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Nova Maturidade

Grupo EAPS tem como foco envelhecimento e aparência

Publicado em 30 dezembro 2019

Aparência é um tema importante e pouco debatido quando se fala em envelhecimento. Porém, vem ganhando destaque com o trabalho desenvolvido pelo grupo de pesquisa, ensino e extensão Envelhecimento, Aparência e Significado (EAPS), que completou dez anos no dia 28 de agosto de 2019 na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). Gerontologia, Moda e Antropologia fundamentam os trabalhos do grupo.

Para celebrar a primeira década, o EAPS promoveu no mês de novembro seu I Seminário de Pesquisa com o lançamento do site do grupo (clique aqui ), uma exposição fotográfica e ainda foi responsável por um número especial da Revista Kairós Gerontologia com o tema “Envelhecimento e Aparência” (acesse aqui ). Conheça mais sobre o EAPS nesta entrevista com a coordenadora do grupo, a professora dra. Andrea Lopes (leia mais no link ), que atua na graduação e pós-graduação em Gerontologia da EACH.

Nova Maturidade: Como surgiu o grupo de pesquisa?

Andrea Lopes: Tenho clareza que o EAPS, grupo de pesquisa, ensino e extensão Envelhecimento, Aparência e Significado, nasce em 2009 muito de um interesse meu que eu não sabia que tinha ou nunca me permiti ter digamos assim. Depois você vai ganhando ciência das coisas que te motivam e te encaminham, mas no começo foi uma obra do acaso. Eu tinha entrado em 2007 na EACH, e em 2009 a professora da disciplina de Sociologia da Moda, Ana Paula Simioni, da Têxtil e Moda, pediu licença e na época o suplente era o professor Boueri (José Jorge Boueri Filho). Eu dava Antropologia e Aspectos Socioculturais do Envelhecimento, ele me convidou e fui super-resistente.

NM: Você decidiu aceitar o convite e como foi a adesão dos alunos?

Andrea: Fiz uma reunião com a Simioni, ela me deu toda a carga didática, todo apoio e suporte. Foi muito interessante porque os alunos da Têxtil, era a segunda turma, começaram um boato que eu ia ensinar a fazer meia para velhinho. Cheguei com essa expectativa e foi genial. A turma da minha atual parceira de grupo, a Patrícia Yokomizo, eles foram geniais, muito receptivos. A gente passou um semestre juntos, fizemos inúmeros trabalhos diferentes, e dentre os debates eu levava óbvio a questão do envelhecimento por conta de ter vindo da Gerontologia. Nessa história a gente começou a compartilhar inquietações mútuas e uma das inquietações era que eles estudavam, se preparavam para uma mulher de 30 anos, bem-sucedida, branca, alta, loira, magra, rica, diva. Eles sabiam que não existia só esse perfil, que já estavam estudando outros perfis, mas o perfil da velhice nunca havia chegado.

NM: Este foi o primeiro passo para o início do grupo?

Andrea: Foi um momento assim de encontro parte a parte muito significativo. Um pequeno grupo de alunas queria mais e eu também. A história do grupo se organizou em cinco fases (Aproximação e sensibilização, confirmação, reconhecimento e legitimação, proposição e oficialização e divulgação), esta primeira fase foi de aproximação das áreas. É uma grande busca da EACH cruzar os campos de conhecimento, ser uma instituição interdisciplinar. Então nesse primeiro momento nós nos encontramos, compartilhamos inquietações comuns e começamos a vasculhar no nosso micro entorno se isso tinha sentido.

NM: Qual foi o passo seguinte?

Andrea: Eu fui convidada para pesquisas grandes como Fibra (Rede Fibra: perfis de fragilidade em idosos brasileiros, polo Ermelino Matarazzo, zona leste da cidade de São Paulo, Brasil), INEP (Educação permanente: benefícios da Universidade Aberta à Terceira Idade EACH/USP), pesquisas com financiamento para compor parceria com outros colegas. Eu comecei a olhar com mais apreço para esta questão da aparência, mas ainda muito incipiente e de uma maneira muito reservada, tímida ainda.

NM: O que mudou a partir daí?

Andrea: Depois da experiência nesses estudos, eu recebi o convite de um colega japonês, dr. Ryohei Konta, que veio para o Brasil fazer um estudo com idosos na Vila dos Idosos, no bairro Pari, em São Paulo (Idosos de baixa renda no Brasil). A gente fez uma parceria institucional e eu organizei um corpo de pesquisadores da graduação para coletar os dados. Ele me permitiu como contrapartida incluir o tema da aparência no protocolo. Então foi a primeira coleta que a gente fez, ainda assim mapeando, enquanto isso esse pequeno grupo foi crescendo e a gente começou a levantar literatura. A experiência na Vila foi incrível, porque eram idosos de baixa renda, baixa escolaridade. A gente estudou o processo de construção da aparência ao longo da vida e viu que tinha um papel central na organização da autoestima, do engajamento social, da vinculação e da história de vida.

NM: O tema foi para os Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs)?

Andrea: Motivados por esses grandes estudos que ainda eram mais de rastreio, eu comecei a orientar pessoas interessadas no tema na graduação. Nessa segunda fase ainda a gente começou a fazer pequeninos estudos dentro dos nossos parceiros de estágio, que começaram a ser apresentados para a comunidade especializada. A gente começou a apresentar os TCCs (Trabalhos de Conclusão de Curso) em congressos, conferências, etc, e a ganhar prêmio. As pessoas começaram a falar não é que isso é interessante.

NM: Quais foram os principais prêmios do grupo?

Andrea: Acho que o nosso maior feito foi ganhar um prêmio na USP Ribeirão Preto (IV Colóquio Internacional de Gerontologia, organizado em 2013 pelo Instituto de Estudos Avançados da Faculdade de Medicina da USP Ribeirão Preto). Nós saímos felicíssimos. A Carol Caio (Carolina Barreta Caio recebeu menção honrosa) estudou o processo de construção de aparência de imigrantes indianos que vieram jovens, como a identidade, a etnia foi recebida no Brasil e como isso interferia no processo de envelhecimento (Envelhecimento e aparência: a experiência de indianos imigrantes da cidade de São Paulo, Brasil). A Joice Plens ganhou um prêmio (primeiro lugar na categoria pôster) no II Congresso Municipal sobre Envelhecimento Ativo – Cidade Amiga do Idoso, realizado pela Prefeitura de São Paulo, o Grande Conselho Municipal do Idoso e Hospital Premier. A gente começou a ser convidada para palestras na comunidade leiga, começou a sair da comunidade especializada e foi ganhando mais confiança que de fato existia uma demanda social repremidíssima. As pessoas não falavam disso.

NM: Vocês participaram de outros eventos?

Andrea: Nesse período inicial nós fomos convidados para participar de um seminário (Seminário de estudos e pesquisa de design: corpo, moda e ética – pistas para uma reflexão de valores), na Faculdade Anhembi Morumbi, que tratava sobre populações, vamos dizer assim, excluídas do campo da moda. A gente foi para falar de velhice (apresentação Moda e Envelhecimento) e outras pessoas para falar de criança, moradores de favela, de comunidades. Foi nossa primeira publicação. A professora Kathia Castilho fez um livro e convidou a gente a escrever um capítulo (Envelhecimento e velhice: pistas e reflexões para o campo da Moda).

NM: Como foi este entrosamento entre a Gerontologia e a Moda?

Andrea: Fomos caminhando e começamos a organizar um repertório teórico-empírico. Eu fiquei muito fascinada e queria estudar mais, porque na minha disciplina principal que é Aspectos Socioculturais do Envelhecimento, eu tinha uma aula sobre aparência e os alunos ficavam muito interessados. Eu escrevi uma optativa e apresentei para o curso de Moda que se chama Envelhecimento e Aparência, que é ofertada para Gerontologia e para Têxtil e Moda. A gente fez o primeiro piloto e foi muito bacana, os alunos se entrosaram muito bem. Eventualmente em algumas aulas alguns idosos da UNATI (Universidade Aberta à Terceira Idade) participaram, foi muito bacana. Hoje eu sou professora dos dois cursos, na Moda como optativa e na Geronto optativas e obrigatórias.

NM: Que conclusões trouxe o levantamento teórico?

Andrea: Chegou um momento em que o levantamento bibliográfico não dava conta das nossas inquietações, teoricamente falando. A Patrícia Yokomizo que me ajudou a fundar o grupo e é daquela primeira turma da Têxtil, decidiu fazer o mestrado comigo na Geronto. Ela é uma pessoa extraordinária, fez um levantamento enorme nacional e internacional nos três campos que a gente trabalha hoje: Gerontologia, Moda e Antropologia. A gente começou a perceber que não existia uma definição clara de aparência e começamos a desenhar ao longo dos anos um conceito de aparência.

NM: Qual é o conceito de aparência?

Andrea: Na dissertação da Patrícia uma das partes é a proposição do conceito que foi publicado também em uma revista de Moda que é a Dobras (Aparência: uma revisão bibliográfica e proposta conceitual – leia aqui ). Ficamos felicíssimos com o aceite. A gente propõe um conceito de aparência que é biopsicossocial, que defende que a aparência é um conjunto complexo de variáveis comportamentais, atitudinais, físicas, genéticas e simbólicas. Foi uma primeira contribuição para definir um conceito teórico.

NM: O que mudou com a definição do conceito?

Andrea: Amadurecemos o objetivo do EAPS e vimos que aos poucos estávamos começando de certa maneira a delinear também, além de um conceito, uma temática científica. A gente está organizando um problema de investigação científica e ao avançar a gente viu que ninguém estava estudando isso nem no Brasil, nem em lugar nenhum. E nem por isso essa situação não estava presente na vida das pessoas idosas, muito pelo contrário. O trabalho da Patrícia (pós-graduação em Gerontologia) comparando octagenárias brasileiras e espanholas, engajadas na comunidade, de baixa renda e baixa escolaridade, como era a construção da aparência e seus significados, teve bolsa da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi nosso primeiro grande financiamento, no exterior também pela BEPE (Bolsa de Estágio de Pesquisa no Exterior). A Patrícia passou em primeiro lugar, é uma grande pioneira também na área da Moda.

NM: Há outros grupos com propostas semelhantes?

Andrea: Entramos no diretório de grupos de pesquisa do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e vimos que não tinha ninguém no Brasil que tinha uma temática explicitamente vinculada ao envelhecimento. A gente se cadastrou esse ano no diretório de grupos de pesquisa, que era uma das nossas promessas dos dez anos. Eu e a Patrícia organizamos um caderno temático em parceria com a Kairós (acesse aqui ). A gente tem dois trabalhos que envolvem a comunidade LGBT, depois tem o bloco étnico e a nossa grande concentração é de trabalhos em serviços especializados para a pessoa idosa.

NM: E a oficina?

Andrea: A gente vai procurando o que fazer. Fizemos esse avanço teórico, no evento (Seminário em novembro) propusemos a temática, o conceito oficialmente, e no meio desse caminho, a gente decidiu falou se aproximar e transformar isso em uma ferramenta de gestão gerontológica, aí montamos uma oficina de extensão que se chama “Com que roupa eu vou?” na UNATI. Fizemos uma versão piloto com nove idosas e essas idosas eram atendidas individualmente em geral por um aluno de graduação e de pós-graduação juntos. O foco da oficina é esse reconstruir e construir, pensar a partir de hoje a construção da aparência e seus significados, e os desdobramentos para o bem-estar e engajamento social. A oficina gerou uma exposição na biblioteca (da EACH) com uma ambientação de uma sala de visita com as roupas que elas tinham customizado, foi bem interessante.

NM: Quais os desdobramentos da oficina?

Andrea: A oficina foi muito exitosa e por conta da experiência de termos alunos de graduação, extensão e pós-graduação juntos, montamos uma proposta de uma disciplina de Mestrado em Geronto chamada Envelhecimento e Aparência. A disciplina foi aprovada em todos os colegiados, e eu vou dar em 2021. É uma disciplina oficial que vai reunir extensão, graduação e pós-graduação. Está vinculado a Geronto mas é a aberta a qualquer aluno da USP.

NM: E quais os próximos planos do grupo?

Andrea: Hoje em dia a gente tem mais clareza de que campos, conceitos teóricos e autores a gente está ancorado. A gente tá nesse momento de balanço: onde nós chegamos, quem somos. São dez anos, primeiro de descobrir que isso existe, depois de convencer as pessoas que isso existe, começar a rastrear para nos convencer e mostrar para os parceiros, leigos ou não. Enfim fechar com essa ideia que existem muitas pistas, que já apontam caminhos frutíferos para pensar a aparência como uma ferramenta de gestão gerontológica muito exitosa porque é uma ferramenta lúdica, complexa, que inclui uma série de variáveis, é uma ferramenta que promove a autoestima, o bem-estar.

NM: O seminário terá uma segunda edição?

Andrea: Nossa pretensão é por enquanto fazer o segundo seminário daqui dois anos para a gente fazer bem feitinho. O que a gente queria com esse seminário, além de anunciar a história toda, é dizer que estamos disponíveis para congregar o debate. A minha pretensão hoje é que o segundo seminário congregue as pessoas que se aproximam da temática, então chamar pesquisadores, profissionais do campo da Moda, da Antropologia, o pessoal da Gerontologia, tentar reunir especialistas dessas três áreas. (Katia Brito)

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