é real. Precisamos fazer pacientemente o esclarecimento necessário, pois trata-se de desconstruir um processo de esquizofrenia coletiva.” (Sérgio Amadeu)

Esta é apenas uma das perguntas de uma esaclarecedora entrevista do Instituto Humanitas da Unisinos com Sérgio Amadeu, membro do Comitê Gestor da Internet no Brasil. Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui

Sérgio Amadeu da Silveira é graduado em Ciências Sociais (1989), mestre (2000) e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (2005). É professor adjunto da Universidade Federal do ABC (UFABC). Consultor de Comunicação e Tecnologia. Foi professor titular do Programa de Mestrado da Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero (2006-2009). Presidiu o Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (2003-2005) e foi membro do Comitê Gestor da Internet no Brasil (2003-2005). Pesquisa as relações entre comunicação e tecnologia, práticas colaborativas na Internet e a teoria da propriedade dos bens imateriais. Autor dos livros: “Exclusão Digital: a miséria na era da informação” e “Software Livre: a luta pela Liberdade do conhecimento”. Desenvolve trabalhos nos seguintes temas: exclusão digital, tecnologia da informação e comunicação, sociedade da informação, economia informacional, cidadania digital e Internet. É parecerista AD-HOC da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo